O EU NO ESPAÇO DIGITAL

As noções de tempo e espaço, porque intimamente associadas, definem parte do travejamento da identidade individual. Se existe alguma dificuldade em caracterizar o conjunto de conceitos relacionados com o tempo, dados os efeitos sincrónicos da sua unilinearidade e a fragmentação caleidoscópica da multidimensionalidade que caracteriza as vivências actuais, é mais fácil identificar e definir as questões relacionadas com o espaço.

Quando da irrupção da primeira grande manifestação do culto do Eu, na século XIX, a classe burguesa em ascensão encontrou fórmulas originais de se evadir no tempo e no espaço: o culto dos valores medievos foi a fórmula encontrada pelos artistas românticos da Europa para valorizarem o tempo de um passado mítico e bem distante. Os romances de Walter Scott e do nosso Alexandre Herculano são dois de muitos exemplos de literatura romântica que propõe formas de evasão no tempo, quase sempre de inspiração medieva.

O espaço foi conquistado com recurso a fórmulas de evasão exóticas. Proliferou no século XIX europeu abundante literatura romanesca e de viagens em que se mitificaram as culturas persa, orientais e os prometedores espaços selvagens norte-americanos, recém chegados às literaturas de então. Os românticos almejavam vaguear por espaços exóticos, que não se confinassem aos horizontes estreitos das fronteiras europeias, já então geradoras de spleen. O chamado mal de vivre romântico tinha cura prometida através de viagens redentoras que, segundo os melhores autores, serviam como terapêutica para a maioria das paixões fatais.

O culto pelo exotismo do espaço e a literatura a que deu origem são o deítico que indicia as novas percepções de multidimensionalidade espacial. O desejo de se libertar do eurocentrismo levou o burguês novecentista a procurar lugares desconhecidos, a fim de espraiar sentimentos e manifestar o seu direito à singularidade.

No dealbar do século XXI o espaço e o lugar assumem modalidades diversas, porém assentes sobre o travejamento conceptual da burguesia romântica do século XIX. O exotismo das pradarias norte-americanas já não detém perfumes exóticos, apenas exala a memória magoada dos massacres dos índios, que a corrida ao faroeste desencadeou. O bom selvagem de Diderot sobrevive mal, confinado nas reservas guetto e na memória mistificada dos filmes de Hollywood. Para os visitarmos hoje basta dispor de dinheiro e de meia dúzia de horas, certamente menos nos modernos aviões supersónicos porque as distâncias não cessam de diluir no espaço e encurtar no tempo.

O sentimento de pertencer a um lugar e, simultaneamente, ser cidadão do mundo é um dualismo contraditório, mas característico do nosso final de século. Abolir o longe e a distância, estar «algures em nenhures» é uma noção comum ao cidadão dos países evoluídos, esse mesmo que através dos dispositivos reticulares de comunicação contacta visual e auditivamente com todos os que como ele estiverem conectados na rede das redes.

Para alguns autores, o conceito de «sociedade de nómadas» está em vias de se reconfigurar numa versão sofisticada. A facilidade e rapidez das deslocações no espaço, a possibilidade de desempenhar temporariamente funções profissionais em múltiplos pontos do planeta, a capacidade de conectividade para transportar, de forma virtual, o meu rosto e a minha voz para onde eu desejar, são factos que sustentam o conceito de nomadismo, que hoje já é apanágio de alguns sectores de actividade.

A sustentabilidade do conceito de «sociedade de nómadas» é confirmada pela necessidade de deslocação temporária dos artistas em digressão mundial, dos profissionais de saúde, em missão mundo fora, dos políticos e diplomatas em permanente vaivém, dos executivos das multinacionais que periodicamente transitam de filial em filial, em redor do globo, dos profissionais de turismo, em «órbita» permanente ao redor da Terra, e dos cientistas ligados a universidades prestigiadas, que conferenciam regularmente de escola em escola. A lista poder-se-ia alongar porque já é considerável o número de profissões obrigadas a deslocar-se com grande regularidade, mas o que interessa para a análise em curso é demonstrar que esse nomadismo tem o seu contraponto melódico na necessidade sentida de se possuir um canto, o lugar privado e inviolável que cada um constrói como o sítio secreto, por vezes mítico, onde a paz do tempo de lazer se aliam ao espaço de recolhimento e sossego. A cabana na montanha (no campo ou na praia) poderá, em certos casos, estar equipada com todo o conforto e todas as formas sofisticadas de transmissão de dados e de videoconferência. Esses modos da moderna conectividade podem ser úteis para efeitos de teletrabalho mas dada a sua qualidade virtual não ameaçam irromper ou corromper o recolhimento e o sossego de um espaço pensado e construído como microcosmo sedentário, em tudo oposto ao nomadismo que para alguns já hoje é sentido como fardo insuportável.

