TV NACIONAL

No dealbar da história da televisão, quando em 1939 a RCA exibiu o primeiro protótipo de um televisor a funcionar, esse engenho assemelhava-se bastante a um receptor de rádio: a maquineta dispunha de um pequeno écran a preto e branco por onde perpassavam imagens titubeantes. Ninguém na altura pôde prever o fabuloso potencial daquela caixa, que iria modificar profundamente a face do mundo, para o melhor e o pior. Aliás os profissionais da comunicação que então reinavam sobre as ondas hertzianas das estações radiofónicas começaram por olhar com um desprezo soberano para o emergente dispositivo tecnológico.

Só depois do final da Segunda Grande Guerra Mundial, em países poderosos como os Estados Unidos, a idade da televisão evoluiu da infância à adolescência, ultrapassou a problemática fase do cabide para entrar rapidamente na idade adulta. A TV americana foi um catalisador poderoso do chamado american way of life e a sua omnipresença no quotidiano dos americanos determinou uma boa parte do seu estilo de vida.

Em Portugal, por via das lucubrações salazarentas, a TV foi um bem que, como tantos outros, tardou a chegar. O ditador de Santa Comba temia os feitiços da caixa de Pandora e na sua mentalidade de pequeno merceeiro de província decidiu que o país não podia suportar mais que um canal de televisão, ferreamente controlado pela Censura e pelos seus homens de confiança. Enquanto pelo mundo fora as televisões evoluíam, Portugal viveu em regime de monocanal, controlado pelo partido único. Foi preciso esperar alguns anos para que o segundo canal estatal pudesse ver a luz do dia, dentro das estritas regras que confinavam o primeiro. Só em pleno regime democrático, o monopólio estatal cedeu parte do seu espaço à concorrência privada.

Numa análise global do fenómeno televisivo português conclui-se que a televisão foi quase sempre velha, passadista e bolorenta. Na fase inicial de construção, a força criativa dos que nela trabalhavam, foi amordaçada pela censura do regime do Estado Novo. Quando finalmente a liberdade chegou em meados dos anos 70, raros foram os que se souberam servir dela. Os hábitos democráticos do pluralismo e da tolerância não estavam assimilados no labor quotidiano da produção informativa e de lazer. Durante os vinte anos que se seguiram, a TV foi tratada como o bonifrate de um poder democrático instável, também ele em vias de desenvolvimento acelerado.

A necessidade de manipular conceitos, consciências e factos através do poder das imagens foi uma tentação totalitária à qual nenhum partido democrático escapou. O amplificador televisivo dos canais públicos foi usado estrategicamente para servir os pequenos e os grandes interesses das guerras intra-partidárias e das guerrilhas nos intestinos dos partidos. As contratações de funcionários foram feitas ao sabor do partido político que num dado momento ocupou o Conselho de Administração. Interessavam menos as reais necessidades da empresa e a competência dos novos empregados, tratava-se essencialmente de equilibrar homens e forças no seio das redacções e a nível das diversas chefias. Hoje, este fenómeno diluiu-se, mas ainda não desapareceu de um todo.

Assim se chegou em Portugal ao crepúsculo da idade da televisão sem se haver experienciado com plenitude o as suas qualidades globais. Esta afirmação não desmerece alguns momentos excepcionais de emissão, embora a produção de programas nacionais tenha sistematicamente sido preterida em favor da compra de séries estrangeiras com custos económicos bastante inferiores.

É curioso constatar que sempre que a TV procura a memória dourada dos seus tempos áureos, para com ela realizar séries retrospectivas, transmite, invariavelmente, os mesmos fragmentos de quatro grandes comunicadores (dois deles já desaparecidos), uma mão cheia de apresentadores na maioria próximos da idade da reforma e algumas cançonetas no invariável estilo das melodias de sempre. Convenhamos que é muito pouco para quarenta e tantos anos de emissões contínuas.

A estreita linha evolutiva da televisão em Portugal caracterizou-se sempre por um desabrochar serôdio. Tudo, ou quase tudo, lhe aconteceu fora de tempo e com um sabor a bolo velho. E até mesmo a irrupção dos canais privados apareceu fora de tempo.

A luta vital pela sobrevivência dos quatro canais que ocupam o espectro hertziano é dramática. As programações dos canais foram e são sistemas importados dos Estados Unidos e do Brasil, dada a falência dos modelos europeus, eles também com problemas congéneres. Dado que a programação cultural não cativa a maioria, privilegia-se a programação tipo média-baixa. Os programas de televisão que hoje entram em nossas casa no chamado horário nobre impõem a uniformidade, pela sua própria natureza de meio de comunicação de massas.

Na lógica que rege as programações é necessário que o maior número possível de espectadores veja o maior número possível de programas às mesmas horas para que o share de audiências garanta receitas publicitárias maximizadas. Este é o objectivo essencial de qualquer estratégia de programação. Não interessa que o público seja composto por uma enorme diversidade de pessoas com gostos, passatempos e sensibilidades diversas, que lêem milhares de livros ou revistas com temáticas diferenciadas.

A televisão que hoje nos impõem trata a riquíssima diversidade humana reduzindo-a ao nível do menor denominador comum. Daí o recurso a programas que exploram as pulsões mais primitivas do cérebro reptiliano. Em certos momentos do chamado horário nobre a descida aos infernos da programação competitiva, revela algum desrespeito pela dignidade do espectador. Essa, em última análise, a razão que explica a exposição diária das famílias, a doses maciças de publicidade agressiva, cenas de violência, de exploração desbragada dos medos, ansiedades mórbidas e pulsões primárias de exibicionismo narcisista em concursos atentatórios da dignidade do género humano.

De degrau em degrau, a televisão tradicional desce os degraus do pedestal da fama para se atolar na vulgaridade. Ao afrontar a dignidade humana, a televisão tradicional está a escrever, pelo seu próprio punho, a crónica do seu passamento.

Para aprofundar o tema

[ Televisão tradicional ] [ Diagnóstico tecnológico ]

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