NAÇÃO VALENTE E IMORTAL...
O ULTIMATUM VISTO POR RAFAEL BORDALO PINHEIRO
João B. Serra*
É um Bordalo recém-chegado de Paris, onde se fizera reconhecer pela crítica internacional como decorador e como ceramista, que enfrenta o Ultimatum britânico de 1890. No ano do centenário da Revolução, uma grandiosa Exposição Universal fora projectada para a capital francesa. A decoração do Pavilhão português, no Quai d'Orsay, veio a ser atribuída a Bordalo pelo Comissariado português chefiado por Mariano de Carvalho, em Março de 1889, depois de uma violenta campanha jornalística contra o director da secção industrial, o Visconde de Melício (acusado de pretender arredar de Paris a representação nacional quer da agricultura quer das colónias, ou seja no dizer de Rafael "justamente o que constitui a importância interna e externa da nossa terra").
A exposição abriu em Maio e no fim do ano Rafael publicou um suplemento à edição semanal de Pontos nos ii com uma reportagem sobre o Pavilhão português acompanhada de fotogravuras. O sucesso obtido é a interpretado como um reforço dos seu entendimento "de que em Portugal se deve provocar uma corrente de opinião para fazer guerra à nossa desgraçada mania de estrangeirismo, que tanto nos avilta, e tão incaracterísticos nos torna". "Procurei lavrar no pavilhão do Quai d'Orsay - reclama com orgulho - um protesto contra o desdém e a desconfiança pelas coisas essencialmente portuguesas", apontando a prática da imitação de tudo quanto se faz lá fora como "um rebaixamento do carácter nacional".
O mesmo tipo de afloramento nacionalista se pode encontrar na primeira página da primeira edição de Pontos nos ii de 1890, datada de 2 de Janeiro, onde Rafael, numa alusão ao novo ano que acaba de entrar, figura o Zé Povinho empunhando a bandeira portuguesa e pontapeando, sob o Arco do Triunfo, com a Torre Eifel em fundo, um John Bull caído por terra, espavorido perante um gato preto assanhado. De mãos dadas com o Zé, camponesa em atitude revolucionária, a Maria brande uma espada onde se lê "Viva Portugal", em direcção a um Punch que com o seu macaco ao colo foge montado num leão. Ladeiam a página as inscrições "Exposição de Paris" e "Pavilhão do Quai d'Orsay". Em baixo: "Tudo pela Pátria".
Na edição de 9 de Janeiro, as páginas centrais são dedicadas à "austera imprensa inglesa" na forma como se coloca face ao problema da partilha de África e à posição britânica de não aceitação da arbitragem. Uma mão em forma de garra levanta, suspensa de uma unha incrustada na palma, uma porção de Africa povoada de bandeiras portuguesas. Um Zé Povinho indignado comenta: "Têm unha na palma, os larápios! Cada dedo é uma esquadra... O pai de todos e o fura bolos são feitos de couraçados... mas por vergonha nossa, é talvez com o mata piolhos que eles nos esmagarão? - E pensar que também Portugal teria unhas, se não as tivesse roído!" Do outro lado, três galináceos figurando o Punch, o Times e o Standard, jornais britânicos, debicam sobre um mapa de África o milho que o Duque de Fife lhe atira, em nome das Companhias inglesas de África, sob o olhar da Rainha Vitória e de Lord Salisbury.
Dois dias depois era o Ultimatum aceite pelo Governo. Um suplemento de 4 páginas de Pontos nos ii, inteiramente ocupado com o acontecimento, publica-se a 16. A última página é dedicada a Serpa Pinto "heróico explorador que atravessou a África no meio de triunfos (...) a verdadeira e única encarnação do espírito nacional, isento de toda e qualquer mácula partidária", apresentado aliás como o arrauto da civilização (sob a forma de caminhos de ferro) junto dos negros africanos. Na primeira página e nas centrais Bordalo representa o contraste entre a subserviência actual de um D. Carlos (King Charles para a Rainha Vitória que dele diz ser "o melhor fraldiqueiro do meu império") e a virilidade futura da Nação. Mais uma vez é o Zé Povinho que Bordalo escolhe como protagonista central da figuração. "Hoje" calcado aos pés da "pirataria" inglesa e da "traição dos Braganças", mas "amanhã" empunhando o látego com que expulsa do País todas as marcas da dominação económica britânica.
A proposta de Bordalo ao Zé Povinho é directa, e assume-se como anti-retórica: "A guerra de Portugal à Inglaterra deve concentrar-se agora na Guerra de Portugal ao inglês". Fim às importações de produtos e máquinas inglesas: "eliminemos para sempre esse traiçoeiro País das nossas relações comerciais, tão rápido quanto possível".
