O EU NA REDE DIGITAL

O paradigma em que assenta a comunicação no século XXI tem um radical informático, esse é um dado inquestionável. A capacidade de processamento dos micro-computadores existentes em muitas casas digitaliza com facilidade a voz humana e a fluência de transmissão de dados entre computadores ligados em rede exclusiva cresceu exponencialmente. Todavia, se uma rede local de computadores instalados numa firma consegue comunicar entre si com um débito normal de dez milhões de bits por segundo, é evidente que os débitos de transferência de dados de que hoje se dispõe na rede pública são manifestamente insuficientes.

Há três anos um modem que comunicasse a 14.4 Kbits por segundo era considerado bastante rápido, hoje velocidades de transmissão inferiores a 56 Kbits são olhadas com comiseração. E até mesmo os 128 Kbits da rede digital com integração de serviços são uma largura de banda escassa

Existem novos serviços disponíveis, que assentam sobre linhas dedicadas, ou que recorrem à comunicação via satélite, porém têm tarifas demasiado elevadas para as bolsas da maioria das pequenas empresas e do comum dos mortais.

O problema que hoje se coloca com premência inadiável situa-se ao nível da largura de banda da rede de telecomunicações, que é claramente insuficiente. A sua concepção arquitectónica terá também de ser revista, como adiante se procura demonstrar. Aliás, é previsível que a própria fórmula tradicional de transmissão de voz acabe por se modificar profundamente. Essa modificação irá tratar a voz como mais um conjunto codificado de bits, que fluem pela fibra em conjugação com outro tipo de dados porque a larguras de banda que a voz digitalizada necessita constitui uma parcela ínfima do débito total que uma banal rede local proporciona.

Deste conjunto de constatações e das exigências que o mercado impõe deriva uma evidência que hoje se configura como incontestável: a arquitectura do sistema de rede instalada já não serve o presente da comunicação e muito menos o futuro. Existem outras soluções arquitectónicas para modelar redes, que já foram experimentadas com êxito e que o mundo das telecomunicações se esforça por instalar ao ritmo e em função da capacidade económica e cultural dos países em que se inserem.

Urge portanto reflectir sobre a transfiguração que está a ocorrer aceleradamente no mundo das telecomunicações, onde o novo e o velho também se entrechocam com algum fragor.

A coluna vertebral de um sistema de comunicação foi estruturada imitando de forma simplista a organização do sistema nervoso: o cérebro é a sede onde chega e de onde parte uma miríade de dados (substâncias químicas, sensações, sentimentos), que fluem pelo corpo num contínuo de trocas de informação vitais. No processamento deste tipo de informação acreditou-se até há pouco tempo que o cérebro era a única e última instância onde se processavam e distribuíam dados. A fórmula cartesiana cogito ergo sum foi um tropo universalmente aceite até ao momento em que a evolução científica infirmou o velho pensamento. Hoje, a máxima criada pelo cientista português António Damásio «Sinto logo existo», na obra O Erro de Descartes - Emoção, Razão e Cérebro Humano. Publicações Europa América, Lisboa, 1994 veio contradizer cientificamente a autoridade do velho doutor, ao demonstrar que a inteligência não está apenas centralizada num único órgão, mas que também se encontra dispersa pela periferia. Os estudo dos processos químicos que ocorrem por todo o corpo demonstrou que a lógica de funcionamento das unidades mínimas de significação do ser humano possuem uma inteligência que é específica do seu funcionamento e que o conjunto de informações que trocam entre si é essencial para caracterizar algumas funções até agora menos conhecidas no funcionamento do corpo e do cérebro. Daí que a concepção do cérebro coma unidade central e única de processamento de dados esteja actualmente em fase de questionamento e de revisão.

Cita-se este fascinante processo de investigação, alienígena no âmbito deste trabalho, porque se considera que, metaforicamente, ele tem algumas semelhanças com o que está a ocorrer no mundo das telecomunicações.

A arquitectura da rede de que hoje dispomos foi primitivamente modelada como um imenso conjunto de fios que saem de uma miríade de pontos para se encontrarem numa estação central que controla, comuta e irradia os fluxos de informação entre os terminais instalados em casa, nos escritórios, etc.

