CONVERGÊNCIA DOS MEDIA
A problemática relacionada com a convergência dos media é recente, é polémica e exige um conhecimento aprofundado da revolução comunicacional em curso. Se é verdade que a televisão, a rádio e os jornais, tais quais os conhecemos não irão desaparecer, é igualmente verdade que as novas realidades tecnológicas e comunicacionais já se desenham com nitidez crescente no horizonte do novo século. E se a convergência dos media já é viável no medium a que se convencionou chamar Computador Pessoal, tanto a nível técnico, como de conteúdos, é necessário gerar um novo paradigma de comunicação, com um léxico, uma gramática, uma semântica, uma retórica e uma pragmática específicas, capazes de aglutinar os media tradicionais numa nova ordem comunicacional, em tudo diversa da que foi imposta pelos outros media, nomeadamente a televisão.
Nesta ordem de ideias desenvolvem-se diariamente em muitos centros de investigação experiências destinadas a implementar a criação de um sistema de comunicação em que textos, imagens e sons coexistem, coabitam e interagem num espaço comum. Este é o modo de demonstrar as capacidades de um sistema que aglutina os media precedentes de forma a criar o valor acrescentado fundamental ao novo paradigma interactivo. E muito embora o vídeo seja um elemento importante do medium, ele já não é a única forma de gerar informação, dado que sons e textos - nas suas modalidades hipertextual ou hipermediática - também desempenham um papel de relevo. Pode afirmar-se com alguma segurança que os modelos tradicionais de televisão, bem como dos jornais e rádios já possuem algumas alternativas consistentes à prevalência exclusiva do mass media
Será que os media irão ser aglutinados num único medium? O termo latino medium é aqui utilizado para designar o computador pessoal e este termo, declinado no nominativo do singular da designação latina, tem subjacente uma clara intenção abrangente, mas não redutora. Trata-se de conceptualizar o PC como um dispositivo de comunicação que integra no seu funcionamento boa parte das características dos media que o precederam: rádio, imprensa, televisão e o recém-chegado multimédia. Se a linguagem, a estilística e a retórica dos três media tradicionais são conhecidos e estão estabilizados, o mesmo não acontece com o multimédia (sistema de comunicação muito recente), que ainda está na fase de criar a sua própria forma de expressão, sem dúvida baseada numa nova gramática que foi cunhada com a designação de audio-scripto-visual.
Um novo meio de comunicação exige uma reflexão aprofundada sobre as formas de expressão que viabiliza e, neste caso específico, estamos perante uma ferramenta que propõe a aliança de textos, imagens e sons digitais, de tal forma dúcteis que admitem toda a espécie de combinações caleidoscópicas.
A flexibilidade inerente à codificação digital é catalisada pelo incentivo da interactividade, uma vez que qualquer massa de informação multimédia exige do utilizador diálogo, a fim de se poderem retirar dela todos os benefícios inerentes à sua estruturação arborescente, ou em teia.
A relativa complexidade da construção de produtos multimédia deriva de dois factores: por um lado detecta-se uma tendência manifesta para utilizar fórmulas, estilos e retóricas que são propriedade dos media anteriores; por outro, a massa crítica de produções realizadas é ainda claramente insuficiente para se poderem caracterizar as linhas de estilo e a respectiva estilística, retórica e pragmática a elas associadas.
