RAFAEL BORDALO PINHEIRO E A FÁBRICA DE FAIANÇAS DAS CALDAS DA RAINHA

João B. Serra*

A aventura de Rafael Bordalo Pinheiro no domínio da cerâmica principiou tarde, relativamente, quando o artista fizera já 38 anos, mas não se resumiu a um punhado de tentativas mais ou menos bem sucedidas. Pelo contrário. De 1884 até 1905 Rafael manter-se-ia não apenas ligado por um compromisso sentimental, mas efectivamente responsabilizado - e cada vez mais, se assim se pode dizer - pelos destinos da unidade de produção cerâmica criada, na primeira daquelas datas, com a designação de Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha, na vila do mesmo nome.

Foram praticamente 20 anos de uma actividade constante, ao longo dos quais percorreu diversas modalidades de expressão, processos técnicos, formas de execução, conceitos formais e recursos tecnológicos próprios do barro. Rafael Bordalo Pinheiro foi um ceramista e não só um artista plástico que também se interessou pelo barro. Aliás, nunca é de mais sublinhar, o estatuto de ceramista foi, com a obra de Rafael, elevado a um plano nunca antes atingido em Portugal.

O projecto original e o seu modelo inspirador

É possível reconstituir com segurança o projecto original da Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha, cujos estatutos seriam aprovados em reunião dos seus principais promotores em Outubro de 1883. A empresa adoptaria o figurino das sociedades anónimas, com uma gestão separada da propriedade. A direcção foi entregue pelos accionistas fundadores a dois directores, Feliciano Bordalo Pinheiro (responsável pelos aspectos organizativos) e seu irmão Rafael (responsável pelos aspectos técnico-artísticos). O destaque ia desde logo para o lugar de director técnico, nomeado por um período de 20 anos e beneficiando de um vencimento superior.

De acordo com os referidos estatutos, a empresa tinha como finalidade explorar a indústria cerâmica no ramo especial das faianças, e propunha-se vir a lançar no mercado, além de produtos de cerâmica ornamental e de revestimento e louça do tipo que se manufacturava nas Caldas, objectos da mais fina faiança estampados com gravuras originais para usos ordinários e louça ordinária para os usos das classes menos abastadas. Efectivamente a unidade fabril era formada por três sectores produtivos: materiais de construção, da louça decorativa, e louça comum. O primeiro entrou em funcionamento em meados de 1884, o segundo um ano depois e o terceiro em 1888.

A empresa anunciou a intenção de promover o ensino profissional da especialidade, o que de facto sucedeu, mediante um protocolo celebrado com o Governo em 1887. A qualificação da mão-de-obra n‹o podia deixar de constituir uma exigência estratégica para quem pretendia pôr em marcha uma profunda renovação da cerâmica industrial portuguesa. A fábrica dirigida pelos irmãos Bordalos estava implantada numa região de tradições artesanais, certamente úteis na montagem do sector da louça decorativa, mas pouco relevantes para a organização de um sector de louça de uso comum. Aqui, onde os processos de produção em larga escala eram dominantes e a divisão de trabalho própria da indústria pós-máquina a vapor imperava, tornava-se necessário formar novos operários.

A faiança utilitária de pasta branca gozava de um favor crescente entre as classes médias urbanas. Aparentemente, as duas únicas fábricas existentes em Portugal, a Fábrica de Sacavém e a de Fábrica de Alcântara, não satisfaziam o mercado, permitindo que os equivalentes estrangeiros (alemães, ingleses, franceses, espanhóis) adquirissem uma presença cada vez maior no mercado nacional. Em 1884 importaram-se 220,6 toneladas de artigos cerâmicos de faiança fina e porcelana e, em 1889, 281,5 toneladas.

O projecto da Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha remete para esse enquadramento. É por ele que se explica também o apoio recebido do Governo e o estímulo que lhe foi dispensado por eminentes intelectuais (como Ramalho Ortigão, Joaquim de Vasconcelos, Fialho de Almeida). Propunha-se contribuir para fortalecer a economia nacional, colocando no mercado um produto competitivo, de boa qualidade, e decorado com motivos nacionais, desse modo inaugurando um novo ciclo das artes decorativas portuguesas.

