RAFAEL BORDALO PINHEIRO NA SOCIEDADE DO SEU TEMPO
Drª. Irisalva Moita*
A forte personalidade de Rafael Bordalo Pinheiro, ajudada por uma figura que os biógrafos que o conheceram nunca deixaram de realçar, tornaram-no numa presença insubstituível na sociedade do seu tempo, onde ocupou lugar de grande evidência. Parece-nos, por isso, do maior interesse, que entre as múltiplas facetas humanas e profissionais da sua rica biografia, focar os seus comportamentos sociais com os familiares, colaboradores e subordinados e, principalmente, enquadrá-lo entre a roda de amigos e a convivência que privilegiou.
Extrovertido, alegre e espontâneo, transformava em amigos os companheiros de tertúlia intelectual e artística em que se movia e os que com ele acamaradavam na boemia da noite lisboeta; os colaboradores e editores dos jornais de que foi director; os administradores e operários das suas empresas. De trato afável e convivente, em amigos transformou muitos dos seus clientes, estendendo a panóplia das suas relações amistosas a todos os quadrantes da sociedade.
Sendo o mais velho duma família numerosa, excepcionalmente dotada para as artes, cultivou sempre laços de grande compromisso afectivo com os irmãos e com o pai, o bondoso e também multifacetado artista, Manuel Maria Bordalo Pinheiro. Ainda jovem, ele e os irmãos mais velhos organizavam tertúlias em que eram admitidos alguns amigos mais íntimos, no atelier do pai, no rés-do-chão da casa onde a família residia na Praça da Alegria e improvisavam serões artísticos, em que também tomavam parte as irmãs, com que entretinham as noites na modesta casa de veraneio que a família possuía na Rua da Alcolena, em Belém. Alguns dos amigos que o acompanharam por toda a vida, remontam à época destes inocentes entretenimentos da juventude, como Gomes de Brito, António Enes e Henrique Lopes de Mendonça, tendo este casado com uma das irmãs.
As suas amizades, fora do âmbito familiar, cimentou-as, especialmente, no mundo da literatura, do jornalismo e do espectáculo, campo que o fascinou ainda jovem. De cada redactor dos seus jornais fez um amigo, recrutando-se entre estes as suas maiores amizades, com destaque para Guilherme de Azevedo e Ramalho Ortigão. A Guilherme de Azevedo, seu colaborador literário desde a época de A Lanterna Mágica (1875), e com o qual fundou, anos mais tarde, O António Maria, ligou-o um afecto profundo que o levou até Paris, para o amparar, quando da trágica morte do malogrado escritor, em 1882. Apesar dos seus temperamentos antagónicos - Rafael Bordalo, um extrovertido, transbordante de vida e entusiasmo, Guilherme de Azevedo um tímido e amargo pessimista - completavam-se na perfeição. Eram ambos noctívagos, acompanhavam-se até altas horas, percorrendo botequins, participando em ceias, convivendo nos teatros de que ambos eram assíduos frequentadores. No trabalho, um e outro eram desorganizados, mas, um, de lápis, e o outro, de caneta fáceis, cultivavam, com frequência, o improviso.
Já com Ramalho Ortigão, que substitui Guilherme de Azevedo na redacção de O António Maria, quando este, em 1881, partiu para Paris, apesar da grande amizade que os unia, os temperamentos e os procedimentos chocaram-se no trabalho, pelo que a colaboração deste último, saldou-se por dois anos incompletos, o que em nada beliscou a sua velha e sólida amizade, como fez questão de afirmar Ramalho, anos mais tarde, ao traçar-lhe a biografia. Na verdade, Ramalho Ortigão não estava talhado nem para a vida boémia, nem para o improviso, e, muito menos, para a crítica política virulenta que Rafael cultivava.
Já grande camaradagem e amizade manteve com os redactores que se seguiram, alguns por longos períodos, como Morais Pinto (Pan-Tarântula), com o qual aparece em várias manifestações de protesto, ou, em tempos mais conturbados, com o verrinoso Fialho de Almeida, com o qual consegue, contra o usual, manter laços de amizade e de cumplicidade continuada, bem assim, com outros, de colaboração mais esporádica, como o extremista Guerra Junqueiro. O seu temperamento espontâneo e "sem malícia", como o classificou Júlio César Machado, facilitava relações fáceis que depressa se transformavam em naturais e verdadeiras, mesmo com os temperamentos mais difíceis.
