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O apogeu da carreira de Bordalo surgiu com o lançamento do mais célebre álbum de caricaturas, até então produzido, a 12 de Junho de 1879. |
Estatuto editorial:
«O nosso titulo não tem pretenções a epigramma: representa antes de tudo um symbolo. Antonio Maria, meus senhores e minhas senhoras, intenta ser a synthese do bom senso nacional tocado por um raio alegre d'esse bom sol peninsular que n'este momento nos illumina a todos.
Fará todas as diligencias para ter razão, empregando ao mesmo tempo esforços titanicos para, de quando em quando, ter graça.
Possuido d'estas duas ambições, claro está que Antonio Maria não tem outro remedio, na maioria dos casos, senão ser opposição declarada e franca aos governos, e opposição aberta e systemática ás opposições, o que não o impossibilita de ser amavel uns dias por outros, e cheio de cortezia em todos os numeros.
Como Antonio Maria não é romantico por varias razões, entre outras por não se chamar Arthur, claro está que não encherá as suas columnas de versos para piano, nem cultivará o necrologio com extrema predilecção; entretanto deve confessar que não vem possuido do extremo desejo de derribar as instituições, mas tambem por que lhe faz conta ellas assignem primeiro.
Muito menos o domina o espirito monopolisador que tanto caracterisa o commercio das letras. Antonio Maria, abre os braços a todos os confrades que saibam ler e escrever, ou que tenham a sciencia de assignar de cruz, pedindo-lhes a honra de o fazerem depositario dos segredos do seu espirito.
Impõe-lhes só a condição de se darem ao trabalho de estarem como se deve estar diante de senhoras e, sobretudo - isto é que Antonio, o justo, e Maria, a immaculada, lhes recommendam muito - que tenham alguma graça! É uma coisa que de mais a mais não custa nada!...
Faremos todos juntos, em prosa e verso, á penna e a carvão, a sillhouette da sociedade portugueza no ultimo quartel do seculo dezenove.
N'este llogar dançará sempre ao rufo do tambor, bem alto para que todos o vejam, o acontecimento capital do dia, quer esse acontecimento seja a queda d'um ministerio das alturas do poder, quer a escorregadela d'um gato das eminencias d'uma agua furtada.
Tratar-se-ha aqui com a maior imparcialidade, do ultimo discurso proferido no seio do parlamento, da ultima navalhada vibrada nas entranhas de Alfama, ou da ultima trova desferida sob os laranjaes em flor, uma vez que essa voz, essa navalhada, e esse cantico, representem um nota qualquer do monotono concerto politico, social e religioso em que uma orchestra de cinco milhões de habitantes, sentada á beira-mar, executa ha uns poucos de seculos a mesma musica patriotica, alternando uma vez por outra os Lusiadas com o hymno da Carta.
Pedír-se-ha com bons modos aos referidos acontecimentos, que, desde que S.Ex.as tenham de se apresentar aqui á hilaridade publica, se patenteiem com toda a verdade do seu caracter e da sua physionomia, sendo conveniente que dispam as suas sobrecasacas e as suas quinzenas, envergando os trajes dos clowns, pondo franqueza nos gestos e farinha na cara, de maneira que a transfiguração dê o perfil exacto de sua personalidade real.
Á corda bamba, meus senhores, á corda bamba!»
Embora o circular enviado aos seus leitores não tivesse "pretensões a epigrama", teve sem dúvida origem no nome do estadista António Maria de Fontes Pereira de Melo, alvo preferencial da crítica bordaliana. "Fontes, o notável estadista, que durante anos ocupou o lugar mais eminente da política portuguesa, foi a principal vítima do lápis de Bordalo, que pega dele por todos os lados, o torce, o achata, o estica, o empoleira, ajusta-lhe a cabeça a todos os corpos, faz-lhe dar saltos, cambalhotas, mergulhos, coroa-o com as raízes dos dentes apanhados em nevralgias de ministro, que coincidem com crises ministeriais, transforma-o em polichinelo, fá-lo cavalgar através da Lusa cambalhota, estampa-o no Álbum das Glórias (...) e não o larga até ao dia em que a morte rouba a vítima ao lápis implacável" (in Arte e Artistas Contemporâneos, Ribeiro Artur).
Nas páginas d'O António Maria desfilam os principais tipos da sua galeria de personagens - o Zé Povinho, o Pist, o Arola e o Fagundes - ao lado da República e de composições como "O que pode ser", "Amor da pátria", "O dia de reis", "O movimento eleitoral" (eleições de 1881) e "O voto livre", onde Rafael fez campanha eleitoral a favor de Manuel d'Arriaga, António Polycarpo da Silva Lisboa e Sebastião de Magalhães Lima.
Teatro e política são uma constante nos comentários da 1ª e 2ª séries d'O António Maria, enriquecidos no campo artístico com a colaboração do irmão, Columbano, e do filho, Manuel Gustavo. Em 21 de Janeiro de 1885, o jornal foi suspenso e só voltou a reaparecer a 5 de Março de 1891, precisamente um mês depois do desaparecimento do Pontos nos ii. A 2ª série prolongou-se até 7 de Julho de 1898, embora com uma periodicidade muito irregular a partir de 1895.
