Desencantado com a indiferença e o conformismo mesquinho do público, Rafael lança a 1ª série (155 números) do que viria a ser o seu último jornal, cujo primeiro número é datado de 17 de Janeiro de 1900. Tal como acontecera com O António Maria, esta publicação surgida na fase final da Monarquia, dedica particular atenção à vida política e ao quotidiano lisboeta, pondo "a caricatura ao serviço da trizteza pública" numa "dança da Bica no cemitério dos Prazeres" (extracto da apresentação). Tratava-se dum jornal semanal com a participação artística de Rafael e Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro e com a colaboração literária de João Chagas.

Número-programa d'A Paródia:

"Os portuguezes são essencialmente conservadores. Por muito que esta opinião possa surprehender o nosso collega Magalhães Lima, não é menos certo que se nós mudamos com frequencia de fato, nos recusamos obstinadamente a mudar de idéias, o que faz com que em Portugal a fortuna sorria aos alfayates como o Sr. Amieiro do que aos evangelistas como o Sr. Theophilo Braga.

Se somos inquestionavelmente um paiz de janotas, estamos longe de ser um paiz de reformadores. Assim, o nosso primeiro embaraço ao emprehender esta publicação é familiarisar o publico com a idéa de que já não se chama o António Maria o jornal que tem agora na mão, por que o publico, conservador e rotineiro, quereria ver perpetuado no tempo e na galhofa, aquelle titulo que ficou pertencendo a uma epocha que desapareceu e que por isso fez o seu tempo.

Porquê - o que era o António Maria? O António Maria, meus senhores, foi a regeneração, o Fontes e a sua Agua Circassiana, o Avila e o seu cachenez, o Sampaio e os seus pamphletos, o Arrobas e os seus editaes, o Passeio Publico e o lyrismo do Sr. Florencio Ferreira, a Srª Emilia das Neves, a «judia» e os Recreios Whitoyne, mundo findo, mundo morto, de sombras, espectros, mumias, onde só poderiamos estar á vontade sob a condição de termos desapparecido com elle, o que não é evidentemente um facto.

Ficarmos dentro do António Maria seria ficar dentro de um museu, na situação de um velho guarda mostrando á curiosidade do seu tempo os despojos de uma epocha passada. A parodia é outra coisa, como o tempo é outro. O António Maria foi um homem. Quando muito, foi uma família. A Parodia - dizemol-o sem receio de ser immodestos - somos nós todos.

A Parodia é a caricatura ao serviço da grande tristeza pública. E' a Dança da Bica no cemitério dos Prazeres."

O desprezo que começa a sentir pelos jogos políticos e oportunismo extensivo a todos os partidos e instituições nacionais, transparece logo na capa do 1º número onde apresenta a política nacional como "A grande porca" e nos números seguintes prossegue com "O grande cão" (finanças), "A galinha choca" (economia), "O grande papagaio" (retórica parlamentar) e "A grande toupeira", representativa da reacção. A colaboração do filho, Manuel Gustavo, viria a aumentar a lista de símbolos políticos com "O progresso nacional: O grande caranguejo", "A burocracia: A grande rata", "A beneficiência: O grande cágado" e "A instrução pública: A grande burra".

O desencanto face à evolução política e económica do País é protagonizado por um Zé Povinho frequentemente desinteressado do destino nacional "dormindo, deixando «correr o marfim» ou urinando para a cratera extinta de um vulcão que representa Portugal, apagado e inerte face à actividade oposicionista que se verificava em outros países europeus" (in O António Maria, A Paródia, texto de Maria Cândida Proença e António Pedro Manique, p. 14). É também neste período de melancolia que nasce a célebre caricatura em que se retrata o Rafael, na pujança dos seus 30 anos, diante do Bordalo envelhecido.

Em Janeiro de 1903, e depois de uma interrupção de 4 semanas, reaparece a 2ª série com o novo título de Paródia - Comédia Portuguesa, sob a direcção de Marcelino Mesquita, acabando por desaparecer em 1908 com a ditadura franquista.

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