UMA NOVA FORMA DE ESTAR NO HUMOR
Osvaldo de Sousa*
Raphael é uma noca forma de estar no humor, pois «o riso - escreve Sousa Pinto - foi, em verdade, a grande seiva alimentadora do espírito sobremodo alegre de Bordalo. Era um home que adorava o riso, gostava de rir como poucos, e conseguia fazer rir como ninguém. O seu sentido mais apurado não era nem o da sátira, nem o da ironia, nem mesmo o do que modernamente se convencionou chamar "humor". Era o do cómico, (...) Raphael foi um cómico incomparável, mais propriamente um descobridor e orquestrador de motivos risíveis, do que um denunciador de ridículos».
Este retrato é bem a imagem de Raphael, pecando apenas, segundo o meu modo de ver, por uma má análise do que é o "humor". Raphael, para mim, é um, verdadeiro humorista, e não um cómico, já que ele orquestra o grotesco, o cómico, a sátira, a ironia numa harmonia que destrói os elementos agressivos da denúncia, para os apresentar como verdades irrefutáveis no riso. É um desmascarar, de forma inteligente e com consequências no atingido, feito pensamento de opinião profunda. Quem se sente atingido sente-se na obrigação de pensar porque é que se sente atingido. O próprio Raphael defendia que a sua caricatura «é o mesmo que pregar um prego no estuque de uma casa, com o protesto do senhorio. Caricaturar é estragar o estuque de cada um com protesto do senhorio».
Após as suas tentativas de fazer triunfar um «humor novo», de fazer triunfar os seus jornais, ele em 1875 já se sente perdido e desiludido. A vida dos caricaturistas, mesmo daqueles que, abdicando da sátira violenta, procuravam um caminho pela «crónica» irónica, era difícil. Aborrecido com os problemas políticos e financeiros, Raphael aceita um convite para ir trabalhar para o Brasil. Aí permanece de 1875 a 78, e publica os jornais «O Mosquito» (1875), «Psit!!!» (1877), «O Besouro» (1878). Entretanto, em 1876, sai em Portugal o álbum «Phrases e Anexins da Lingua Portuguesa».
Se em portugal ele tinha tido complicações, no Brasil os conflitos provocados pelos atingidos com o seu humor, chagaram a extremos de porem em causa a sua segurança, e a da família. Em 1878 regressa a Portugal desiludido com a barbárie, a prepotência dos «coronéis».
Posteriormente, teve mais convites para ir trabalhar fora de Portugal, simplesmente recusou-os, ou enviou os trabalhos pelo correio para serem publicados no «Illustración Española y Americana», «El Mundo Cómico», «L'Univers Illustré» e «The Illustrated London News». Para este último, chegou a deslocar-se à Andaluzia, onde fez a cobertura das lutas carlistas, tornando-se desta forma um dos primeiros correspondentes de guerra portugueses.
De regresso a Portugal, lançou-se de novo na aventura das publicações, com o jornal «António Maria», o seu jornal com maior longevidade (1879/85, 1891/98). Ainda nesse ano publica o álbum «No Lazareto de Lisboa», e em 1880 o «Álbum das Glórias». Em 1885 obrigam-no a fechar o «António Maria», por questões políticas, mas este renasce passados meses, com um novo baptismo - «Pontos nos ii» (1885-1891). Neste jornal começará a colaborar o seu filho Manuel Gustavo, que aos poucos o substituirá. Em 1891 o «Pontos nos ii» retoma o nome de «António Maria», que se mantem nas bancas até 1898. Em 1900 criou o seu último jornal «A Paródia» (1900-1906), que lhe sobrevirá quase dois anos.
Raphael Bordalo Pinheiro, para além dos jornais e álbuns que publicou, trabalhou também na ilustração de livros, assim como na cerâmica. Neste último campo, foi um renovador desta velha arte, fazendo-a renascer como uma indústria nas Caldas da Rainha.
No humor gráfico, que é o que nos interessa para o caso, durante trinta anos ele desenharia vários milhares de páginas, comentado a política e a vida social do país. Dirá mais tarde um crítico que um dia, quando for feita a história da caricatura em Portugal, em vez de Raphael encontrar-se-á o Partido Progressista, o Fontes, o Zé Povinho. A força do comentário de Raphael, como testemunho cheio de vida de uma época, confunde-se com os próprios acontecimentos e individualidades. Raphael foi o ilustrador, o comentador e caracterizador de uma sociedade através da ironia, foi «um jornalista sem reservas de paixões cegas», que nos deixou a história da segunda metade do século XIX enriquecida pelos seus comentários cheios de graça. Como obra-prima, e companheiro da sua saga crítica, ele criou a síntese do povo português, o homem desconfiado mas ingénuo, o revoltado mas indiferente, o alegre mas saudoso - o Zé Povinho.
