História da Caricatura em Portugal

O grotesco ou o caricato desenvolveu-se mais precocemente na palavra do povo português do que na imagem. Na época medieval, a crítica expressava-se, essencialmente, pela produção de poesia trovadoresca satírica que proliferava através das cantigas de escárnio e maldizer e pela figura do pregador satírico, o bobo. É ainda pela palavra representada que surge a obra do grande satírico português, o dramaturgo Gil Vicente.

Com o aparecimento da Inquisição, o espírito satírico nacional esvai-se, passando a estar associado à subversão da sociedade.

Só mais tarde, no século XVII se reúnem as condições para o humor renascer. A imprensa, desde logo, se mostrou como o seu mais fiel suporte, fazendo veicular a crítica satírica através de folhetos de cordel, papéis volantes, etc.. Os desenhos que surgem nesta época são adaptações de trabalhos estrangeiros que procuram criticar o sistema político nacional, uma vez que a arte da gravura erudita era uma arte sem raízes na tradição artística portuguesa.

O único exemplar de sátira erudita portuguesa da época foi criado pelo artista nacional Viena Lusitano. Os focos de arte popular continuam nos desenhos satíricos como expressão do sentimento de revolta contra o poder.

As influências liberais, as guerras napoleónicas, a violência política de um modo geral e a instabilidade do pensamento desencadearam uma série de reacções na imprensa da época. É a partir do séc.XIX que a produção jornalística e a sátira flutuam ora ao sabor da liberdade de expressão ora ao sabor da intolerância do poder. Em meados de 1850 surgem os primeiros jornais com ilustrações satíricas: «O Patriota», «O Torniquete», «Demócrito», «Duende», etc...

Nesta época os artistas eram quase todos artesãos que ilustravam grosseiramente uma legenda ou um texto satírico. As caricaturas de teor político surgem como resposta à repressão, à ditadura, ao despotismo e na maior parte das vezes são anónimas ou assinadas por pseudónimos.

A alegoria é o primeiro recurso da expressão simbólica satírica, mais tarde recorre-se à metamorfose antropomórfica, isto é, à fusão das características do homem com animais e objectos.

Foi assim, no anonimato, que nasceu a caricatura nacional e os trabalhos daquele que é considerado por muitos o primeiro caricaturista português: Cecília.

Com o desenrolar do século, os ânimos violentos do desenho acabam por dar lugar a uma nova concepção filosófica de arte, mais preocupada com a evolução estética. Manuel Maria Bordalo Pinheiro, Manuel Macedo e Nogueira da Silva, foram os principais responsáveis por este virar de página na vida da caricatura em Portugal.

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