À VOLTA D'A PICARESCA VIAGEM DE RAPHAEL BORDALLO PINHEIRO

António Dias de Deus e Leonardo de Sá*

Quando consideramos Apontamentos Sobre a Picaresca Viagem do Imperador de Rasilb pela Europa, de Raphael Bordallo Pinheiro, como a primeira história aos quadradinhos portuguesa, vários factores nos levaram a tomar tal decisão.

É certo que a sequência narrativa já tinha entrado em Portugal, com as "Aventuras Sentimentais e Dramáticas do Senhor Simplício Baptista" publicadas em páginas mais ou menos contínuas da Revista Popular, em 1850. Porém, temos hoje a certeza que eram apenas cópias (e más cópias) de originais franceses, estando assinados por Flora - exclusivamente gravador da versão simplificada e amputada. Em relação a Nogueira da Silva, que publicou 4 ou 5 exemplos de ilustrações sequenciais em 1856 no Asmodeu e em 1857 no Jornal para Rir, o texto sobrecarregava sempre a imagem, que raramente era explícita. Manuel de Macedo tem alguns exemplos de histórias desenhadas em As Notícias de 1866. Porém, as melhores foram pilhadas a autores estrangeiros. A única incidência nacional que lhe descobrimos não é mais do que um cartoon desdobrado em duas vinhetas.

Falta-nos falar do próprio Raphael. Admitindo que no nº 3 de O Binóculo (1870) haja repetição de figurantes teatrais, a relação entre os quadros não é suficientemente explícita para contar de maneira inteiramente compreensível uma história. Nas duas primeiras e na última prancha das sete folhas de A Berlinda, de 1871, admitimos que se possa encontrar alguma sequência narrativa. Todavia falta-lhe encontrar o herói, a trama consequente e até o princípio, meio e fim do acontecimento. Ainda por cima, o trabalho está meticulosamente executado, o que dificulta a articulação entre as vinhetas. Quando o crítico José-Augusto França valorizou a 7ª folha de A Berlinda e desvalorizou o esquematismo gráfico d'A Picaresca Viagem nós chegámos à conclusão exactamente oposta, porque uma HQ implica mais continuidade do que minúcia no traço.

Deste modo, decidimos a aceitar A Picaresca Viagem como o exemplo real da primeira BD portuguesa, até porque a intenção era visivelmente de contar uma história inteira, o que determinou a edição num álbum de 16 páginas. Esta história é um todo homogéneo. Raphael Bordallo Pinheiro tinha achado a forma, a fórmula e o feitio.

A importância desta história como génese da banda desenhada portuguesa é bem explícita na explosão criativa posterior - quer em Raphael, quer nos seus seguidores e imitadores.

Por duas vezes D. Pedro II, último imperador do Brasil, visitou a Europa. Da primeira vez, em 1871 (registada n' A Picaresca Viagem, pois Rasilb é evidentemente uma anagrama), deslocou-se a Vale de Lobos para cumprimentar o "azeiteiro" Alexandre Herculano. Prosseguiria depois pelo resto da Europa, ao encontro dos imperadores que ainda havia e das sociedades científicas (era um fraquinho que tinha...). Quando veio outra vez à Europa, Alexandre Herculano, comovido pela visita anterior, deslocou-se expressamente a Lisboa. A estadia do historiador na capital saiu-lhe mal: arranjou uma pneumonia que o levou desta para melhor.

No álbum, Portugal dá pelo nome de Vale de Andorra Júnior ("país onde a democracia e as laranjas são originárias da China") e o Imperador-democrata quase sempre anda com chinelos, xaile e joalheiras rotas - apesar de ser rico na vida real. Os que ficam mais ridicularizados são as academias filarmónicas, ministérios, etc.; farto deste país, safa-se para meio dos alemães, onde despreza a França, e depois vai conviver com os franceses, onde menospreza a Alemanha (a guerra entre as duas acabara há pouco). Aprende a dançar o "French cancan". Salata para Inglaterra onde vai ao Convent Garden, mas não tem trajos de pompa e circunstância, pelo que é posto na rua a pontapés. Visita de bicicleta rapidamente a Itália, a Grécia, o Egipto, a Palestina, a Ásia Maior, a Menor e as outras.

De volta ao Vale de Andorra Júnior, após a passagem pela cavalheira Espanha, a sabujice dos habitantes faz substituir por um papagaio - símbolo da sapiência imperial - a estátua de D. José, e a de Gil Vicente no Teatro Nacional D. Maria II é trocada pela figura do próprio Imperador de Rasilb, vestida folcloricamente de cacique índio (com todos os preparativos contados dentro dum grande parêntesis). A recepção pública foi imponente: as iluminações festivas eram deslumbrantes - uma grande mancha preta com umas pintinhas de branco! E continuaram do mesmo jeito por várias noitadas...

O Imperador vai ainda a Tróia de Vale de Andorra Júnior (Porto, a rival da cidade fundada por Ulisses) onde consome uma grande quantidade de tripas à moda da terra. De novo na capital, lava-se no chafariz de Fora, come iscas, peixe frito (na zona das Hortas), e recebe as úlitmas láureas. Regressado às suas terras, escreve e ilustra o seu diário. E ao mundo de relembrar e admirar os maiores homens da história: as térmitas prussianas, o Imperador da Alemanha e o chanceler Bismarck metamorfoseado em caracol e, enfim, o soberano de Rasilb...

Em suma, esta narrativa lê-se em continuidade, porque Raphael - então com 26 anos - ainda só estava a afiar o gume da sua veia satírica, e não há cartoons destacados no meio desta autêntica história aos quadradinhos. Teve uma "segunda edicção" quase inteiramente redesenhada - exceptuando as páginas 14 e 15, idênticas à 1ª edição - e com a composição ligeiramente alterada. Raphael teria talvez pretendido melhorar a versão inicial, visto o seu evidente sucesso; ou, de forma mais simples, as chapas litográficas originais estariam possivelmente inutilizáveis.Houve ainda uma "terceira edicção" definitiva apenas com algumas correcções no texto tipográfico (mantendo a menção "2ª edicção" no cabeçalho da página 2). Todas as versões datam do mesmo ano de 1872.

De notar que D. Pedro II nunca se ofendeu com Raphael Bordallo Pinheiro, decorrendo parte da carreira deste no Brasil, a partir de 1875. Tudo acabou em bem, porque todos eram boas pessoas.

* O Dr. António Dias de Deus é tido como o maior especialista de banda desenhada portuguesa, tendo igualmente escrito quantidade impressionante de artigos sobre o tema.

O Arq. Leonardo de Sá participou em diversos festivais internacionais de banda desenhada bem como noutros eventos da especialidade, para além de ter escrito grande quantidade de artigos sobre banda desenhada.

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