Orientador de um novo estilo de sátira como opinião, foi também o criador de um estilo estético marcante. Partindo de um desenho naturalista, apresenta-nos uma abundância de traço, de detalhe exagerado. Evoluiu depois para uma simplificação das superfícies envolventes e síntese do traço, verificando-se uma demarcação de contornos que o mantêm ligado à origem do naturalismo. O «barroco» decorativista do traço, é uma constante do seu estilo.
Outro elemento inovador de âmbito gráfico que Raphael trouxe para os jornais está no tratamento da paginação. Trabalhando a página como um todo, ele dialoga as legendas, as letras com a ilustração, criando-a como uma obra única.
Raphael, que morreu em Janeiro de 1905, foi um novo estilo de humor, um novo estilo de traço, uma personalidade que se impôs, criando por isso uma plêiade de discípulos que, ao imitarem-no, criaram uma escola estilística que se mantém até aos nossos dias como estilo académico. No fundo, os traços da escola portuguesa, do academismo actual, estão dominados pela família rafaelista.
O mundo de Raphael e Sanhudo
O humor é um confronto de realidades, é uma «criança ingénua» que se ri do poder, que brinca com ele, joga-o a pontapé da sátira, torce, achata, estica, mascara-o ou desmascara-o. Como fonte destas deambulações, como fonte de inspiração, ou como brinquedo do caricaturista-humorista, foi criado o político.
Os políticos fazem eleições para se elegerem como poder e, ao assumirem-se como vendedores de promessas, como compradores de votos, significa que também o eleitor está disponível a vender-se. Eis como se fabrica um eleitor: «Os cinco sentidos eleitorais - primeiro vê-se uma caravela de doze (dinheiro); depois ouve-se uma promessa tentadora...; mais tarde cheira-se o carneiro com batatas; em seguida gosta-se do torreano (vinho) de 80 réis o litro, e por fim apalpa-se o chão com as costelas. E aqui está como se vota» (R.B.P. in António Maria a 1/11/1883).
O eleitor vende-se, é enganado, «apalpa o chão com as costelas» e volta a vender-se. Porquê? É que «o eleitor é como os carneiros de l'anurge: atira-se para a urna inconsciente, indo atrás do choro d'um emprego ou de uma promessa (...). Quando os ventos mudarem e os donos d'agora queiram segurar os últimos carneiros suceder-lhes-á fatalmente marcharem com eles para o abysmo...» (R.B.P. in Pontos nos ii a 18/11/1886).
Era tradição, nesses anos do século XIX, oferecer um copo de vinho e um prato de carneiro com batatas aos eleitores arregimentados ao partido, após o acto eleitoral. Por essa razão encontramos tantas caricaturas que utilizam aquele prato como símbolo das eleições.
Após as eleições, um novo Parlamento se constitui, e S. Bento «... depois de ter o cortiço bem limpo do enxame passado, acaba de chamar o enxame novo, que há-de fabricar o mel das contribuições, com que se dá, não diremos pelos beiços, mas pela bolsa de Zé Povinho». «Como estas abelhas parlamentares gostam muito de faltar ao cortiço preferindo-lhe a Avenida, muito desejaremos que antes façam cera fazendo a Avenida, de que façam mel fazendo-nos de fel e vinagre.» (R.B.P., in Pontos nos ii a 7/4/1887).
O Zé ou apanha uma vinagrada, ou é esquecido na cozinha política. De si, os políticos nunca se esquecem, mantendo a boa imagem do cozinheiro na triologia figural da política: «Bonita, feia e de barriga. Três figuras distintas e só uma verdadeira ... a de barriga.» (S. Sanhudo, in Sorvete de 30/9/1883).
«A política é uma coisa que cheira bem a uns e cheira mal a outros A política está na barriga e é pela barriga que se conhecem os grandes políticos D'antes chamava-se político a qualquer sujeito que cumprimentava sempre a todos com muita amabilidade em vésperas de eleições. Chama-se "Grande Político": a todo o indivíduo (ainda que seja da marca de Judas) que se sabe abotoar Politiqueiros: aqueles que fazem política... para levar a vida... Politicões: aqueles que já têm o rabo pelado com a política Políticos honrados: aos que viram a casaca muitas vezes segundo lhes sopra o vento... Político independente, noticioso, literário e comercial, a todo e qualquer jornal que recebe subsídio Eis aqui um dos muitos que arrotam postas de pescada a favor do povo esmagado com décimas... para subirem ao poleiro e, depois de se lá pilharem... Porque tal, porque o povo pode e deve pagar mais! É a política de todos!» (S. Sanhudo in Sorvete a 23/3/1884).
