DO MASS MEDIA AO SELF MEDIA
Filmes, concertos musicais, livros, emissões de rádio, monólogos, conversas a dois ou a muitos, são passíveis de serem reduzidos a longas cadeias de 0 e 1, ou seja, bits organizados bytes. A redução dos suportes atómicos a dígitos estruturados na linguagem binária é conhecida como processo de digitalização e está a ocorrer aceleradamente um pouco por todo o mundo. Esta conversão patrimonial destina-se muito justamente a dar razão ao pensamento de Bertold Brecht quando escreveu que «nada nasce do nada. O novo nasce do velho e é por isso mesmo que é novo.» A solução de continuidade patrimonial está assegurada pelo processo intensivo de digitalizar. Mas a decisão de ruptura comunicacional com o passado recente e o presente está delineada no chamado «processo de criatividade destrutiva», glosando a expressão cunhada por Joseph Schumpeter, que consiste em gerar novos modelos e dispositivos que conduzam à substituição mais ou menos rápida dos processos de comunicação típicos dos mass media para, em seu lugar, posicionar o self media. No processo que opõe mass a self media o acto de «criatividade destrutiva» posiciona-se em ruptura com o media precedente e nessa clivagem geram-se boa parte dos obstáculos e reticências colocados por todos quantos estão confortavelmente instalados num establishment que não querem ver ameaçado.
Todavia, o self media trata, fundamentalmente, de fazer emergir o indivíduo da massa anónima em que está mergulhado, de lhe dar rosto, voz e oportunidade de expressão dos seus desejos, pensamentos, criatividade e indignação, trata-se em suma de fazer emergir o Eu da lama indiferenciada do anonimato para o projectar para o céu por onde perpassa a chuva de estrelas, hoje exploradas pelos mass media. O novo dispositivo de comunicação pessoal não é alienígena, nem produto da ficção científica. Existe há vários anos, conhece contínuas melhorias exponenciais nos seus desempenhos, tem um nome, uma tecnologia em crescimento exponencial e várias culturas a ele associado.
Chama-se PC (acrónimo de Personal Computer) e na relação numen/nomen justifica integralmente o conceito de self media. a capacidade de computação dessa máquina é adjectivada de forma individualizada e o atributo que o adjectivo carrega é essencial para lhe determinar a sua característica primeira: o computador pessoal é o meu computador que eu formato e utilizo em função dos meus desejos e das minhas necessidades.
O inconsciente colectivo já integrou este objecto na galeria das entidades que são sinónimo da modernidade na sociedade post-industrial. Fascinante para uns, alergógeno para outros o PC com certidão de nascimento passada em 1984 na I.B.M., ainda é objecto de discussões e de medos inconfessáveis.
Excerto do livro Televisão Interactiva - A Convergência dos Media, de Carlos Correia, Ed. Notícias, Lisboa, 1998.
Para saber mais:
[ A televisão tradicional ] [ As qualidades da TV ] [ A TV Portuguesa ] [ A experiência FSN ]