Não é difícil reconhecer neste projecto a influência do "Arts and Crafts", movimento surgido em Inglaterra na década de 1860 e que se prolongou até finais do século. A articulação da indústria com o ensino das "artes e ofícios" - corporizada neste caso por um contrato celebrado pelo Governo com a fábrica, mediante o qual esta se comprometia a dispensar o ensino dos ofícios cerâmicos aos alunos que a Escola Industrial das Caldas da Rainha lhe apresentasse, a troco de um subsídio anual - e a criação de um lugar de director técnico, preenchido por um artista, são sinais claros dessa filiação. Ramalho Ortigão, um crítico de arte amigo de Rafael Bordalo Pinheiro, e que viria a reivindicar para si o patrocínio intelectual da iniciativa fabril, vinha defendendo com insistência a necessidade e oportunidade de renovação das artes aplicadas nacionais, a exemplo do que sucedia em Inglaterra onde "arquitectos, pintores e escultores se consagram, paciente e humildemente, a desenhar modelos para todas as indústrias". No seu entender, "Bordalo era pois o único homem, mas era-o de um modo completo, para intervir em Portugal numa indústria de arte, remanejando-a em concorrência com as indústrias similares do restos da Europa e fazendo ela um novo elemento de riqueza e glória nacional".

A crise. Proposta de um novo modelo

Em finais de 1884, os dois irmãos Bordalo Pinheiro iniciaram um périplo por França, Bélgica e Inglaterra, a fim de se inteirarem dos processos de fabrico e adquirirem maquinaria necessária. Efectivamente, ao longo dos dois anos seguintes, enquanto os sectores fabris dos materiais de construção e da louça decorativa trabalhavam já, com base numa tecnologia tradicional, a implantação do sector da faiança utilitária obrigava à importação de um técnico para acompanhar a construção de dois fornos de tipo Minton, uma máquina a vapor, uma caldeira multibular, muflas, uma máquina para a purificação de pastas.

Em meados de 1886 a fábrica de louça comum dos Bordalos já se devia encontrar, no essencial, montada e, se não iniciou nessa altura a laboração, é porque, segundo julgo, a empresa, entretanto, sofreu o seu primeiro e grave abalo financeiro. A subscrição pública de acções anteriormente realizada não teria tido grande sucesso. Muitos dos accionistas não cumpriram os seus compromissos. As subscrições efectuadas no Brasil a partir das diligências pessoais a que Feliciano Bordalo Pinheiro aí procedeu, entre Novembro de 1883 e Março de 1884, perderam significado com oscilações cambiais supervenientes. Só o apoio do Governo permitiu relançar o sector em 1887. A 2 de Agosto de 1888 era finalmente inaugurado. Mas uma segunda crise, cedo se abateu sobre ele, inviabilizando a sua continuidade.

A 22 de Janeiro de 1891, noticiava o semanário O Caldense que a Fábrica de Faianças tinha suspendido a laboração. Nos armazéns repletos de serviços de mesa por vender, várias dezenas de modelos, resultado da criatividade extraordinária de Rafael Bordalo Pinheiro.

Mau grado nesta crise confluírem factores emergentes da especificidade da situação quer da empresa quer da indústria cerâmica em Portugal, a conjuntura do país não deverá ser negligenciada. Importará recordar que em Maio de 1891 é declarada a bancarrota do Estado, depois de esgotados os equilíbrios financeiros baseados nas remessas de emigrantes (nomeadamente dos emigrantes para o Brasil) e nas exportações de produtos primários, principalmente o vinho. O agravamento do défice comercial e da dívida pública fazem dos anos finais da década de 1880 e primeiros da de 1890 um tempo dramático para a economia portuguesa.

O encerramento da fábrica em princípios de 1891 não atraiu qualquer movimento solidário da parte de potenciais investidores. É lógico que assim sucedesse. A queda de dividendos em sociedades anónimas dos diversos ramos industriais era já suficientemente preocupante para que alguém se dispuzesse a tentar salvar da falência uma que, desconfio, nunca distribuíra qualquer dividendo.

Alarmados, diversos intelectuais clamam por uma intervenção dos poderes públicos. Toma forma a proposta de um novo modelo institucional da Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha. Formulou-a pela primeira vez Joaquim de Vasconcelos, em 1891, ao advogar o reconhecimento da Fábrica como Escola Nacional de Cerâmica. Vasconcelos colheu decerto inspiração na experiência francesa da Manufactura Nacional de Sévres, com o seu programa de estímulo à indústria nacional, através da formação e da promoção de um vocabulário decorativo. Charles Lepierre, um técnico francês que se radicou em Coimbra nos finais do século lembrava os objectivos enunciados em Sévres desde 1891 e que conviria adoptar em Portugal: fabricar porcelana dura e produtos cerámicos que oferecessem interesse de arte ou de ensino; estudar e vulgarizar os processos artísticos e químicos aplicados à arte e indústria cerâmicas; efectuar o ensino normal da cerâmica (Sévres formava artistas e operários e divulgava fórmulas e processos para desenvolver a produção nacional).