Na sua roda de amigos, recrutados entre os cultores das letras, contaram-se nomes, no tempo muito conceituados, como J. A. Teixeira de Vasconcelos, um dos primeiros que entreviu as potencialidades de Bordalo para a caricatura, pelo que, logo após os primeiros ensaios tentados nesta direcção, nomeadamente, a caricatura dedicada à peça da sua autoria O Dente da Baronesa, e do álbum O Calcanhar de Achilles, de que o mesmo é figura de abertura, o incentiva a prosseguir. Com o ensaísta Júlio César Machado, com o qual colaborou com ilustrações para o seu livro Os Teatros de Lisboa, tendo aquele, também, composto um belo prefácio com a sua biografia que abre o álbum de caricaturas Frases e Anexins da Língua Portuguesa, manteve uma amizade íntima, só interrompida com a morte trágica e prematura do popular cronista de Lisboa. Conviveu de perto com Jaime Batalha Reis, Fernando Caldeira, Bulhão Pato. Para o último ilustrou a capa do seu livro de poesias Paisagens.
Conviveu e acamaradou com jornalistas, seus contemporâneos, especialmente com aqueles que ideologicamente defendiam o progresso, como se classificam os que se aproximavam dos ideais republicanos e socialistas, então em fermentação acelerada, não poupando, em contra partida, os directores e redactores dos jornais situacionistas. Admirou e conviveu com Eduardo Coelho, o fundador do Diário de Notícias e, depois, com o seu sucessor na direcção do jornal, Alfredo da Cunha. Coube a este, como Presidente da Associação de Jornalistas Portugueses, promover a grande homenagem nacional que lhe foi prestada em 1903.
Acamaradou e cerrou fileiras na luta pela liberdade de imprensa, com os jornalistas Silva Pinto que se tornará no principal estudioso da sua obra, após a sua morte, Augusto Pina, Caetano Alberto, e teve, em Sebastião Magalhães Lima, o fundador do jornal republicano Vanguarda, um dos seus ídolos.
Contou também com grandes amigos e admiradores entre os jornalistas do Porto, com os quais colaborou com ilustrações episódicas, destacando-se o grupo fundador A Folha Nova. Estes retribuíram, preparando-lhe uma carinhosa homenagem em 1881 que ele registou numa caricatura embevecida, publicada em O António Maria.
A estas e a muitas outras celebridades que admirou, mas com as quais não conviveu por pertencerem à geração anterior, e ainda outras, suas contemporâneas, como Eça de Queiroz por quem sentia uma admiração respeitosa, mas com quem não conviveu mais de perto por o escritor residir, quase sempre, fora do país, imortalizou em álbuns dedicados à consagração das grandes figuras nacionais, como o já citado Calcanhar de Achilles e essa obra prima de arte e de "charge" que é o Album de Glórias.
Frequentador assíduo dos teatros, era certo nas galas do Teatro de S. Carlos, onde foi aplaudir alguns dos mais célebres nomes do teatro e ópera da Europa, como Sara Bernhardt ou a Duse que homenageou em sucessivas páginas dos seus jornais. Não faltava às estreias do D. Maria II e do Dona Amélia, do Condes e do Gimnásio, do Trindade, para só citar os teatros que, na época, mais se destacavam e onde eram levadas à cena uma grande variedade de modalidades teatrais, desde o drama e alta comédia, às apreciadas operetas, farsas e mágicas.
Assim, naturalmente, boa parte dos que privilegiaram da sua convivência provinham do mundo do espectáculo: dramaturgos, como D. João da Câmara, comediógrafos, como Gervásio Lobato e Eduardo Schwalbach, simples revisteiros, como Sousa Bastos, compositores, como Círiaco Cardoso. A todos homenageou com belas composições em aguarela ou cerâmica, alusivas aos seus maiores triunfos. Igualmente manteve relações de grande amizade com alguns dos mais privilegiados empresários da época, principalmente Francisco Palha e o já citado Sousa Bastos. Para este desenhou a capa da sua obra maior "A Carteira do Artista", dedicando, a ambos, caricaturas de homenagem quando das estreias dos seus maiores sucessos.
Entre os actores nacionais que mais admirou e com os quais acamaradou, fazendo com alguns deles grande amizade, destaco o actor Vale (José António do Vale), para cuja estreia da farsa "O Vale em Lisboa" compôs ventarolas aguareladas com as caricaturas do autor da farsa, Eduardo Coelho, do empresário, Francisco Palha, do actor, e a sua própria, que ajudaram ao sucesso do espectáculo. Foi grande admirador dos três Rosas, o pai, João Anastácio Rosa, e dos seus dois filhos, João e Augusto Rosa. Quando os dois últimos formaram a companhia Rosas & Brazão, com Eduardo Brazão, foi sempre presença incondicional a aplaudi-los no teatro Dona Amélia e, depois, no D. Maria II, para onde a companhia se transferiu. A todos imortalizou em retratos a óleo, aguarela ou lápis, caricaturando-os em muitas das cenas que desempenharam e que fizeram época. Para os três últimos esculpiu molduras para montagem dos seus retratos, em barro das Caldas, decoradas com cenas das peças mais aplaudidas. Também Teodorico, António Pedro e Carlos Cohen receberam dele rasgados elogios.
