O Binóculo

A interrupção de A Berlinda no seu 3º número deu lugar ao lançamento, a 29 de Outubro de 1870, do primeiro semanário de caricaturas consagrado a espectáculos e literatura, que se vendia nos teatros. A sua composição gráfica inicial era composta por uma página impressa e outra litografada. Só se publicaram 4 números: nº1 (29/10/1870), nº2 (5/11/70), nº3 (16/11/70) e nº4 (10/12/1870). No 3º número passou a ter mais uma página impressa e, precisamente quando alargava o formato para 4 páginas, desapareceu.

Estatuto editorial d'O Binóculo:

"Vêr ao longe, e vêr ao perto, são cousas differentes. Aos de vista mais perspicaz minudencias escapam, que seriam notadas quando vistas de mais perto. D'ahi, a necessidade de alongar a vista aos que a tem curta. D'ahi o Binoculo.

Binoculo não vem do latim, nem do grego, vem do oculista. O Binoculo apresenta, não commenta Analysa, não syntetisa. Mostra os typos. E de typos é o nosso seculo. Architypo ou prototypo, pouco importa. O typo tem hoje a maxima importancia; o nosso seculo só admira typos. N'outro tempo quando se dizia d'um homem: - é um conselheiro - todas as bochechas se enchiam de admiração. Isso passou.

Hoje diz-se: - é um typo - e a admiração acolhe sempre este epitheto. Conselheiro é uma palavra vulgar. Typo é mais transcendente, ou mais nebuloso, ou mais allemão, ou mais transcendente e nebuloso e allemão. Outros que não usam da mais vernacula linguagem, chamam ao typo em geral: ponto. Assim as expressões: Bismark é um ponto; Rodrigo Pote é um bom typo; o Price parece um conselheiro - são expressões equivalentes.

O Binoculo fez-se para os typos como a canga para os bois. À vista desarmada, os typos ou não se vêem, ou não se vêem bem, ou não se vê o que eles fazem. O Binoculo é imparcial. E é imparcial porque se dirige a todos. E com a mesma força. E com a mesma intenção. É ella vulgarisar, corrigir sem offensa, castigar sem maldade.

Vingar enfim as arranhaduras que autores e actores fazem na arte. A quem esgatanha, cortem-se-lhe as unhas, dizia S. Lucas. O binoculo é pois thesoura; mas thesoura d'unhas, que não d'alfayate. E não se confunda a missão do Binoculo com a do crítico.

E' outra a sua missão, muita outra a sua indole. Os críticos (nomeadamente os que teem o ferrão comprido), levam bastante vezes couro e cabello. O Binoculo, quando chegue a atacar o couro, respeitará sempre o cabello. E a razão é óbvia - no Theatro (e fora d'elle) o cabello é muitas vezes postiço; se é postiço, pretenceu a um morto; e o Binoculo, primeiro que tudo, respeita os restos mortaes de quem quer que seja. Eis o nosso programa.

É o Binoculo o instrumento de que o leitor, espectador ou amador se serve para vêr de mais perto scenas, que facilmente lhe passariam desapercebidas a olho nú. Mostra o bom e o máo; e está n'isso a justificação do seu título. Quem tiver olhos, que veja; quem não quizer vêr, que durma. Sem mais."

[ CITI ]