O sistema instalado no território nacional é em tudo semelhante ao da maioria das Telecom europeias, ou das suas equivalentes americanas, Baby Bell. Trata-se de uma pirâmide fortemente hierarquizada, tal qual o foram as pirâmides egípcias, expressamente concebidas para cristalizar a perenidade do poder faraónico. Estes sistemas encarnaram o espírito e a ciência da época da sociedade de massas e podem considerar-se como o seu emblema mais significativo. Os EUA são o país que conhece o maior surto de desenvolvimento no mundo das telecomunicações e é lá que mais aceleradamente se assiste ao desmoronar progressivo deste modelo centralizado. Durante as décadas de 60 e 70 a rede de telecomunicações norte-americana permaneceu estruturada em forma de pirâmide com a inteligência alojada no topo das centrais e os terminais estúpidos em casa dos assinantes.

Peter Huber, autor de The Geodesic Network escreveu a este respeito: « o equipamento instalado em casa do assinante era primitivo e ocupava o humilde posto de base. Nos degraus superiores da pirâmide, rigidamente estruturada, assentam os cinco ciclos do sistema de conectividade da AT&T. Milhares de conexões do tipo classe 5 servem as delegações regionais. Uma mão cheia de conectores da classe 1 estão situados no topo, providenciando aos mais altos níveis de coordenação e de controlo, a nível nacional. Os conectores das classes 2, 3 e 4 concretizam operações de intermediação. Esta estrutura tinha a solidez e a inflexibilidade da Grande Pirâmide, à qual se assemelhava, pelo menos no papel.»

A dinossáurica respeitabilidade da fórmula que regeu o mundo das telecomunicações exige alguma atenção porque se insere num processo histórico com um enquadramento social e uma mentalidade que marcaram boa parte da nossa época. No início do desenvolvimento das redes telefónicas, cada chamada passava por uma operadora que atendia o assinante, enfiava e retirava as cavilhas conectoras, em função da chamada pedida. Era o tempo da intermediação humana, por vezes simpática ,mas lenta e extremamente dispendiosa. Mais tarde, apareceram os comutadores electromecânicos que substituíram as vozes das operadoras. Esse dispositivo tecnológico durou até ao advento do computador que desalojou a infra-estrutura electromecânica para a substituir por uma digital. Cada central computadorizada pode coordenar o tráfego de 15.000 a 100.000 linhas telefónicas.

Até ao advento e divulgação massiva da micro-electrónica este sistema não só fazia sentido, como não dispunha de alternativas. Na época, os fios de cobre eram relativamente baratos e a sua fiabilidade, razoável. A largura de banda era suficiente para a comunicação da voz e esse era o cerne do negócio.

O processo revolucionário em curso no universo da comunicação veio subverter as regras do jogo e a unicidade de um sistema de telecomunicações realizadas sobre redes de fio de cobre também já tem antecipadamente escrito a seu elogio fúnebre. A cablagem de fios de cobre não é mais sede nem fonte segura do negócio porque demonstra limitações evidentes. Para a transmissão da voz humana bastava fornecer uma rede de cobre que suportasse 4 hertz (uma frequência de quatro mil ciclos por segundo) porque este número de vibrações gera uma frequência que o ouvido humano consegue captar regularmente. O problema maior com que as telecomunicações hoje se confrontam assenta sobre a constatação de que o crescimento exponencial de dados informáticos que fluem pelos velhos fios de cobre não só engarrafa frequentemente o sistema, como gera descontentamento crescente entre os seus melhores e mais exigentes clientes. Daí a necessidade sentida de, num primeiro tempo, equipar as centrais telefónicas com terminais especificamente criados para a transmissão de dados e, numa segunda fase, desencadear os processos conducentes à modificação progressiva da rede, que prevê o crescimento exponencial da largura de banda disponível em casa do assinante.

Segundo analistas norte-americanos os dados informáticos que circulam pela rede tradicional representam 20 por cento dos lucros das companhias de telecomunicações e o seu crescimento é seis vezes superior ao lucro registado com o telefone tradicional.

O novo modelo não é difícil de conceptualizar teoricamente. Tal como em «O erro de Descartes» ficou demonstrado na relação do corpo com o cérebro, trata-se, essencialmente, de constatar que a inteligência do sistema não pode estar apenas alojada apenas na sede central, antes se encontra distribuída e dispersa pelos milhões de terminais que o constituem.

Neste sistema podem ligar-se milhões de máquinas num anel contínuo de fio, ou numa ligação por satélite, desde que cada terminal seja um computador com a capacidade de processamento suficiente para poder realizar as operações de comutação, fragmentação e desfragmentação da informação. O modo de transferência assíncrona de dados (ATM) não ocupa todo o espectro da banda e, é possível transmitir quantidades impressionantes de dados divididos em pequenos pacotes contendo unidade mínimas que viajam pelo planeta quase instantaneamente.

