UMA OBRA ESQUARTEJADA

in Raphael Bordallo Pinheiro aos quadradinhos

António Dias de Deus e Leonardo de Sá*

É difícil explicar a arte de Raphael Bordallo Pinheiro, e, mais ainda, a arte das suas histórias aos quadradinhos, de que foi o grande impulsionador em Portugal, embora houvessem pioneiros anteriores (Flora, Nogueira da Silva, Manuel de Macedo, Souza).

Em Raphael consegue-se o prodígio de conjugar uma piada grosseira e boçal (ao género português) com as mais mirabolantes invenções gráficas, desde os sinais icónicos espectaculares, os signos cinéticos, as onomatopeias e - coisa nunca vista nem antes nem depois - a associação de marcas gráficas, como os parêntesis, utilizadas para interpolar gravuras. Isto é, houve uma reivenção da escrita figurada que nunca voltou a ser retomada de forma tão exuberante.

Genial Árvore genealógica das Artes e Ofícios.

Apesar da sua família não o destinar a uma carreira de pintor, por considerá-la pouco remuneradora, na realidade Raphael foi criado e cresceu num meio artístico e literário. Seu pai, Manuel Maria Bordallo Pinheiro, funcionário da Secretaria da Câmara dos Pares do Reino, foi pintor e xilógrafo - extremamente convencional nos dois campos -, diplomado pela Academia de Belas-Artes. Teve prole numerosa, da qual se destacou sobretudo o pintor Columbano, mas também Maria Augusta, criadora de modelos de rendas, e Thomaz Maria, um dos introdutores da engenharia industrial em Portugal e autor de livros técnicos de divulgação. Uma das irmãs, Maria Amélia, desposou Henrique Lopes de Mendonça - autor da letra de "A Portuguesa" e co-editor, com Thomaz Maria, da primeira revista infantil moderna, O Gafanhoto, nas séries de 1903 e 1910 - e foi mãe de Virgínia Lopes de Mendonça, escritora de muitos contos infantis, e de Vasco (major, ceramista e desenhador animalista cómico), futuro criador de histórias aos quadradinhos no Notícias Miudinho e em O Senhor Doutor.

Outras influências artísticas e literárias vieram de conhecimentos com escritores e actores de teatro - e Raphael chegou a pisar as tábuas do palco, ainda adolescente.

Apontamentos sobre o picaresco casamento de Raphael Bordallo Pinheiro, imperador do riso.

Ao longo da sua carreira, Raphael retratou-se frequentemente e em várias circunstâncias, porque a sua vida foi rocambolesca. Desde um enlace à maneira camiliana, em que o noivo tinha 20 anos e a noiva foi retirada à família por ordem de justiça, mais as atribulações dos esponsórios seguindo para Almada a cavalo (a noiva sem vestido apropriado, portanto) para um casamento que teve de se realizar numa capela anexa, por motivo de obras na Igreja Matriz, com retirada para Cacilhas e embarque para Belém debaixo de formosa borrasca marítima, até casa do pai do noivo - onde residiram oito meses.

Aconteceu que na lua de mel despertaram os ímpetos artísticos de Raphael, começando nos anos seguintes a pintar e expor ao lado dos quadros do pai. Já em residência própria viria a nascer o primogénito do casal Manuel Gustavo Bordallo Pinheiro, a 20 de Junho de 1867. Uma sanguínea de Raphael retrata muito provavelmente o seu filho com pouco mais de um ano.

As primeiras realizações cómicas e impressas de Raphael datam de 1870, todas elas de géneros bem diferentes: a folha gravada O Dente Baronesa, Mercado de Melões, o álbum de caricaturas O Calcanhar d'Achilles, as quatro primeiras folhas de A Berlinda (com mais três no ano seguinte), e finalmente o seu primeiro magazine, O Binóculo.

Logo n'A Berlinda e n'O Binóculo se encontram exemplos de sequências narrativas (apesar de estarem desgarradas), respectivamente com assuntos políticos e com questões teatrais. Estes dois temas foram levados à obsessão em toda a obra de Raphael. À parte ficam as patuscadas saloias, as críticas sociais e a sondagem do absurdo. A nível mais íntimo, se possível, o próprio artista representou-se com todo o tipo de achaques e enxaquecas que lhe desabaram em cima. Mas sabemos agora que o artista experimentou muito cedo a técnica de perfeitas histórias aos quadradinhos, que não chegaram a ser impressas.

Em 1872 lança os seus Apontamentos Sobre a Picaresca Viagem do Imperador de Rasilb Pela Europa, onde a continuidade narrativa é ininterupta (com princípio, meio e fim), as vinhetas se articulam de forma sucessiva e aparece um herói actuante. Esta foi a primeira história aos quadradinhos portuguesa - publicada num álbum de 16 páginas. A partir daí nasceu a figuração narrativa em Portugal. Como é sabido, as doenças contagiosas propagam-se.

Preparativos para a fuga.

