A cidade de Orlando, na Flórida, dispôs entre 1994 e 1997 do primeiro sistema de televisão interactiva digital acessível ao grande público, o Full Service Network. Concebido e comercializado por um consórcio de que fazem parte a Time Warner Cable, que controla 65,27% do capital, a US West com 25,51%, a Toshiba e a Itochu com 4,61% cada, a FSN, acrónimo de Full Service Network, agregou um conjunto de sinergias específicas a cada uma das sociedades integrantes do consórcio.
Creio ser interessante fazer a apresentação sumária dos actores institucionais deste consórcio, a fim de dar a noção da importância que os grandes grupos económicos mundiais dão a esta matéria. Assim, a Time Warner é um dos leaders mundiais na área da música, do cinema e da televisão por cabo; a US West é especializada em serviços de telecomunicações e serve 25 milhões de consumidores em 14 dos estados ocidentais dos E.U.A.; a Toshiba é leader mundial em sistema electrónicos integrados e sistemas de telecomunicações avançadas; finalmente, a Itochu é a maior sociedade mundial de negócios com mais de 155 mil milhões de dólares de vendas anuais. Opera em 87 países e controla 800 filiais que trabalham com cerca de 50.000 produtos diversificados. O consórcio sub-contratou a criação de software e hardware específico às firmas Scientific Atlanta, ATT e Silicon Graphics.
O Full Service Network integra três tecnologias distintas: a televisão por cabo, o computador e o telefone. Através de um sistema de interface que convida à navegação é possível aceder à programação integralmente digitalizada. Qualquer programa é encaminhado da estação emissora para a casa do consumidor através de um comutador ATM ligado a terminais avançados de telecomunicações.
Creio ser útil apresentar esquematicamente a infra-estrutura tecnológica do sistema, que poderá configurar os novos modelos de televisão interactiva digital: a base de transporte do sinal FSN assenta sobre um cabo coaxial que foi modernizado com o recurso à fibra óptica, o que permite um débito de informações muito elevado.
A montante, o sistema operacionaliza o acesso ao vídeo digital através de um conjunto de unidades com grande capacidade de armazenamento, capazes de permitirem acessos múltiplos a pontos diferentes do mesmo filme sem quaisquer interrupções pontuais nos fornecimentos individualizados. Esta proeza tecnológica é conseguida dado que o vídeo é decomposto em unidades mínimas de informação, cada uma delas «etiquetada» com bilhete de identidade e endereço únicos que são comutados e distribuídos a grande velocidade e em modo assíncrono pela rede.
Esta é a base de funcionamento do ATM, tecnologia francesa, oriunda do CNED, hoje considerada uma ferramenta potencial para o encaminhamento e transporte de grandes volumes de informação digitalizada.
A estrutura central de funcionamento do FSN está fisicamente localizada em Maitland, na Florida. Baptizado com a designação de NOC (Network Operation Centre)
Video Digital Challenge foi o nome dado aos servidores multimédia, oriundos da Silicon Graphics, que acedem aos discos rígidos onde estão alocados os segmentos de informação digital. Sempre que um utilizador requisita um visionamento, o servidor acede ao disco onde o filme está alojado e comprimido, organiza a informação em pacotes ATM, acrescenta o endereço digital do requisitante e envia-o para o comutador .
Globe View 2000 é a unidade de comutação encarregue de ler as informações ATM oriundas do Video Digital Challenge. Trata-se de um sistema de comutação muito rápido capaz de um débito superior a 20 Gigabites por segundo. O ATM lê os endereços dos segmentos informativos e encaminha-os, através de um modulador de frequências apropriado, para o multiplexador Hitachi DS3 que separa os sinais que chegam com um débito de 45 megabits por segundo e transforma-os em sinais discretos DS1 com um débito de apenas 1,5 megabits por segundo. Estes são os pacotes de informação que vão chegar a casa dos subscritores. No regresso do sinal da casa do assinante ao NOC, o Hitachi DS3 funciona como desmultiplexador para receber os sinais DS1 que são de novo encaminhados para os canais DS3.