Francisco Taborda e José Carlos Santos (o Santos Pitorra), encontram-se entre os cómicos que mais admirou, dedicando ao primeiro uma jarra, verdadeira obra prima, consagrando o actor no desempenho de uma das figuras da peça que lhe deu maior fama, "O Médico à Força". E, ainda, os actores Furtado Coelho e Lucinda Simões, com os quais fez amizade desde a sua estadia no Brasil. E também Silva Pereira e as actrizes Rosa Damasceno, a grande comediante Delfina do Espírito Santo e Palmira Bastos. A esta última acompanhou-a nos inícios da sua promissora carreira, tendo, para ela, desenhado alguns figurinos.
A todos estes e ainda a muitas outras celebridades da época, nacionais e estrangeiras dedicou numerosas litografias consagratórias, dispersas pelos seus jornais, constituindo hoje documentação indispensável ao estudo do movimento cénico em Portugal durante o último terço do século passado. Para muitos deles desenhou menus para jantares de homenagem e moldou pratos de faiança com dedicatória, comemorando as festas artísticas que lhes eram consagradas.
A sua passagem pela Sociedade Promotora de Belas-Artes, onde expôs as primeiras aguarelas e desenhos, aproximou-o do mundo das artes plásticas, onde o pai e, depois, o irmão Columbano sempre se moveram. Ainda fez parte do "Grupo do Leão", onde pontificava Silva Porto, então considerado dos artistas de vanguarda, convivendo com António Ramalho, Girão, Malhoa e mais alguns outros que retratou num desenho destinado a um painel de azulejos, os mesmos que Columbano representou num quadro a óleo que decorou, durante muitos anos, uma das paredes do Café Leão de Ouro e hoje constitui uma das glórias do Museu do Chiado. Não foi, porém, neste campo, em relação ao qual sempre se considerou um pouco à margem, que recrutou as suas maiores amizades.
Em grandes amigos transformou também Bordalo todos os que com ele colaboravam nos seus lugares de trabalho, quer nas tipografias onde publicava os jornais, editores, administradores, redactores, ou na Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha, onde foi estimado por colaboradores e operários. A Gonzaga Gomes, que foi administrador de alguns dos seus jornais e da Fábrica de Faianças, dedicou uma das suas mais belas peças de cerâmica, com dedicatória desculpando-se das muitas dores de cabeça que lhe fez sofrer, devido aos seus desmandos financeiros. O editor Justino Guedes, um dos seus amigos mais íntimos e até confidente, muitas vezes o socorreu com adiantamentos nos momentos mais difíceis. Além de outras peças de menor valia, para ele modelou um aparatoso candeeiro de suspensão em faiança policromada, hoje no Museu Rafael Bordalo Pinheiro.
Nos jornais, acamaradou com os caricaturistas mais novos que com ele colaboravam, entre os quais se encontrava o filho, Manuel Gustavo, e também Celso Hermínio, Pedro Cid e Manuel Monterroso que ficaram para toda a vida, rendidos ao seu fascínio. E se com alguns colaboradores da Fábrica teve raros desaguisados, transformou artífices e operários em grandes amigos. Estes, a que se juntou a população da vila, demonstraram o apreço em que o tinham numa manifestação triunfal que prepararam para o receber quando do seu regresso da segunda viagem ao Brasil, em 1899.
Generoso e irradiante de simpatia atraia todos os que dele se aproximavam. Em amigos transformou os médicos e enfermeiros que o trataram quando esteve retido no leito por ter partido uma perna ou quando foi fortemente incomodado por por um antraz que lhe provocou grande sofrimento. Entre estes contavam-se algumas celebridades da época, o Dr. Francisco Augusto de Oliveira Feijão, o médico-cirurgião Dr. Manuel Nicolau Bettencourt Pitta, o enfermeiro António Castilho, entre outros. A todos obsequiou com uma peça de faiança com dedicatória, a propósito, modeladas especialmente.
