A Lanterna Mágica

A 15 de Maio de 1875, com Guilherme de Azevedo e Guerra Junqueiro, que se ocultavam sob o pseudónimo de Gil Vaz, Bordalo lança o primeiro jornal de crítica diário. Saía todos os dias com excepção das Segundas, publicando-se primeiro à noite, e do 18º número em diante, de manhã.

Estatuto editorial:

"Gil Vaz, minhas senhoras, é um vosso adorador que ingenuamente confessa que vos acha tentadoras, honestas, feiticeiras, áparte simplesmente o vosso romantismo, a vossa triste magoa e as frieiras. Lindissimos amores ó pombas em que eu scismo. Gil Vaz é o cavalleiro que em prol das damas lança ao mundo inteiro a manopla de rijos luctadores. E a luva do dandysmo. Elle conhece as grandes tyranias que pezam sobre vós ha muitos annos e raros são os dias em que dos vis tyranos não mede com terror a iniquidade! Campeia a grã cidade! Olhae - que horror! - o lubrico banquete onde elles vão cavando o negro esquife nas grandes corrupções do voltarete, nas orgias fataes do meio biffe! Amigos um havano: eu sei perfeitamente com quem fallo. Ao bom trabalho insano, honrados patriotas deveis mais d'uma gloria e mais d'um calo, alem dos que deveis a algumas botas.

Amaes os malmequeres as tílias, o lilaz? Pois bem, se vos apraz fallemos das mulheres. Pensemos nos vampiros nos astros e nas flores! Mas se a triste descrença e os suspiros da velha legião dos trovadores, meus candidos burguezes, nos vão fallando d'ellas tantas vezes, ao passo que a poesia dos corações fieis explende hoje sem medo á luz do dia e mais livre caminha nas folhas de dez réis a coisa do vintem por cada linha!......

Seja pois com recato que nós aqui toquemos nesse arcano; e emquanto a multidão passa na rua, Anjos de Bulhão Pato, chorae junto ao piano, «era de noite quando a imagem tua...». Aqui e em toda a parte, Amigos, a final , não penseis que Gil Vaz é o bandoleiro que apierra o bacamarte nas sombras d'um pardieiro e atraz do velho muro d'um quintal.

Quem hoje aqui vos falla tem um gladio de luz e uma bengala. Tem palavras precisas, rectas, cheias de fogo e o caracter viril do demagogo junto a varias camisas. Possue crenças não vagas; sem dizer se communga ou se ouve a missa, tem muitissima fé, n'uma deosa formosa, - na justiça, n'aquella que o Senhor Pinheiro Chagas não sabe ainda quem é. E quando escreve agora este folheto não pensa bem no inferno. Não procura agradar ao Padre-Eterno nem ao Senhor Vaz Preto. Gil Vaz traça um programma d'esta fórma:

- Doutrina clara e franca: entende que precizam de reforma as consciencias, a carta e a roupa branca."

No seu oitavo número, (1 de Julho) a publicação aumentou o formato reduzindo de 8 para 4 o número de páginas, um reajustamento plenamente justificado pelo nascimento a 12 de Junho de 1875 do personagem Zé Povinho. Apesar destes sucessos iniciais, Rafael deixa-se seduzir pela proposta de um ordenado de 50 libras que lhe dirige Manuel Carneiro, director do jornal humorístico carioca O Mosquito, e interrompe a publicação de A Lanterna Mágica no 33º número (31 de Julho de 1875).

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