António Maria habilitado (5 de Março de 1891):
O Antonio Maria esteve interrompido durante alguns annos por muitas e complicadissimas razões de familia, que as conveniencias policiaes e a razão d'Estado não permittem que nós tornemos publicas... A principal foi o desaccordo de principios que se estabeleceu entre Antonio, philospho da escola de Sancho Pança, e Maria, a personificação da furia sertaneja e alfacinha. Antonio procurava ser o bom senso e a graça indigena, sem grandes admirações pelos homens, mas tambem sem grandes odios por esses medonhos animaesinhos de dois pés, sobrecasa, luvas pretas e boquilha, que formigam e esfervilham das onze ás tres sob as arcadas do Terreiro do paço. Maria era a pontinha de fél, era a dynamite, era o venenosinho do capote e lenço, introduzindo-se todos os dias na santa beatitude do atelier. Todas as quintas-feiras, Maria vociferava colera aos ouvidos de Socrates...
- «Estupido! Semsaborão! Pudésse eu pôr os pontos nos ii, e tu verias como logo se mudava a face da terra!»
E o bom philosopho, que todas as semanas fazia todas as diligencias para ter razão, empregando ao mesmo tempo esforços titanicos para, de quando em quando, ter graça, - o bom philosopho disse um dia á esposa:
- «Pois bem , mulher... Põe tu agora os pontos nos ii»
E Maria tanto pôz... tanto pôz... tanto pôz... que um dia o diabo andava á solta, o diabo d'ella se acerca... e zás! corta-lhe o fio ao discurso!...
Como Xantippe arrependida, chorando aos pés de Socrates e pedindo ao bom do philosopho que lhe perdôe e que lhe bata, assim Maria, chorosa e triste, se approximou de Antonio, pedindo-lhe que retomasse o governo da casa. Ao que Antonio, meio desilludido das coisas d'este mundo, lhe retorquio n'estes termos:
- «Mulher!... Tu já fôste a desgraça de nosso pae Adão, quando a curiosidade te levou a mordêr fructos prohibidos do Paraizo. Hoje, como ha dez mil annos, o fructo prohibido é sempre a Verdade... Já o disse um grande conhecedor das miserias humanas, quando d'est'arte se exprimio: «a palavra foi dada ao homem para occultar o seu pensamento...». Ora, mulher, ter razão é o que toda a gente procura ter, até mesmo o preclaro dr. Rapozas... E o nosso fim deve antes ser procurar ter graça. Foi para isso que nos unimos, era para isso que atiravamos ao mundo, todas as quintas-feiras, com a vida escripta d'esta vida airada e com os narizes caricaturados d'esta sociedade... Tu quizéstes dar outro rumo ao barco... Pobre de ti, mulher, que mal sabias as tristezas e suspensões que te estavas preparando!...
A sociedade, mulher insensata, é um pepino que Deus se esqueceu de torcer de pequenino. Foi crescendo, foi medrando, foi asneando, e hoje é esse vil trambolho que por ahi anda á tona, sem Rei nem Roque, encalhando para a direita, abalroando para a esquerda, sem ninguem que o governe.
Não digo com isto, mulher dos meus peccados, que não devamos fazer esforços titanicos, para vêr se fazemos d'esse trambolho uma coisa quasi apresentavel... e comica. Mas justamente porque é um trambolho de Hercules, é que nós precisamos conservar n'esta lucta hebdomadaria pelo aperfeiçoamento do já citado e recitado trambolho um sangue-frio, tão frio, que nunca suba para cima de zero...
Já disse o velho Guizot, que para haver espirito precisa o espirito de ser livre... Mas quando não ha liberdade?... Só o sangue-frio, e jamais o sangue a ferver, nos pode salvar.
Conservemos portanto a zero, e até abaixo de zero, esse liquido vermelho que nos corre nas veias. Em vez da furia, a reflexão; em vez de mau genio, a santa e pacata ironia de quem se sente bem com Deus, e de quem não tem nenhuns motivos para estar mal com o Diabo.
Lembra-te, Maria, do que ha doze annos escrevia na taboleta do nosso jornal, o querido amigo e grande humorista que hoje dorme o somno eterno á sombra dos cyprestes de Saint-Ouen: - «O Antonio Maria não vem possuido do extremo desejo de derribar as instituições vigentes ainda este mez, não só porque isso faria algum transtorno ás referidas instituições, mas tambem porque lhe faz conta que ellas assignem primeiro.»
«Não procuremos derribar coisa nenhuma... ainda este mez!... Procuremos apenas distrahir o leitor amigo com a chronica illustrada das coisas comicas que tambem rebentam em quadras tristes...»
Assim fallou sizudamente o bom homem Antonio á irrascivel Maria. E d'ahi resultou a ressurreição d'este semanario, que Deus e a Policia tenham em sua santa guarda... Amen!
A Redacção
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