O EU NO TEMPO DIGITAL

A identidade do Eu, construído à moda antiga, estruturava-se  na segurança dos laços familiares, na estabilidade do emprego e na certeza da solidez das raízes da nação que nos viu nascer. Com o estilhaçar destas três traves-mestras vive-se hoje uma insustentável leveza de conceitos que marca de forma dramática este final de século.

O sismo que afecta famílias, empregos e nações tem sequelas importantes ao nível da percepção individual do tempo e do espaço. As fissuras entretanto detectadas nos alicerces que estruturam o essencial da psicologia e do comportamento humano, exigem alguma reflexão, para que melhor se clarifique o espectro harmónico das novas opções de vida da Sociedade da Informação, entretanto já esboçadas.

O cidadão que vive e trabalha nas regiões desenvolvidas do mundo pressente os tempos da mudança com alguma angústia. A conceptualização do tempo do final do século XX ultrapassou os limites da cronologia. O tempo psicológico vive-se ao ritmo binário de um propulsor a funcionar em dois regimes: por um lado, o cidadão é sujeito e objecto de acelerações inesperadas em que vários cenários se desenham em simultâneo, em que desempenha vários papéis e várias tarefas de forma síncrona, facto que com frequência gera situações de stress insuportáveis. A este ritmo o tempo parece nunca ser suficiente e a corrida contra o relógio transforma-se uma competição que frequentemente se vira contra si mesmo.

O outro regime do binário caracteriza-se no pólo oposto: momentos há que tudo permanece sereno e aparentemente imutável. São instantes de descanso, meditação e devaneio. Nesses momentos sentimo-nos sintonizados com o relógio biológico das nossas raízes, somos parte integrante de um fluir radicado na tradição, de um tempo de viveres mais lentos, compassivos e bem gostosos.

Existe uma tendência natural para mitificar o tempo passado com uma patine que só algumas memórias selectivas sabem dar. Essas recordações têm tendência a sobrevalorizar os melhores momentos do passado e a esquecer os restantes. A expressão «no meu tempo é que era bom» traduz os vectores míticos da memória individual, que confronta alguns instantes privilegiados do passado com o futuro problemático de uma velhice mais ou menos iminente.

Alguns artistas souberam traduzir de forma ímpar a mitificação do tempo, por vezes realmente vivido, outras simplesmente sonhado. Este é um escape essencial para a manutenção do equilíbrio e da identidade individual. Seja como for, os dois modos de percepção do tempo só na aparência são opostos. Eles complementam-se e são factor do equilíbrio psicológico. A pressão das tarefas do presente e as angústias com o futuro próximo por vezes geram a incapacidade de um relacionamento harmonioso com as raízes de um passado mais remoto.

No tempo presente, a mundividência decorrente dessas perplexidades é angustiante porque potenciada pelas crises vividas a nível da família, do emprego e do país a que se pertence. As fórmulas para ultrapassar esta dualidade, aparentemente inconciliável, radicam no sentimento difuso da necessidade de harmonizar mundivivência e mundividência em formas originais de interacção. As novas dimensões e a complexidade das experiências humanas exigem um aprofundamento de novas fórmulas de mundivivência, que está para lá do simplismo com que o acto de estar no mundo é experienciado. A tentativa de compreensão íntima de dados, factos e conjunturas será, talvez, uma das possibilidades para ultrapassar perplexidades e angústias, desde que a dupla articulação entre a lógica do macro e do microcosmo seja cabalmente vivida e experienciada na diversidade de ritmos que a Sociedade da Terceira Vaga nos impõe.

Creio ser essencial possuir uma visão aprofundada dos novos mecanismos de organização social em que o sujeito aprende a reconfigurar o seu papel nas famílias novas, nas diferentes formas de emprego e na aldeia planetária em que o mundo está em vias de se transformar. Só após essa reconversão mental, os regimes de multitarefa familiar e profissional, bem como os instantes de descanso, meditação e devaneio que a Sociedade da Informação nos propõe, poderão adquirir dimensões estáveis e significados mais consequentes.

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