Extinto o Psit!!!, e auxiliado por João José dos Reis, lança o 1º número (6 de Abril de 1878) da folha ilustrada, humorística e satírica O Besouro com a seguinte introdução:

" Viva a alegria! Viva a caricatura! Temos arrastado por entre vós uma existência de bicho-da-seda. Ora por cima ora por baixo da folha. Furado o primeiro casulo por falta de água quente para matar o bicho, saiu a borboleta que nasceu e morreu efémera como o nome Psit. Daí a semente que produziu o besouro. Metamorfoseados hoje no corpulento Besouro, com os pulmões bem fornecidos de ar, cravaremos de novo e com segurança a nossa velha bandeira Viveremos muito e viveremos bem se tivermos a fortuna de lhes agradar e de os alegrar. Começamos a zumbir". A promessa prossegue na página 8 do mesmo número: "O Besouro volteará sempre ao redor da luz brilhante de todos os acontecimentos e de todos os casos, sem se queimar".

Nele surge pela primeira vez um novo tipo-emblemático, o Fagundes, imagem do político brasileiro medíocre e oportunista. Uma provocação que foi ripostada por um pedido do Barão do Lavradio ao Senado para que fossem aprovadas medidas repressivas contra os estrangeiros que iam para o Brasil, descalços e de jaqueta de trinta botões, para fazer fortuna e que pagavam a sua hospitalidade com a agressão e com o escândalo. Rafael não se fez rogado, criou o personagem Manel Trinta Botões e, dois dias depois, vestido com um jaquetão azul abotoado com 30 enormes botões e calças brancas (cores da bandeira portuguesa durante a Monarquia), andou pelas principais ruas da cidade. A crítica sempre afiada e a independência política produziu provavelmente o editorial mais mordaz do jornalismo bordaliano.

Somos liberaes (nº 5 de Outubro de 1878):

Quando nos curvamos, como hoje, diante do Sr. Leoncio de Carvalho, e o felicitamos pelo cuidado e esforços que emprega para evitar as fataes epidemias deste paiz, pelas suas idéas avançadas com respeito á instrucção publica e ensino obrigatorio, e pelo muito que está fazendo pela educação. E' um político que por agora se esquece de si para só lembrar-se do seu paiz. - E' raro! - Honra lhe seja! - Nem parece um Ministro!

Somos liberaes com o Sr. Leoncio, como o seremos com todos os que procederem com o desinteresse de S. Ex. Não somos liberaes, quando o partido se faz apenas valer pelos seus chás de familia - com BISCOITINHOS... Desta vez o Besouro comeu bola do partido liberal. Como comeu a semana passada do partido conservador.

A proposito de bolas cabe-nos fazer aqui um pedido a todos os que, por ignorancia ou malvadez, se ocupam em propalar injurias. O pedido é o seguinte: o favor de não medirem o nosso caracter pela craveira dos vossos. A vossa altura é a do estomago; a nossa é um pouco mais elevada. Agora uma explicação: não estamos filiados a nenhum partido; se o estivessemos, não seriamos de certo conservadores nem liberaes. A nossa bandeira é a Verdade. Não recebemos inspirações de quem quer que seja e se alguem se serve do nosso nome para offerecer serviços, que só prestamos á nossa consciencia e ao nosso dever, - esse alguem é um infame impostor que mente.

A razão porque não applaudimos a cunhadite é a mesma porque não applaudimos a commandita Masset & C. Tanto valem para nós uns como outros.

O despedimento voluntário de dois colaboradores, por causa do explosivo e quadriculado folheto O Besouro de Chicote, em resposta a uma insinuação* de Angelo Agostini (desenhador apreciado pelas histórias aos quadradinhos), e duas tentativas de assassinato, obrigaram Rafael a cancelar a publicação da revista em Março de 1879 e a regressar a Portugal.

*Intrigas no bairro da caricatura in Besouro (7 de Dezembro de 1878):

Ha pouco deu-se na rebista um equivoco a meu respeito; logo veio a explicação amavel, que eu transcrevo agora a proposito do equivoco que se dá a vosso respeito.

Dizia: «Intrigas - Procuram intrigar-nos com o nosso collega Angelo Agostini. Desde que conhecemos Angelo Agostini, foi sempre por nós tratado com a maior consideração, não fazendo mais com isso sinão render homenagem ao seu talento e sempre entretivemos com elle relações amigaveis. Se ha carapuça n'algum trecho do Besouro, o Angelo sabe perfeitamente que ella não lhe assenta. O melhor, pois, é rir dessas pequenas intrigas. Não acha, collega?»

Atirar pedras no dia 30, que o collega recebe no dia 27, é atirar para traz, e isso é comsigo. Mas, collega, se é jogo em que nunca ensaiei as minhas forças? Não fui eu que offereci a caixa no dia 27; foi antes il mio collega que me engraxou no dia 27 pelo pecado do dia 30.

Iremos jogar, não a pedra, mas a móra de traz para diante. Você já disse: Uno! Eu: due! Tre! E logo xinque! E assim estaremos até acertar! E'uma massada, convenho. Mas o que se lhe ha de fazer? Você quer... demais usa das respostas antes das perguntas. E' como o Ferrari. 6 antes de 5. Que gajo!

Antes de começar, previno-o de uma coisa simples: é que costumo sustentar em todos os terrenos e por todas as fórmas as questões em que me metto. Também sei descalçar o tamanco quando é preciso. Não o tenho feito, pelo muito respeito que me merece o publico. Enfim, bem sei que uma ferradura é mais dura que um tamanco; mas cá estemos...

Sabbado de nossa Sra. é hoje.

O collega do Vesoiro, Rafael Bordalo Pinheiro

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