INTELIGÊNCIA: DO CENTRO À PERIFERIA

Assiste-se neste virar de século à recuperação de parte dos valores que enformaram o ideário burguês triunfante. O Eu assume um plano de evidência e de importância crescentes. As liberdades e os direitos dos cidadãos são bandeiras agitadas com maior ou menor efeito demagógico, mas o seu crescimento é função de um movimento de fundo poderoso, que corresponde à necessidade de cada pessoa se afirmar como cidadão de corpo inteiro, com direito à expressão plena das suas potencialidades. Porém, a expressão latina mutatis mutandis define com exactidão a profundidade da mudança, que alguns observadores já apelidam de mutação, dadas a profundidade e extensão das transformações em curso. Tudo indica que na entrada para o século XXI não se trata de recuperar a pureza do ideário que marcou o triunfo do poder burguês, mas de reconfigurar alguns dos seus valores, adaptados à evolução civilizacional e cultural do final de milénio.

O culto do eu, a livre expressão da imaginação, da sensibilidade e da razão, a nova ordem política, jurídica e económica são valores imersos numa saudável crise, sem dúvida alguma potenciada pela emergência de novas ferramentas de informação e de comunicação. Será deste caldo contraditório de forças em presença que se consolidarão os pilares da Sociedade da Informação e, mais tarde, da Sociedade do Conhecimento.

A consciência do processo justifica o slogan do vice-presidente dos Estados Unidos, Al Gore quando na primeira vitória eleitoral do Presidente Clinton afirmou que a comunicação e a informação são o petróleo do século XXI.

A metáfora que associa petróleo e informação foi um slogan político eficaz para aguçar o apetite dos investidores que, a nível planetário, vêem com preocupação crescente o esgotamento dos recursos naturais que durante alguns anos se erigiram como leit-motiv do crescimento e da prosperidade de algumas nações. Se as reservas do planeta estão ameaçadas, insere-se na lógica da política feita à maneira tradicional acenar com um novo El Dorado, um faroeste mítico onde os pipe-line em fibra óptica farão jorrar diariamente milhões de barris de bits (organizados em bytes), cadeias alfanuméricas de informação vital para o domínio planetário da economia, da cultura e da ciência.

Esta visão orweliana do Big Brother só impressiona os que raciocinam os novos sistemas e estratégias da comunicação com a visão e a mentalidade da primeira metade do século XX.

Todos as pessoas que já aprenderam a comunicar através de computadores integrados na rede das redes e conhecem os seus princípios básicos de funcionamento sabem, por experiência e por ciência, que a Internet tem um sistema organizativo sem sede própria, nem presidência de conselho de administração, em suma, sem centro de poder, ou multinacional que controle o seu funcionamento. A inteligência do sistema não está à mercê de um qualquer Grande Irmão porque se deslocou dos centros de Poder para a sua periferia.

É no conjunto autonómico da rede de redes, todas a funcionarem orquestradas pelo protocolo TCP/IP que a vitalidade e a virtualidade do sistema se situam. Será na deslocação da inteligência do seu centro para a periferia que os futuros modelos se irão configurar, em parte à imagem e semelhança da Internet dos nossos dias.

Este processo de deslocação de inteligência do centro para a periferia dos dispositivos reticulares de comunicação é um dado da maior importância que urge clarificar. As diferentes experiências tecnológicas realizadas um pouco por todo o mundo demonstraram as carências e os limites de funcionamento, de manutenção e crescimento de mega-centros de informação e comunicação ligados umbilicalmente a uns quantos terminais que acedem à informação disponível de modo controlado centralmente.

Essa foi a filosofia que nos decorrer dos anos 70 e 80 dominou a conceptualização de computadores grandes, chamados mainframes ligados a múltiplos terminais estúpidos. A adjectivação do terminal está associada ao facto de a máquina utilizada pelo utilizador final estar desprovida de qualquer inteligência informática, permitindo essencialmente entrada e saída de dados. Esse modelo de máquina poderosa, paradigmática da sociedade da massificação, muito embora continue a ser fabricado, é substituído com vantagem pelo crescimento exponencial do poder de processamento dos micro-computadores. E muito embora as capacidades dos micros não se possa comparar com o poder dos seus predecessores, o conceito de rede ao associar máquinas entre si, desloca do centro para a periferia a inteligência do sistema, uma vez que se posiciona ao nível do indivíduo um PC dotado de reais capacidades de processamento quer a nível da emissão de informação audio-scripto-visual, quer no que à sua recepção diz respeito.

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