Não creio que tais propostas tenham encontrado interlocutores nos Governos portugueses da década de 90. A pressão financeira agiu com um factor de ensurdecimento do Estado. Mas o Banco de Portugal acedeu a não executar a dívida que a sociedade da Fábrica de Faianças contraíu.

A cerâmica decorativa da Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha

A escolha das Caldas da Rainha para implantação da Fábrica de Faianças deveu-se, entre outros motivos, ao reconhecimento de que aí existia um saber, uma experiência e uma tradição nacional e internacionalmente reconhecidas na faiança decorativa, e com as quais o próprio Rafael se identificava.

A louça bordaliana é certo que transgrediu os cânones dessa expressão regional da arte popular do barro que lhe pré-existia nas Caldas. Mas rendeu-lhe homenagem, nela buscando inspiração, um sentido, reinterpretando-a. Naturalmente que essa renovação cedo se repercutiu na restante produção local, também ela adoptando e adaptando Bordalo, reinventando e reformulando essa herança, numa linhagem que chega até aos nossos dias.

A cerâmica produzida sob a direcção de Rafael Bordalo Pinheiro distribui-se por géneros tão diversos como materiais de construção, azulejo, louça utilitária, escultura, louça decorativa e artística. Foi este último que aqui privilegiámos, em atenção à natureza do certame que se efectua sob a égide do artesanato. A Fábrica de Faianças original encontrava-se, aliás, organizada em 3 sectores, com tecnologia e organização produtiva distintas (sector dos materiais de construção, sector da louça decorativa e sector da louça comum). Mas após uma grave crise financeira declarada em 1892, ela dirigiu a sua actividade basicamente para a área da cerâmica decorativa e artística, aquela que sem dúvida mais interessou e absorveu Rafael Bordalo Pinheiro.

Há um nexo evidente entre o desenho e a cerâmica de Rafael. A serôdia aproximação do artista ao barro acentuou essa relação que constitui, por outro lado, o sinal de uma nova técnica a invadir - e até em determinada medida e sentido a subverter - a cerâmica tradicional de raiz popular, onde o desenho está ausente. Mas convirá não nos deixarmos iludir e supôr que se trata de dependência quando estamos em face de integração. O desenho constitui um passo fundamental na criação, mas a peça cerâmica não é a mera tradução nas três dimensões do motivo previamente concebido em duas. A dezena de painéis que neste pavilhão se exibem julgo que põem em destaque não só aquilo que a modelação em barro, a cozedura, a pintura e o vidrado acrescentam ao desenho mas também aquilo que nele modificam. A obra de Rafael Bordalo é, igualmente nesse aspecto, exemplar.

Propomo-vos uma viagem - curta, praticamente introdutória - pelo universo bordaliano, através dos referidos painéis. Neles se observar, de acordo com a nossa proposta, os vários tons, mais leves ou carregados, do humor com que Rafael enfrentou a sociedade do seu tempo. E, em paralelo, se reconstituirá uma arqueologia da(s) cultura(s) - aqui subsumida na designação lata de costumes - tal como se revela em elementos que vão da indumentária ao porte físico, das feições ao gesto, dos referentes simbólicos de grupo aos objectos de uso quotidiano, com passagem por apontamentos do imaginário histórico e nacional.

O contraponto que cada painel proporciona entre desenho e cerâmica traz à luz a característica tipificadora desta última em Rafael Bordalo Pinheiro. O desenho surpreende pessoas e acontecimentos, faz a crónica, a cerâmica fixa sobretudo tipos, faz a representaçao da situação. O Rafael ceramista foi singularmente avaro, ao invés do Rafael desenhador, na figuração das personagens e intérpretes da cena a que assistiu e em que participou. Ele que a si próprio se retratou nas mais diversas circunstâncias, não modelou mais do que um retrato de corpo inteiro - e a uma escala quase miniatural - do Bordalo ceramista. Talvez como que pretendendo sublinhar, desta forma indirecta, a autonomia e a especificidade do seu trabalho com o barro.

* Investigador associado do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.

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