O Pioneiro da Banda Desenhada em Portugal

Vasco Granja

Rafael Bordalo Pinheiro é considerado como o primeiro artista português que criou histórias com sequência lógicas, contendo textos integrados de forma harmoniosa, concebendo cada imagem como uma unidade indissociável do conjunto. Coube a Rafael dar a mais valiosa contribuição de desenhadores portugueses para o desenvolvimento de uma expressão artística que mais tarde seria conhecida como histórias aos quadradinhos.

Neste domínio ele foi um desbravador de grande mérito, tal como aconteceu com o suíço Rodolphe Töpffer, os franceses Caran d'Ache, Benjamin Rabier e Gustavo Doré, os britânicos Thomas Rowlandson e Marie Duval, o alemão Wilhelm Busch, os famosos pioneiros daquilo que hoje se denomina correntemente como banda de desenhada, denominação inventada em França em época recente.

Rafael teve uma sólida formação cultural e bem cedo revelou acentuada tendência para se exprimir através do desenho, da aguarela, da caricatura e da pintura, manifestando igualmente irresistível vocação para o teatro, chegando a representar como amador e profissional. Mas o pai não via com bons olhos que o filho se inclinasse para as luzes da ribalta... Frequentou a Academia de Belas-Artes, teve um emprego que nada significou para ele e foi realmente a intensa actividade de desenhador e de pintor que caracterizou a sua vida artística.

Revelou qualidades excepcionais para editar e dirigir jornais, revistas e álbuns de natureza satírica que o tornaram popular junto de numerosas camadas de leitores. A primeira incursão neste domínio ocorreu em 1869 com O Calcanhar de Aquiles, que se prolongou até ao ano seguinte. Tratava-se de observações muito acutilantes acerca do meio literário da época mas sem azedume. Deve dizer-se que esta foi uma regra que Rafael aplicou sempre em todos os seus trabalhos...

No ano seguinte lançou, entre outras publicações, A Berlinda, onde critica o conservadorismo político da época. O último número deste semanário, revelou o espírito contestador de Rafael ao focar a acção censória do governo perante o ciclo das Conferências do Casino, nas quais um grupo de escritores procurava informar a opinião pública acerca das novas correntes do pensamento europeu. O autor utilizou o acontecimento para descrever em trinta imagens sucessivas, colocadas em cinco tiras e colocando as legendas na parte inferior, levando o leitor a lê-las desde o princípio até ao fim. Podia-se ouvir o narrador, ou seja, Rafael... Ali se descrevia todos os tipos característicos da sociedade portuguesa. O povo famélico cantava o fado, os ministros arrogantes discursavam sem nada dizerem de concreto, o clero revelava fartura, as dançarinas do cancan excitavam o auditório, a corrupção estava em todo o lado. Enfim, uma sociedade de sucesso... A história tinha como título Conferências Democráticas.

Também em 1872, e indo ainda mais longe do ponto de vista crítico e na concepção de história aos quadradinhos, o desenhador apresentou Apontamentos de Rafael Bordalo Pinheiro sobre a Picaresca Viagem do Imperador de Rasilb pela Europa, a sua maior obra de fôlego do género, pois desenrolava-se ao longo de 14 páginas com 120 desenhos. Foi um grande êxito pois teve três edições. Rasilb era o anagrama de Brasil e o imperador em causa, D. Pedro II, vive peripécias inesperadas em diversos países que o deixam estarrecido, convivendo com pessoas ilustres e cometendo alguns disparates durante a acidentada excursão.

De excelente qualidade gráfica e particularmente acutilante no que se refere à interpretação crítica é a história aos quadradinhos intitulada M. J. ou a História Tétrica duma Empresa Lírica, que foi editada em dois folhetos no ano de 1873. Tratava-se de uma estranha aventura vivida por Manuel José Ferreira que criara uma periclitante associação para explorar o Teatro São Carlos de 1873 a 1876. O homem não estava preparado para a função de administrador do famoso teatro lírico e acabou por ir à falência. A história foi publicada em dois cadernos de quatro páginas, com imagens colocadas livremente em quatro tiras, com excepção da página seis, contendo cinco tiras. A caracterização das personagens é mais elaborada, retratando figuras conhecidas que frequentavam habitualmente o teatro. Os desenhos são concebidos com muita elegância e firmeza de traço, há numerosos efeitos cómicos, como a imagem deitada em que M. J. é elevado a grande altura, ou ainda os grandes planos dos assinantes antes e depois da entrada na sala, sem contar com os saborosos pormenores das mãos da claque e dos pés dos espectadores, e também as imagens sucessivas do governo a abanar as orelhas e torcendo o nariz...

Rafael Bordalo Pinheiro teve meritória acção como proprietário, director e editor de diversas publlicações que repousavam nele em grande parte. A sua produção artística no domínio da caricatura, do desenho humorístico e das histórias desenhadas foi invulgar não só pela qualidade como também pela quantidade.

Foi experimentador no mais completo sentido da palavra, procurando desenhar imagens demolidoras para combater a mediocridade de uma sociedade que foi incapaz de se modernizar. Lançou um olhar mordaz para os políticos e governantes do seu tempo, incapazes de orientar o país no caminho do progresso e do bem estar do povo.

A sua obra é muito vasta e encontra-se espalhada por milhares de paginas que constituem um dos mais importantes repositórios da sociedade portuguesa do final do século passado. As publicações que dirigiu e para as quais desenhou centenas e centenas de desenhos, com destaque para a A Lantena Mágica (1875), António Maria (1879-1885), Álbum das Glórias (1880-1883), Pontos nos ii (1885-1891) ou A Paródia (1900-1906), revelaram a excepcional capacidade de fazer rir o público, castigando com humor os diversos poderes instituídos.

Criou uma figura popular que permanece viva e actual no comportamento e na maneira de viver do povo português: o Zé Povinho, síntese de indomada rebeldia e de sofrido conformismo, falando em nome de todos aqueles que normalmente não têm voz...

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