Aliás, se olharmos este conjunto de potencialidades da conectividade numa perspectiva exclusivamente economicista chega-se à conclusão de que em certos casos é mais fácil e mais económico realizar regularmente trocas de dados e videoconferências entre pontos distantes do globo, do que reunir grupos oriundos de pontos geograficamente muito afastados. À medida que os preços dessas formas de comunicação descem, a sua viabilidade económica cresce e a funcionalidade aumenta na proporção directa do aperfeiçoamento de sistemas, da habituação e dos automatismos adquiridos por cada utilizador. Neste caso, a anulação da distância é um dado adquirido, cuja eficácia está, por enquanto, a ser globalmente avaliada porque é evidente que nada substitui a força empática da presença humana, o seu potencial interactivo riquíssimo, que frequentemente ocorre pela força da intersubjectividade dos inconscientes reunidos em torno de uma dada questão. Ressalvada esta excepção, que é fundamental, a troca de dados on-line e a videoconferência são instrumentos eficazes para todas as reuniões subsequentes, dado que evitam o desperdício de recursos humanos e materiais. E porque já assim é em certas «ilhas» onde a conectividade está mais evoluída, importa aprofundar os conhecimentos dela decorrentes.

O axioma a partir do qual se parte para a reflexão sobre os problemas que afectam as redes parte da seguinte constatação: o sistema de telecomunicações hoje implantado necessita de uma mudança radical na sua filosofia e arquitectura a fim de que as qualidades do tempo e do espaço possam melhorar de forma significativa.

As redes através das quais hoje comunicamos precisam de mudar o regime de conexão pessoa a pessoa para o regime de conexão computador a computador. Tal como acima ficou demonstrado, a comunicação telemática é alienígena quando cotejada com a maneira como as pessoas dialogam. As qualidades do tempo e do espaço são percepcionados de forma radicalmente diversa pelo homem e pelas máquinas conectadas por dispositivos reticulares de comunicação.

Se numa conversa telefónica houver um segundo de pausa, na maior parte dos casos esse momento nada mais significa que um tempo mínimo, perfeitamente negligenciável para a forma e para o conteúdo da minha conversa. Para um computador que dialoga com um outro, a mesma pausa com a duração de um segundo pode significar um bilião de cálculos que ficaram por fazer porque o processador interrompeu o seu trabalho. Perspectivados à dimensão humana, esses cálculos poderiam demorar muitíssimo tempo, caso fossem realizados com lápis e papel. O segundo de pausa na minha conversa não tem valor de per se, (ou terá quando muito um valor expressivo), ao passo que para o computador essa mesma fracção de tempo representa uma perda importante ao nível da rapidez de cálculo.

Assim também ocorre com a noção de espaço: jamais olvidarei a perplexidade divertida que me assaltou quando, nos primórdios da minha iniciação ao correio electrónico, enviei uma mensagem para um amigo a viver na Austrália.

Soube posteriormente que o meu correspondente tinha o computador ligado. Assim que a minha mensagem chegou, leu-a e respondeu-me pouco tempo depois. Ao ver a resposta plasmada no écran poucos instantes, a incredulidade e a perplexidade assaltaram-me, enquanto permaneceu à tona do consciente a confusão entre os conhecimentos adquiridos por via das teorias e o saber de experiências feito.

Só momentos depois de se haverem dissipado os fumos da confusão inicial, percebi que a minha noção de longe e distância também é alienígena, face ao modo como as máquinas em rede lidam com a noção de espaço. Continuo a conceptualizar Austrália lá longe, próxima dos antípodas, mas para o meu computador, que envia e recebe correio electrónico quase à velocidade da luz, a Austrália está já ali, ao virar dos routers

Excerto do livro Televisão Interactiva - A Convergência dos Media, de Carlos Correia, Ed. Notícias, Lisboa, 1998.

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