Segundo Richard Ray Salomon do MIT enunciou há alguns anos, a capacidade de débito das redes de telecomunicação será incomensuravelmente maior da que hoje se conhece «com a digitalização de terminal a terminal. A rede pública a funcionar em modo de transferência assíncrona funcionará como um enorme processador de informação».

O modo de transferência assíncrona de dados permite ultrapassar a debilidade inata dos fios de cobre da rede telefónica actual e os novos terminais já não são adjectivados com o epíteto de estúpidos porque são eles e não um qualquer poder central que realizam a gestão dos débitos de informação pedidos por cada cliente. Tanto a montante, como a jusante do processo de comunicação os PC’s sabem como processar informação, fragmentando-a no caso da emissão, recompondo-a na sua versão original, no caso da recepção. E porque a inteligência se situa nos dois pontos do acto de comunicação este flui sem necessidade de qualquer forma de intermediação intervencionista.

A caracterização do conjunto de alterações a realizar na parte material da rede é a questão central que hoje em dia se coloca a qualquer empresa de telecomunicações. A infra-estrutura existente, essencialmente baseada em fio de cobre, demonstra insuficiências crescentes, muito embora as recentes descobertas da tecnologia ADSL e ATM pareçam ter dado novo fôlego ao cobre, retirando-o da prateleira do museu de arqueologia industrial para parecia condenado a passar.

Em 1978 a fibra óptica foi considerada como substituto viável do fio de cobre. Todavia, a relativa pureza do vidro utilizado apresentava dois óbices: existiam duas espécies de interferências conhecidas pela designação de dispersão cromática e modal, que reduziam de forma significativa a distância a que os sinais podiam ser retransmitidos, sem se recorrer à utilização de repetidores. Este problema foi entretanto ultrapassado pelos cientistas da empresa Corning Glass, que descobriram um novo tipo de fibra óptica com a qual eliminaram a dispersão modal. Além disso, os cientistas de Corning descobriram ainda que a dispersão cromática podia ser reduzida a zero através da utilização do comprimento de onda de raios infravermelhos, gerados pelo laser. Ambas descobertas potenciaram de forma considerável a capacidade de transmissão de dados da fibra óptica que desconhece barreiras, ou limites à sua expansão, excepto as que decorrem dos custos económicos relativamente importantes que a sua instalação no terreno ainda comporta.

Segundo afirma Nicholas Negroponte é difícil, em rigor, determinar a largura de banda da fibra óptica. O consenso dos técnicos especializados em torno do tema estabeleceu um número próximo dos mil milhões de bits por segundo, o que significa que «uma fibra do tamanho de um cabelo pode emitir num segundo todos os números do jornal de Wall Street, desde a sua criação e, em simultâneo, um milhão de estações de televisão».

A capacidade anunciada deste novo tipo de redes é impressionante e configura formas de comunicação que extrapolam as expectativas mais optimistas. Todavia, creio ser importante usar de alguma prudência no sentido de contrariar euforias epidérmicas, dado que, como atrás já ficou assinalado, os custos de instalação de uma rede em fibra óptica serão, numa primeira fase, viáveis para os países do grupo G7, mas irão demorar algum tempo até serem uma realidade de mercado em países como Portugal. A debilidade económica crónica é um freio que no nosso país trava sempre as expectativas mais optimistas.

Não há dúvida que, uma vez instalada, a rede de fibra óptica tem custos de manutenção pouco significativos. O norte-americano Claude Shannon, eminente teórico da comunicação e professor do Massachussets Institute of Technology, desenvolveu boa parte da sua carreira de investigador nos laboratórios Bell, da AT§T. Foi ele quem conceptualizou os fundamentos das redes digitais. O seu sistema demonstrou como transmitir voz, sinais de vídeo e dados informáticos sob a forma digital, como armazenar essa informação sempre que necessário e como reencaminhá-la através das interconexões das redes. As investigações de Shannon demonstraram ainda que, uma vez instalada no terreno, os custos de uma rede digital são cinquenta por cento inferiores aos custos de uma rede tradicional.

Creio que será possível encarar num futuro próximo a instalação de configurações híbridas de redes de telecomunicações que utilizem, simultaneamente, o satélite, a fibra óptica ou o ATM, por exemplo.

Excerto do livro Televisão Interactiva - A Convergência dos Media, de Carlos Correia, Ed. Notícias, Lisboa, 1998.

Para aprofundar o tema

[ O Eu no Espaço digital ] [ O Eu no Tempo digital ] [ Convergência dos media ] [ A experiência FSN ]

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