Na residência do subscritor está instalado o HCT (Home Communications Terminal), concebido e comercializado pela Scientific Atlanta, Silicon Graphics e Toshiba. Esta máquina tem como funções recompor os segmentos de informação no seu fluxo original, descomprimir o vídeo digital que surge na interface que serve de porta de entrada ao sistema. O Navigator é a interface gráfica tridimensional que permite aceder ao sistema interactivo de navegação a partir do qual o utilizador pode operar. Este integra ainda uma rede Ethernet para gestão da sessão, englobando-se neste serviço a gestão das contas e das avarias. Finalmente, o serviço disponibiliza uma impressora a cores da Hewlett-Packard que fornece informação escrita ao subscritor.
Origem do hardware e do software
Dadas a novidade e complexidade tecnológica do sistema em funcionamento reuniram-se tecnologias e programas muito recentes, oriundos de diversos fornecedores. Assim a ATT Networks Systems forneceu o comutador ATM de alto débito, o Gloview 2000 cuja taxa máxima de débito atinge os 20 megabits por segundo. A firma Scientific Atlanta fabricou, em cooperação com a Toshiba, a HCT (Home Communications Terminal) terminal de telecomunicações doméstico. A Silicon Graphics forneceu os servidores multimédia Challenge utilizados no NOC (Network Operations Centre). A Hitachi construiu o multiplexador que trata os fluxos DS3 a 45 mebgabits/s, com separação para fluxos DS1 a 1,5 megabits/s. O DS1 tem uma largura de banda suficiente para enviar informação de controlo, além de poder desmultiplexar o retorno dos fluxos DS1 que volta a transformar em DS3. Finalmente, a Toshiba fornece os componentes dos terminais de comunicação e as caixas de cablagens.
Quanto aos programas necessários para operacionalizar o hardware relevem-se os mais importantes: a firma AND Communications concebeu o sistema de navegação, baptizado com a designação Carrocel. A empresa Ikonic Interactive cooperou com a Time Inc. na concepção da interface do vídeo interactivo. Silicon Graphics desenvolve programas de jogos interactivos, enquanto Time Warner Interactive trabalhou na definição conceptual do sistema de navegação. Objective System Integrators foi a empresa que forneceu o programa NetExpert um sistema de apoio operacional, enquanto Andersen Consulting operacionalizou a integração de todos os sistemas.
Os 5200 assinantes do FSN dispõem, para lá da televisão local e nacional do Guia da Programação Interactiva (Pre vue Express), o cinema em casa (o sistema admite um máximo de 1000 assinantes a requisitarem o mesmo filme), um catálogo de jogos interactivos que se podem jogar com outros assinantes. O sistema de vídeo por pedido oferecerá a programação da CNN, da ABC News, NBC News e Time Inc. Magazines. Está igualmente disponível um sistema de telecompra, a partir do catálogo tridimensional das dos produtos existentes no supermercado interactivo o Shoper Vision, além de outros catálogos de compras de firmas como Sharper Image, Crate and Barrel, The Nature Company, etc.
De entre os serviços a disponibilizar num futuro próximo destaquem-se o Omnio Navigator, um programa interactivo sobre a programação da semana, os serviços de educação (ligação a bibliotecas públicas e acesso à programação educacional interactiva para sistematizar a ligação entre a escola e o lar), bem como serviços pedagógico-didácticos complementares para as escolas básicas, secundárias e superiores. Os serviços de música oferecem uma nova opção que poderá alterar substancialmente a oferta e a estrutura organizativa das editoras discográficas: trata-se do fornecimento de concertos e faixas musicais por pedido específico a que o utilizador acede, grava e paga. O último - mas de certo não o menos importante - dos serviços disponíveis a curto prazo é uma aplicação que permite ao assinante avaliar do seu estado geral de saúde mediante o acesso on-line a consultorias de Medicina.
A descrição detalhada do FSN teve como objectivo demonstrar a importância de que se reveste a televisão interactiva digital, nomeadamente na perspectiva do consumidor.Todavia, o facto de o sistema estar exclusivamente centrado sobre o televisor tradicional, tal facto contribui para o fim do projecto, uma vez que a habituação à passividade da emissão do mass media, esmaga novidade, que não poderá ser geminada com um aparelho com o passado do televisor.
Para aprofundar o tema:
[ Televisão tradicional ] [ Tecnologia da TV ] [ Convergência dos media ]