Ao longo dos 2 meses seguintes, Bordalo vai interpretando e comentando, através do Zé Povinho, a evolução das sequelas do Ultimatum na vida política portuguesa e das modalidades de reacção da opinião pública. A 30 de Janeiro, já entretanto Bordalo parece descrente da capacidade de uma resposta nacional, se não eficaz pelo menos exaltante. O Zé Povinho do "Comité da Subscrição Nacional" travestiu-se de Hamlet, um Hamlet descoroçoado que repete, ante as sucessivas "amostras da loquela pública" a célebre frase "palavras e mais palavras, só palavras". Já não é o Zé desbarretado e de peito aberto que anunciava o "amanhã" redentor, de quinze dias antes.
O Zé Povinho que Bordalo elege como actor das cenas da vida nacional oscilará permanentemente entre a frontalidade e a insubmissão, por um lado, e o calculismo e maleabilidade, por outro. Desta contradição se tece uma espécie de teoria do carácter português, onde o arrobo e o voluntarismo patrióticos depressa cedem o passo ao fatalismo e à descrença nas capacidades próprias.
O comércio solidarizou-se inicialmente com o protesto nacionalista mas depressa encontrou escapatárias. A 6 de Fevereiro, o Zé Povinho interpela indignado um comerciante de géneros, por detrás do qual se encontra um inglês mascarado de espanhol, à cerca da proveniência de um carregamento de açúcar acabado de chegar. O comerciante, depois de protestar ter sido dos "primeiros a jurar que não compraria mais um vintém de assúcar à Inglaterra" confessa ter feito a importação daquele País: "Mas eu misturei-lhe farinha ... - acrescenta - e assim ficou naturalizado português".
Entre as expectativas de um gesto mais dramaticamente antibritânico que rassarcisse o País da humilhação sofrida e as cautelas diplomáticas e negociais do Governo, abriu-se um diferendo que os republicanos drenaram naturalmente em seu favor e que o Regime procurou conter através de medidas como a dissolução parlamentar, a proibição de manifestações e o controlo sobre a imprensa. O movimento de protesto de rua contra a Inglaterra - que os republicanos dirigiam contra a Monarquia e o recém coroado rei D. Carlos I (o último, segundo a premonição de Bordalo) encontra a 11 de Fevereiro, um mês depois do memorando inglês, o seu pico. E igualmente a sua primeira escolha, sob a forma da guarda municipal e dos seus apitos. É a "campanha dos apitos" que nos Pontos nos ii foi representada tendo por alvo um Governo que acabara de entrar em ditadura.
A partir daí será o refluxo do protesto popular (como Nuno Severiano Teixeira detectou no seu trabalho sobre "Política externa e política interna no Portugal de 1890"), a que a repressão moderada, em combinação com o anúncio de eleições para Abril não serão estranhos. A 22 de Fevereiro, no "rio político" em que "Portugal vai à vela", dum lado os republicanos envergando as suas vestes franciscanas "pregam" aos peixes que, da outra margem, os políticos monárquicos manhosos, sob o olhar dum John Bull bonacheirão, recolhem com as suas canas: "o peixinho ouve a pregação dum lado e vai digerir o carneiro com batatas do outro" - é a moral que Bordalo propõe. O Zé Povinho deixou-se impressionar pelo pagamento que as eleições sempre proporcionam, como se deixou impressionar pela Guarda a 11 de Fevereiro. Quando a Maria, apontando os tomateiros da horta do Zé, lhe pergunta, como é que ele tendo tantos desses frutos na horta" permitiu que no dia 11 "houvesse uma tal falta deles em Lisboa", ele responde: "vendi-os todos ao Governo para temperar o carneiro com batatas das eleições".
Em contrapartida, a edição de Pontos nos ii de 27 de Fevereiro coloca em comparação "três atitudes diferentes". De um dos lados, a atitude do Governo "perante o povo, despótica", do outro, a atitude do mesmo "perante a Inglaterra, servilíssima". Só a terceira, ao centro, é nobre e honrosa; um patriota empunhando a bandeira descoroada. É "a atitude do povo, tranquila, digna, e entressonhando o dia em que haja de pôr na rua um e tirar desforra do outro".
A campanha da "Grande Subscrição Nacional" após os primeiros tempos de fervor - que lhes permitem instalarem a sede no Teatro D. Maria e vencerem as proibições e ameaças do Governador Civil e obrigarem a um reconhecimento pelo Governo - cai numa fase de letargia. A nova Lei de Imprensa ameaça a liberdade. O pessimismo volta, o desencanto instala-se. A 22 de Maio, "O tríptico do Zé Povinho" dá conta deste trânsito. De um Zé Povinho que, a 11 de Janeiro, se "insurge contra os seus algozes" e dá vivas à República, a um Zé Povinho que, um mês depois, "esquecido dessas promessas redentoras" pactua com os ingleses e o seu domínio comercial, com o Paço e a sua traição. A palavra amarga e acusadora de Bordalo: "Contempla esta miséria, povo, e arrepende-te, se podes, da versatilidade, da subserviência e do envilecimento em que caíste".
* Investigador associado do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.
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