No número dos obsequiados e amigos entram também alguns dos seus clientes. Não raro, a cada encomenda, seguia-se uma peça oferecida com a dedicatória "Lembraça de Raphael Bordallo Pinheiro" ou outra equivalente. É neste número que se insere a convivência amistosa que manteve com José Relvas, desde que este, em 1895, encomendou, para a sala de música do seu palacete de Alpiarça, uma jarra que Bordalo baptizou de "Jarra Beethoven", em homenagem aos gostos artísticos do encomendador. De dimensões colossais não coube no salão para que estava destinada, tendo sido logo substituída pelas duas lindas "Jarras da Vinha" que fazem parte do espólio da Casa-Museu dos Patudos, oferecida por aquele benemérito ao Município de Alpiarça.
Proveniente duma família da média burguesia, gozou da estima e consideração da aristocracia culta da época, que não menosprezaram a sua convivência. Tendo sido, nos seus jornais de caricaturas, implacável na troça contra os títulos de recente data, enchendo de ridículo figuras como o Marquês de Franco e o Visconde de Faria, estabeleceu relações de grande amizade com o Visconde de Faro e Oliveira que fez questão de acolher o seu corpo no jazigo de família, no Cemitério dos Prazeres.
Não renegando nunca os seus ideais republicanos, que o levaram a privar com o Dr. Manuel de Arriaga e ter em Sebastião Magalhães Lima um grande amigo, contou sempre com a estima e a admiração dos membros da família real, alguns dos quais, como a Rainha Dona Maria Pia, a quem obsequiou com uma jarra com dedicatória, e o Rei D. Carlos, faziam questão, sempre que veraneavam nas Caldas da Rainha, de o visitar na sua Fábrica.
Vivendo permanentemente com embaraços financeiros, não deixou, porém, nos momentos mais difíceis, de contar com importantes patrocínios, através de figuras influentes que o admiravam e eram sensíveis ao seu talento. Emídio Navarro, quando Ministro das Obras Públicas, acorreu a um desses momentos, não só entregando-lhe a encomenda das figuras da Paixão destinadas ao Buçaco, mas concedendo-lhe um subsídio, comprometendo-se Bordalo a prestar assistência aos alunos da Escola-Oficina que o Ministro acabava de fundar naquela vila. Também Júlio de Vilhena, quando Governador do Banco de Portugal, salvou a Fábrica de Faianças de um afundamento irremediável, hipotecando-a ao banco, através de um providencial adiantamento que nunca chegou a ser cobrado em vida do artista. Para este verdadeiro mecenas de grande sensibilidade artística modelou Bordalo Pinheiro uma das suas mais raras e custosas peças cerâmicas, o "Perfumador Árabe", verdadeira obra de filigrana de barro.
Pelo seu talento, mas também pelas suas qualidades humanas, Rafael Bordalo Pinheiro não esperou, como tantos outros, pela morte, em 1905, aos cinquenta e nove anos incompletos, para ser glorificado. Muitos dos seus contemporâneos exaltaram a sua obra de caricaturista e alguns dos seus amigos anteciparam-se, traçando-lhe, em vida, a biografia, como o belo retrato que dele faz Ramalho Ortigão nas "Farpas", classificando-o como alguém que atravessou a vida "ovantemente e triunfalmente". A ele também dedica uma biografia muito completa Júlio César Machado, que serve de prefácio ao "Album de Frases e Anexins da Língua Portuguesa" (1876), enquanto J. J. Gomes de Brito, amigo desde a juventude, o fez, já depois do seu falecimento, numa introdução à resenha bibliográfica da obra do artista, coligida por Álvaro Neves.
O poeta Cruz Magalhães, apesar de seu contemporâneo, com ele não conviveu, mas logo após o seu falecimento, começou, com um carinho inexcedível, a coleccionar a sua vasta e plurifacetada obra artística, polemística e cerâmica que, mais tarde, transformou no Museu Rafael Bordalo Pinheiro, oferecido à cidade de Lisboa em 1924.
Foi amado, temido e aclamado. A estima, a admiração e a popularidade que desfrutou em vida, apagaram algumas invejas e perseguições de que não deixou de ser vítima, como ficou demonstrado quando da homenagem nacional que lhe foi prestada em 1903 por iniciativa da Associação de Jornalistas Portugueses. Nela todos os nomes ilustres da sociedade contemporânea quiseram marcar lugar, contando-se entre os que acorreram a homenageá-lo muitas das figuras políticas e outras que o seu lápis impiedoso não havia poupado. Admirado e rendido perante uma homenagem tão espontânea e sincera, desabafou comovido e meio envergonhado: "Mas, afinal, eles são todos meus amigos...".
* Curso de Museologia - Olisopografia. Ex-Chefe dos Museus Municipais e ex-Directora do Museu Rafael Bordalo Pinheiro de Lisboa, com mais de 100 textos publicados.
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