M. J. ou a História Tétrica d'uma Empreza Lyrica

in Rafael Bordalo Pinheiro - o Português Tal e Qual

Drº José Augusto França*

Tratava-se de comentar com violência crítica a empreza formada por um tal Manuel José Ferreira e pelo «dandy» portuense António de Castro Pereira (e depois, substituindo o primeiro, José Adolfo Troni, professor em Coimbra e advogado famoso em Lisboa) para exploração do S. Carlos, na temporada de 1873-74 e até 1876. Sucedendo a uma excelente administração de G. Cossoul, «foi a administração mais desastrada dos tempos modernos: dominavam nesta empresa a inépcia e a preguiça», assegura Fonseca Benevides, que dá pormenores da sua acção, até à falência final, com última récita, não realizada em 1876 por falta de pagamento aos artistas.

Metendo a rídiculo as iniciais usadas pelo titular da empresa, o M.J. Ferreira, ao lê-las, numa prosódia corrente, «Mê Jota», Rafael lança-se na narrativa gráfica dos acontecimentos em dois cadernos de quatro páginas dividos em quadradinhos. Claques contratadas, cronistas pagos, uma pateada feroz no «Trovador», que rebenta a sala, em Novembro de 1873, intervenção policial, e mesmo governamental, de Rodrigues Sampaio, então ministro do Reino dum governo fontista - são as peripécias da temporada que fez correr muita tinta nos jornais. «M.J.» aparece, «maestoso» e aflito, correndo ou conluiando em excelentes caricaturas, animadíssimas, a que o seu aspecto bovino empresta um sabor especial.

Rafael, ante a prisão dum crítico recalcitrante, vê-se também «in carcere duro», mas, no fim da história, ao conceder o governo uma moratória à empresa e com a desaparição do Ferreira, ele marca uma suspensão do seu próprio, mantendo embora um grande olho em cima do sucessor Troni... São mais uns tantos auto-retratos a juntar a outros já publicados, na espécie de narcisismo algo espectacular que caracterizava o desenhador, sempre visto em acção histriónica.

Nesta intervenção, cuja improvisação é manifesta no próprio aspecto gráfico dos folhetos, Rafael Bordalo estava no seu terreno de eleição, de novo de binóculo em punho...

* Catedrático de História da Arte da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, membro do Comité Internacional d'Histoire de l'Art e das Academias das Ciências, de Belas-Artes e de História.

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