DISPERSÃO DOS NÚCLEOS DIFUSORES DE CULTURA
Parece-me oportuno fazer aqui um paralelo retrospectivo entre a evolução dos novos sistemas de comunicação em rede e a caracterização sociológica dos chamados núcleos difusores de cultura.
No passado as escolas, os movimentos e os modelos por elas veiculados conheciam um período de afirmação combativo a que normalmente se sucedia uma fase de apogeu para entrarem num declínio que já anunciava a emergência de um novo movimento. Foi esse, por exemplo, o trajecto da escola Iluminista, que foi ultrapassada pelo Romantismo, este pelo Realismo e assim sucessivamente. A sucessividade novecentista cedeu o lugar na segunda metade do século XX à coexistência no tempo e no espaço de múltiplas escolas, trazendo propostas e modelos antagónicos, que convivem e coabitam na aldeia electrónica em que o mundo se transformou. A desmultiplicação de núcleos difusores de cultura e as novas possibilidades de divulgação dos seus produtos desempenharam um papel decisivo para o sincretismo vigente.
Nos séculos XVIII, XIX e ainda na primeira metade do nosso século um pólo difusor de cultura com a importância da «cidade-luz» irradiava, ofuscando, as produções culturais periféricas. Antes e após a Revolução Francesa de 1789, Paris impôs-se como modelo de escolas, movimentos e modas, imitados urbs et orbis.
Os caixotes de livros dos pensadores gauleses, que chegavam pela recém inaugurada linha ferroviária que liga Paris a Santa Apolónia eram avidamente aguardados pelos tenores da geração de 1870. Os «faróis» que irradiavam da cidade-luz consubstanciaram um cliché que permaneceu no imaginário da Cultura Portuguesa como símbolo da dependência do núcleo difusor da cultura parisiense, que aliás era comum a outros núcleos culturais europeus, na estrita dependência da modas que a inteligentsia parisiense ditava para o resto do mundo imitar.
No final deste século a produção cultural e científica já não transita só por via férrea. A autonomia nos modos de ver, sentir e pensar o mundo é timbre específico das produções culturais localizadas. E até mesmo o fascínio que a indústria cultural norte-americana provoca junto de alguns centros difusores, está esbatida face à necessidade sentida da afirmação de independência e originalidade que é tónica dominante de uma parte da produção cultural.
As potencialidades tecnológicas postas ao serviço da informação e da comunicação não só ajudaram à afirmação multipolar de centros difusores de cultura, como ainda contribuíram para reduzir a importância hiperbólica de faróis do passado a dimensões mais consentâneas com o seu valor verdadeiro. Hoje em dia, as vias que transportam os artefactos culturais determinam não só uma parte significativa das suas características, mas também o seu modo de difusão e irradiação. A desmultiplicação dos centros produtores de cultura está em vias de erradicar faróis e faroleiros do passado na medida em que, tal como está a acontecer nas redes telemáticas, deixou de haver um único centro que controla e irradia a Cultura e o Saber. O sincretismo de modelos culturais que coexistem sincronicamente no tecido social é uma das características mais interessantes deste final deste século. A(s) inteligência(s) e o(s) saber(es) estão dispersos numa miríade de centros difusores e a conectividade em rede reforça as capacidades e as especificidades que identificam e caracterizam cada centro.
Excerto do livro Televisão Interactiva - A Convergência dos Media, de Carlos Correia, Ed. Notícias, Lisboa, 1998.
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