A censura

Este carimbo infame, conheceu-o José Vilhena a cada livro publicado.

Praticamente todos os seus livros escritos antes do 25 de Abril de 1974 foram objecto de censura e apreendidos pela PIDE-DGS e pela PSP.

A censura em Portugal tem uma longa história, e constitui, no dizer de Jacinto do Prado Coelho, uma das "originalidades da literatura portuguesa".

Porém, o jogo de José Vilhena com a censura foi extremamente original e interessante. Conseguiu, com efeito, usá-la e transformá-la numa adjuvante para o sucesso comercial dos seus livros. Ela era primária, previsível e de uma eficácia muito pequena. Deixava passar as subtilezas de humor que não conseguia compreender. Era portanto quase contraproducente, acabando por dar aos textos do autor um "picante" suplementar.

Estava-se a ler uma obra proibida nos dois sentidos: pelo tema e ilustrações (que não se podiam mostrar em público, nessa época tão "moral") e pelo poder. A proibição funcionou como um estímulo à compra e à divulgação da obra e terá provavelmente criado uma corrente de solidariedade entre o autor e os seus leitores, que formavam uma comunidade mais ou menos corajosa. Ela servia para dar mais voz aos textos e atribuía-lhes sentidos novos e politizados que nem sempre tinham à partida.

Estabelecendo uma fronteira, a censura permitia precisamente a sua ultrapassagem, o "pisar o risco". Além de estimular a compra pelo factor "proibição", estimulava-a também pelo factor "tempo": compre depressa antes que seja apreendido!

Nos livros, a censura é largamente referida, embora muitas vezes de forma velada. É sempre ridicularizada e ironizada. Na introdução de "Amor e Lei", por exemplo, fala dos seus problemas com a censura e pergunta-se que sentido dará desta vez às suas "inocentes" palavras. Esta obra, também censurada, é constituída por excertos do código penal...

Auto de apreensão de um volume de "A Cama"

A Censura invocava que os livros de Vilhena continham "pornografia". De 20 a 26 de Julho de 1971, seis agentes da polícia (5 da PSP, e um da PIDE) percorreram as tabacaria e os quiosques para apreender os exemplares de "A Cama" por conterem "ilustrações de carácter pornográfico". As ilustrações em questão são reproduções de obras de Munch, Velasquez, Degas e outros "colegas de pincel", como Vilhena os chama....

Quadro legal da censura em Portugal durante o Estado Novo

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