Depois deste passo de gigante, o caminho estava traçado. Apareceram dois pequenos fascículos chamados M.J. ou a História Tétrica d'uma Empresa Lyrica (o título só se entende com a pronúncia da letra "M" à moda do Porto, como "mê"...). Entre finais de 1873 e 1875 foram postos à venda os três primeiros almanaques divertidos, com HQ e cartoons - Almanach de Caricaturas -, que se destacaram imediatamente dos outros almanaques, e todos foram obrigados a seguir-lhe o modelo (mas com HQ estrangeiras). A ideia da criação de um almanaque estava já latente em Raphael, pois existe uma maqueta para um Almanach do Calcanhar d'Achilles com a data de 1871.

Imagens a preto e branco.

Foi com a Lanterna Mágica, em 1875, que o desenhador alcançou a fama, quer nos meios intelectuais quer nos meios populares, ao criar a figura do Zé Povinho, tanto em cartoons como em HQ. É de acrescentar ao sucesso da revista o apoio literário de dois autores de nomeada, Guerra Junqueiro e Guilherme de Azevedo (conjugados no pseudónimo "Gilvaz"). Foi uma extravagante publicação humorística, revolucionária em todos os aspectos, mesmo na bizarria de ter aparecido quotidianamente durante grande parte da sua existência... Demarcado já o terreno que tinha conquistado, Raphael foi de abalada para o Brasil em busca de novas aventuras.

No império dos papagaios.

Munido dum convite do proprietário da revista satírica brasileira O Mosquito, o autor desambarcou em terras de Vera Cruz, e rapidamente semeou o pânico. Nesta publicação e nas duas d que criou posteriormente, Psit!!! e O Besouro, deixou sedutoras pranchas de HQ e cartoons de comentário social - que o levaram a ser agredido à paulada e à facada, sem que ele tivesse dado por isso! Foi talvez mais perceptível a expedição punitiva que fizeram à sua tipografia e o despedimento voluntário de dois colaboradores, por causa do explosivo e quadriculado folheto O Besouro de Chicote, em resposta a um pequeno remoque caricatural de Angelo Agostini - que era já um dos desenhadores locais mais apreciados, considerado actualmente o criador das histórias em quadradinhos brasileiras, e que Raphael substituíra n'O Mosquito (anos mais tarde, numa das revistas de Agostini, este prestaria homenagem à mestria de Raphael Bordallo Pinheiro - atendendo às suas peças de cerâmica).

Mesmo assim, a obra além-mar de Raphael atinge uma qualidade gráfica superior à que viria a conseguir em Portugal, possivelmente porque no Novo Mundo a técnica estava mais avançada e obviamente dispunha de melhores gravadores. Foi aí que desenvolveu um pronunciado gosto pelas representações de animais "exóticos", moças com formas generosas e meia dúzia de alarves que por lá deambulavam.

Regresso à apagada e vil tristeza.

Acabado o ciclo pan-americano regressou a Portugal, mas não desembarcou sem ter sido sofrido a quarentena que viria a descrever No Lareto de Lisboa. Tratava-se de outro álbum de HQ, auto-satírico, com uma preciosa e moderna capa a cores onde se retratou engaiolado e triste.

O apogeu da sua carreira surgiu com o lançamento d'O António Maria em 1879. O título provinha dos primeiros nomes do ministro Fontes Pereira de Melo. Prestemos atençãoao facto de Portugal ser, nessa altura, possivelmente o país da Europa onde havia mais liberdade de expressão e de comportamento - visando as medidas repressivas assuntos mesquinhos e ridículos, como a interdição de se cantar "A Marselhesa". Todo o final do século XIX foi florescente nas artes e nas letras, e Raphael Bordallo Pinheiro relacionou-se com a maior parte dos intervenientes do meio intelectual. Além disso, temos que ter em linha de conta o posicionamento político do artista - que era republicano num Portugal com um Rei tolerante. Deste modo, Raphael nunca se coibiu de se mostrar adversário de qualquer regime servidor da monarquia, fosse ele regenerador ou progressista. Tanto as comemorações do tricentenário de Camões, como as travessias dos exploradores portugueses em África, e mais ainda a revolta do povo perante o Ultimato Inglês, foram largamente aproveitados pela propaganda republicana, que teve em Raphael um dos seus obreiros mais eficazes, através dos cartoons ou das histórias aos quadradinhos - de que houve uma quantidade impressionante sobretudo n'O António Maria (1ª série).

Todavia, a situação evoluiu e Pontos nos ii - revista que veio a continuar O António Maria - terminou abruptamente após a revolução republicana de 31 de janeiro de 1891, no Porto... Em qualquer dos casos, naquilo que nos interessa agora, Raphael tinha já diminuído largamente a sua actividade (a cerâmica tinha começado a interessá-lo), sendo muitas vezes substituído graficamente por seu filho Manuel Gustavo, ou por importação de BD estrangeira.

Quadro semelhante se verificou na segunda série d'O António Maria, com a agravante da qualidade gráfica e do papel terem piorado.

