A TECNOLOGIA DA TV

A tecnologia da televisão assenta num sistema comunicacional do tipo «senhor - escravo». Alguns centros emissores geram programas destinados a serem recebidos por milhões de terminais estúpidos - os televisores. Este modelo de comunicação, típico das sociedade massificadas, merece que sobre ele nos detenhamos um pouco.

Desde a sua criação que a televisão emite da seguinte maneira: o fluxo dos sinais gerados nos estúdios sai da estação emissora e é captado pelas antenas ligadas aos receptores. A atmosfera (há quem lhe prefira chamar o «éter») é um meio medíocre para transportar sinais porque requer o uso de uma porção do espectro electromagnético conhecido pela designação de radiofrequência, muito vulnerável a interferências geradas no meio ambiente. O espectro electromagnético é composto por cargas eléctricas que geram magnetismo, o qual por sua vez produz electricidade numa espiral que se expande na atmosfera.

É esta acção das ondas electromagnéticas que torna possível a emissão de TV. O comportamento destas ondas é similar ao que ocorre sempre que lançamos uma pedra num charco de água: a entrada do corpo sólido no líquido produz ondulação e esta afasta-se em círculos concêntricos. À distância que separa cada pico de uma onda do pico seguinte chama-se comprimento de onda. O número de ondas (ou vibrações por segundo) é conhecido pela designação de frequência. Esta é mensurável ao segundo e é conhecida pela designação de hertz. Ao número de hertz que podem ser transmitidos por um dado meio chama-se largura de banda.

As frequências muito altas e muito baixas tendem a dispersar-se na atmosfera, daí que só frequências compreendidas entre as centenas de milhares e os milhões de hertz (kiloherts e megahertz) sejam apropriadas para a transmissão de sinais televisivos. Frequências ainda mais altas, comportando biliões de ondas por segundo são actualmente utilizadas para a emissão via satélite.

As estações emissoras modulam e transmitem o sinal através de antenas poderosas, que reverberam circularmente. Porém, dados os fenómenos de interferência acima referidos, é necessário proteger o sinal de cada estação, insularizando-o. Isto significa que, por exemplo, para uma emissão na banda dos seis megahertz é necessário ocupar um espaço circundante bastante maior a fim de proteger a qualidade precária da imagem e do som emitidos.

Radica nesta necessidade de protecção de sinal a constatação de que as televisões são esbanjadoras de um bem que é escasso, o espectro electromagnético, dado que para funcionarem necessitam de ocupar uma porção importante, tanto para a emissão, como para a sua protecção. Esta configuração do sistema não admite a possibilidade de retorno, o que quer dizer que a interactividade está ausente das possibilidades técnicas do media.

Hoje constata-se que o espectro electromagnético é considerado um bem escasso, que deve ser criteriosamente gerido. A existência de muitas estações de rádio, de telefones móveis, de comunicações vitais com aviões comerciais, forças de segurança, etc., levou o Instituto de Comunicações de Portugal, quando dos concursos para a obtenção dos alvarás para emissões televisivas, a permitir apenas a existência de quatro estações emissoras no espectro nacional. Esta rede de emissores é potenciada por um conjunto de retransmissores que recebem e amplificam o sinal em zonas onde a emissão é captada de forma medíocre, ou não chega de um todo.

É de justiça elementar afirmar que a sofisticação e a inteligência concentradas nos centros de produção e emissão é notável, a sua aquisição e manutenção custa largas centenas de milhares de contos. Todavia, o esforço tecnológico necessário para «levar a carta a Garcia» não tem correspondência no receptáculo da correspondência: de facto, o receptor que existe na maioria dos lares é um aparelho desprovido de inteligência, daí o epíteto de terminal estúpido. Radica nesta constatação o facto já reiterado de se constatar que toda a inteligência do sistema está alojada no centro, enquanto a periferia, os seja, os assinantes possuem um sistema totalmente desprovido dessa mesma inteligência.

Hoje, há distância de quase sessenta anos, compreende-se que tinha mesmo que ser assim, pois na época o preço a pagar por um electrodoméstico, capaz de receber e de emitir sinais para o espectro electromagnético seria demasiado elevado para se poder divulgar massivamente. A «alma» do televisor actual, o tubo catódico, também já atingiu os limites das suas capacidades. Na sua configuração tecnológica actual ele não possui possibilidades de melhorar significativamente quer a resolução da imagem, quer a capacidade de afixar textos ou grafismos de excelente qualidade. A pobreza eidográfica deste dispositivo tecnológico, cujos aperfeiçoamentos se situam ao nível dos efeitos de maquilhagem mais ou menos promocionais, permite escrever com segurança a crónica da sua morte anunciada, que já foi glosada em tons diversos. E até mesmo essas admiráveis novidades que tardam em chegar anunciando o advento sempre adiado do televisor que se pode pendurar na parede, nada de essencial acrescentam ao aparelho. A publicidade omite que a nova máquina, para além de ser extremamente dispendiosa, pouco tem de televisor: é, de facto um écran de alta resolução, na maioria das vezes ligado a um computador, que também pode receber imagens em sinal composto.

Na sua configuração actual, na forma de moldura tecnologicamente evoluída, ou ocupando um espaço imenso sobre um móvel, pode afirmar-se com segurança que e o tempo da descontinuação do televisor se situa no horizonte dos anos próximos. O mesmo se passa com a restante estrutura tecnológica do aparelho: os sons e as imagens emitidas pela estação central são convertidas pelo receptor, que recorre a tubos de vácuo e a placas com níveis minimalistas de resolução, os indispensáveis para que impressivamente sejam considerados aceitáveis pela generalidade do povo da TV.

O televisor que ocupa um espaço importante em todas as casas, possui uma configuração que se assemelha a um beco sem saída. Recebe a informação passivamente, afixa-a na pantalha e nada dali sai. A forma de digestão que propõe também apela à passividade porque glosa a velha máxima tradicionalista do «comer e calar». E mesmo quando hoje se anuncia com pompa e circunstância que o televisor tradicional possibilita a emissão de programas interactivos, através de uma prótese chamada «set top box» , omitem-se três questões em meu entender essenciais:

  1. a «caixa que se coloca sobre o televisor» (em tradução literal), mais não é que um computador com funções simplificadas, dotado de capacidades de telecomunicação e destinado a fornecer ao aparelho a inteligência que ele não possui para realizar emissões interactivas
  2. a prótese informática destinada a prolongar a vida do televisor foi configurada como uma misteriosa caixa negra, alugada no acto da subscrição, e na qual não se pode (ou não se deve) mexer. Esta atitude é em tudo contrária à saudável curiosidade das diversas tribos informáticas da Geração Net, que não admitem ter em casa máquinas proibidas, seja qual for a cor com que as pintarem
  3. a eficácia do modelo de emissão interactiva, que é por essência paradigmático dos self media, não funciona bem sobre o aparelho típico das emissões mass media e sempre que se pretende acrescentar algo ao televisor, a experiência redunda em fracasso. Nas duas tentativas realizadas a nível mundial a experiência já fracassou fragorosamente por duas vezes: o leitor de discos compactos interactivos (CD-I) da Philips/Sony, que em 1991 pretendeu posicionar-se como «set top box» foi um fracasso de vendas que terminou em 1995; assim também a experiência de televisão interactiva sobre televisor (Full Service Network) da Warner Brothers, Toshiba e outros, foi descontinuada em 1996.

Excerto do livro Televisão Interactiva - A Convergência dos Media, de Carlos Correia, Ed. Notícias, Lisboa, 1998.

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