A análise aprofundada destas questões é essencial à compreensão das potencialidades de comunicação mediada pelo PC. A capacidade de criar bases de dados multimédia não modeladas consiste em proceder à digitalização de textos imagens e sons oriundos dos media precedentes, de forma a proceder como no tempo das vindimas: após a colheita da uva e o seu esmagamento no lagar, o mosto digital é armazenado em barris que comportam biliões de bytes, que aguardam o tempo da sua fermentação. Esta só ocorre com a intervenção da equipa de especialistas em multimédia composta por directores artísticos, designers, infografistas, sonoplastas, gestores de bases de dados e programadores. Este grupo conceptualiza e realiza um dado modelo interactivo a aplicar à base de dados como se este fosse uma torneira no fundo do barril de onde pode jorrar um CD-ROM, um DVD, uma aplicação on-line para a Internet, Intranet, ou qualquer sistema em banda larga. O tamanho, o estilo e o débito da torneira são função da rede por onde flui a informação e haverá tantas «torneiras» quantos os aparelhos e suportes inventados para a fruição multimediática. Se aprofundarmos um pouco a metáfora acima iniciada, verifica-se que na conceptualização do sistema de comunicação interactivo existem alguns pontos de contacto com o trabalho dos enólogos. Ao modelar a base de dados para um sistema multimédia off-line, conservantes, catalisadores e aditivos são escolhidos em função do media onde a aplicação é «engarrafada», de modo a fazer durar o produto durante um prazo de consumo razoável. As editoras têm preferência manifesta pelos produtos multimédia baptizados com a expressão anglófona «ever green», tais como enciclopédias e dicionários, pois garantem edições sucessivas sem despesas de reformulação profunda de conteúdos, dados os prazos de validade avantajados.
Ao invés, as aplicações on-line são como a colheita engarrafada para ser consumida durante uma estação: são preparadas para um consumo rápido e estão sujeitas a aditivos e supressores em processo de intervenção contínuo na fermentação, dado que o seu caracter perecível torna os conteúdos rapidamente obsoletos e fora dos prazos de validade para consumo.
Porém, a arte de saber modelar o mosto digital vai mais longe que a mera capacidade de saber escolher fluxos, catalisadores, aditivos sintéticos e torneiras por onde fluem os bits organizados em bytes. A teia mais ou menos complexa de embraiadores colocados em pontos chave das ligações dinâmicas constitui um elemento decisivo para o sucesso do modelo. A conceptualização da teia, conjugada ou não com uma estratégia arborescente de organização da massa de informação, é o factor que incentiva o interactor a «navegar» na aplicação. As suas formas de navegação são impossíveis de prever. Num produto multimédia off-line as rotas de navegação são finitas porque se confinam à capacidade de armazenamento de informação do suporte utilizado, por exemplo, cerca de 650 Mb para o CD-ROM. O mesmo já não acontece para uma aplicação multimédia on-line. Neste caso, as possibilidades de navegação interactiva podem aproximar-se do horizonte ilimitado, se os apontadores de uma dada área temática embraiarem a pesquisa numa perspectiva planetária. São já abundantes as temáticas que se encontram na Internet que propiciam esta fórmula de pesquisa. Os exemplos mais conhecidos situam-se em áreas relacionadas com bibliotecas, museus, com a droga, a música, os Ovnis, etc. O número de cibernautas que produz informação (pertinente e impertinente) a este respeito não cessa de aumentar diariamente e, neste caso, deparamos com um modelo de navegação interactiva que gera a noção de viagem por uma informação que se estende quase até ao infinito.
As questões relacionadas com o sistema de interacções é muito interessante porque propõe - ela também - a opção entre o extenso e quantitativo e o intenso e qualitativo. Creio que não interessa tanto a pesquisa nas áreas da extensão e da quantidade excessiva, dado que a informação recolhida contém muito «lixo», difícil e moroso de filtrar. Ao invés, a pesquisa feita sobre bases de dados multimédia bem modeladas, com apontadores e ligações dinâmicas que facilitam um real aprofundamento de conhecimentos é em tudo preferível à navegação à bolina, sem bússola, nem leme, timbre de viagens cibernáuticas conhecidas pela designação de «surfar na net» no monitor, ou no televisor.
É evidente que as bases de dados estruturadas de uma forma qualitativa e intensiva ainda não abundam no modelo de consulta gratuita. Para a sua elaboração exigem-se equipas de especialistas na área científica, a trabalhar em associação íntima com pedagogos e peritos da comunicação interactiva, nomeadamente do ramo da inteligência artificial.
Excerto do livro Televisão Interactiva - A Convergência dos Media, de Carlos Correia, Ed. Notícias, Lisboa, 1998.
Para aprofundar o tema:
[ Do Mass Media ao Self Media ] [ O Eu no Tempo Digital ] [ O Eu no Espaço Digital ] [ O Eu na Rede Digital ] [ Bibliografia ]