Estrada final.

Para além da sua produção regular, Raphael intervinha em vários tipos de publicações, quer elaborando por duas vezes O Almanach do António Maria, quer colaborando com curtas histórias em revistas como Jornal da Infância, Ilustração Universal, O Comércio do Porto Ilustrado, O Pimpão ou Diário de Notícias Ilustrado. Algumas destas histórias, atípicas na sua produção, tinham um carácter infantil e por vezes eram generosamente apresentadas em policromia - o que não impediu algum declínio na sua qualidade como desenhador de quadradinhos.

Com a viragem do século surgiram as suas derradeiras publicações. Em A Paródia a frequência das HQ de sua autoria diminuiu assustadoramente até que se extinguiu de vez. Antes que acabasse, A Paródia sofreu um enxerto da Comédia Portugueza de Julião Machado, que nada lhe acrescentou, antes pelo contrário.

A sua morte, em 1905, com 58 anos, foi nacionalmente sentida, e todas as revistas e jornais lhe prestaram homenagem. Depois do número de luto, o último magazine de Raphael Bordallo Pinheiro deixou de ter Comédia Portugueza - e ficou-se por A Paródia...

Nos últimos tempos, enquanto não ia a alguma jantarada de homenagem ou cura de águas, continuava a sujar as mãos no barro das Caldas da Rainha e a erigir monumentos de cerâmica. Ainda fazia cartoons e uma vez por outra conseguia inventar uma história aos quadradinhos, que apareciam em Lisboa logo no dia seguinte. Nessa altura os correios ainda funcionavam.

Quanto à sua colaboração para Espanha e Inglaterra, nunca compreendeu histórias aos quadradinhos - sempre as reservou para a língua portuguesa.

Apêndice.

Algumas informações complementares podemos dar sobre o temperamento de Raphael, sobre a sua relação com os meios literários e a intervenção como artista ao serviço de escritores famosos. Por exemplo, Ramalho Ortigão escreveu o argumento de algumas histórias, Alfredo de Moraes Pinto (Pan-Tarantula) fez muita versalhada para lhe acompanhar os desenhos - para não falar nas intervenções de Guerra Junqueiro, Guilherme de Azevedo, Eugénio de Castro e João Chagas. Raphael ilustrou, à sua maneira, livros do seu amigo Júlio César Machado, e de Camilo Castelo Branco e Souza Bastos.

Os escritores que o apreciavam teciam-lhe louvores, enquanto que os seus inimigos sempre se calaram - porque Raphael era um caricaturista temido e temível. Em relação à classe política, o caso ainda seria mais grave... É espantosa a avaliação crítica que o artista tinha dos seus contemporâneos ao representá-los no Álbum das Glórias, pois está conforme com o juízo actual.

O seu envolvimento no meio teatral veio de menino e moço - foi figurinista de revistas, estabeleceu crítica a peças líricas e dramáticas em todos os magazines que dirigiu e conheceu intimamente grandes actores que muitas vezes retratou. Desde Sarah Bernhardt a Conquelin, passando pelo maestro Cyríaco, o actor Valle, a actriz Delphina, todos lhe passaram pelo bico da pena.

A nomeada de Raphael atraiu muitos outros desenhadoresm, principalmente os que comungavam dos mesmos ideais. Entre os mais notórios, podemos apontar em primeiro lugar o seu próprio filho, Manuel Gustavo, e os artistas Manuel de Macedo, Celso Hermínio, Jorge Cid, Manuel Monterroso e Alonso. Por outro lado, em diferentes regiões do país se procurou seguir o seu exemplo de publicações cómicas ilustradas, dando origem a muitas imitações - como Leal da Câmara no seu início - longe do espírito e virtuosismo originais.

O carácter afável de Raphael Bordallo Pinheiro, conciliava também as simpatias de artistas politicamente opostos à sua ideologia, como no caso dos monárquicos Jorge Colaço ou João Valério. Nada mais diferente do que a bonomia e alegre convivência de Raphael, em contraste com o ar taciturno, escuro e melancólico de seu irmão Columbano.

É-nos impossível desenvolver aqui quanto Rafael apreciou e aprendeu com as publicações ilustradas estrangeiras, principalmente alemãs, francesas e inglesas. Mas podemos referir que, tanto ele como seu filho, chegaram a copiar ou imitar histórias em imagens de autores entre os quais sobressai o nome de Wilhelm Busch.

Para além dos desenhadores já anteriormente apontados outros viriam suceder-lhe na mestria da arte: Francisco Valença, Amarelhe, Stuart Carvalhais. E assim por diante.

*O Dr. António Dias de Deus é tido como o maior especialista de banda desenhada portuguesa, tendo igualmente escrito quantidade impressionante de artigos sobre o tema.

O Arq. Leonardo de Sá participou em diversos festivais internacionais de banda desenhada bem como noutros eventos da especialidade, para além de ter escrito grande quantidade de artigos sobre banda desenhada.

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