Os governos, através da caricatura, aparecem-nos como uma palhaçada: polichinelos manobrados por cordelinhos invisíveis; ilusionistas que através de truques enganam o Zé Povinho; saltimbancos que saltam entre os arcos da "Rethorica Pitoresca" enquanto fazem "cambalhotas gramaticais"; trapezistas que se passeiam pelo ar, ou que andam no arame com risco de cair. Quando um cai, de imediato outro lhe toma o lugar.
Porta-voz do Zé Povinho
O caricaturista, como porta-voz do Zé, é oposição à oposição e ao Governo, porque segundo os adágios e provérbios do Pontos nos ii (R.B.P. 11/9/1890) «De Deus vem o bem, e do governo vem o mal»; «Quando o povo diz aí, o Governo diz, daí». E o político, tanto é governo como oposição, já que estes «são como aqueles ferreiros de capelistas: quando o Governo X está no poder, o povo é sempre um arruaceiro que precisa de guarda municipal como pão para a boca, ao passo que o Governo Y lhe chama povo livre que pretende zelar os seus interesses. Desce o Governo X e sobre o Governo Y: é logo este quem fornece guarda municipal aos arruaceiros e àqueles que aplaudem o procedimento do povo soberano. Por isso se vê que o Zé Povinho tem nos governos duas parcialidades que o aplaudem e o zurzem - alternadamente, para não cansar o braço. Em vendo alguém a dar-lhe palmas, já sabe que amanhã lhe dará pancada» (R.B.P., in Pontos nos ii a 7/4/1885).
Quem apanha sempre é o Zé, e é sempre ele que cai na nova ratoeira política, porque, como diz Sebastião Sanhudo, «o povo português é exactamente da índole do boi. Uma criança qualquer o conduz aonde desejam sem que ele saia da sua mazorrice habitual. Não é como o couraçado Pimpão: que se apertam muito com ele - estoira. Nem como a nossa guarda municipal - que esmaga tudo quanto encontra diante de si... em certas ocasiões. O povo português é como o boi de trabalho, tem força mas não sabe que a tem. É preciso picarem-no tanto para ele andar mais um pouco...» (in Sorvete a 16/7/1882).
Quem mais picou o Zé, ou a ironia de Raphael foi o António Maria Fontes Pereira de Melo. Pode-se dizer que ele foi o centro, foi a Fonte de inspiração, a espinha atravessada na garganta. (R.B.P. in Pontos nos ii, 18/6/1885).
O "Rei" Fontes foi o político que mais humor e caricaturas originou em toda a nossa história da sátira gráfica. Ora, se o Zé Povinho é o símbolo do povo português, quase se poderia dizer que o Fontes é o símbolo do nosso político:
«Caro Fontes, qual é a tua opinião a respeito da 'mão calosa do operário'?
É que devemos prometer agora com a esquerda o que quando estamos no poder lhe costumamos tirar com a direita (R.B.P. in Antonio Maria, 27/11/1879).
Iniciando a sua carreira como deputado, passaria por várias pastas ministeriais, até subir todos os degraus possíveis da governação: «O Homem dos Sete Instrumentos Admirae-o, senhores. Elle toca a presidência da Câmara dos Pares com os queixos; toca a presidência do Supremo Tribunal Administrativo com a cabeça; toca o generalato com os punhos; toca a governação do credo hypotecário com a testa; e toca o poder oculto com o nariz!» (R.B.P. in Antonio Maria, 23/6/1881). No final não passava de uma «velha rapoza matreira» (S. Sanhudo, in Sorvete 28/2/1886).
O Político é essa raposa que tem de sobreviver no meio dos outros políticos. Por isso odeia o humorista que o desmascara, que o satiriza, que faz dele a descarga dos maus-humores sociais. Mas, no fundo, existe também um lado de admiração, seja pelo aspecto estético do artista, e humorístico, seja pela arte do "trapezista" na corda bamba da política.
Também Raphael e Fontes foram contra-ponto de crítica e perseguição, mas no final, quando a morte desfez o jogo (1/1887), Raphael saudou o seu adversário reconhecendo que, «por mais que se encarrapitem, nenhum (político) é capaz de lhe chegar ao pulso» (R.B.P., in Pontos nos ii 3/2/1887).
* Especialista em Banda Desenhada.
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