INFO-RICOS E INFO-POBRES
A conquista dos valores que estruturam o Eu é um processo longo e complexo, gerado na relação que o sujeito individual estabelece com a sociedade em que se insere. Esta relação conhece avanços e recuos que, em última análise, estão na proporção directa do grau de instrução e civilização que as sociedades proporcionam aos cidadãos. Quanto mais aprofundado é o processo educativo de um indivíduo, tanto maior e melhor consciência este adquire dos seus direitos e deveres, da sua importância enquanto ser integrado numa comunidade, que sofre pressões internas e externas às quais é necessário responder com rapidez, eficácia e inteligência crescentes.
A prosperidade e o bem-estar de qualquer comunidade fundamentam-se na proporção directa das capacidades demonstradas pelos indivíduos (organizados em grupo ou isoladamente) de responderem aos reptos cada vez mais complexos que a competitividade externa propõe. É das linhas-mestras dessa competição que se configuram com bastante clareza os contornos que estão a desenhar o perfil da chamada «Sociedade de 3ª vaga». Este movimento desenrola-se à margem ou na periferia dos poderes instituídos e a velocidades diferenciadas, que são função do grau de desenvolvimento dos países mais evoluídos.
A pobreza ou a riqueza de cada nação, o seu sistema educativo, o grau de desenvolvimento e acesso aos novos sistemas de comunicação, constituem os indicadores que delimitam a primeira fronteira que separa os chamados «info-ricos» dos «info-pobres». A segunda linha divisória, no seio dos chamados «info-pobres», estabelece-se no interior de cada país, ou região, entre pequenas comunidades ou indivíduos que, através de iniciativas voluntaristas, reuniram capacidades tecnológicas e comunicacionais para se libertarem da fronteira estreita do isolacionismo e da info-pobreza, entrando por iniciativa própria em alguns dos sistemas da sociedade de terceira vaga.
O novo Tratado de Tordesilhas, que hoje separa os info-excluídos dos info-ricos, já não tem, como o seu antecessor, uma linha divisória solidamente implantada no meio do oceano, sendo que à esquerda do risco tudo é pertença castelhana, enquanto que à direita serão os lusitanos a usufruir terras e bens descobertos. A fronteira deste final de século é bastante mais subtil: ela define-se no interior dos países, das regiões e, por vezes mesmo, no seio das famílias separadas pela aceitação ou recusa em dar o salto da fronteira que delimita os que já têm acesso aos novos meios de comunicação interactiva, daqueles que a ela ainda não acederam.
Excerto do livro Televisão Interactiva - A Convergência dos Media, de Carlos Correia, Ed. Notícias, Lisboa, 1998.
Para aprofundar o tema:
[ A Geração da Internet ] [ O Homem e o computador ] [ Convergência dos media ]