Personagens

Nenhuma das personagens se distingue por feitos positivos extraordinários, valorosos ou corajosos. O heroísmo está completamente ausente da longa galeria de personagens retratadas por José Vilhena. Pelo contrário, o que os distingue são os seus atributos negativos excepcionais. Todas as suas personagens são anti-heróis. Uns porque são imorais, outros porque, embora "bons", são postos de fora pela moral vigente. Os títulos são claros quanto ao tipo de personagens que o leitor pode esperar: "O filho da mãe" não augura um herói romântico como personagem principal...

Rui Zink classifica as personagens de Vilhena em três grupos: personagens claramente negativos; personagens pobres ou de classes baixas e personagens de comportamento reprovável segundo a moral vigente. Estas três categorias podem aparecer isoladas ou combinadas numa só personagem.

Se todos são anti-heróis, há no entanto duas grandes categorias: anti-heróis positivos e anti-heróis negativos.

Anti-heróis positivos:

Avelina, de "Avelina", é uma rapariga pobre, "vendida" como sopeira a uma família abastada que, apesar de ser vítima da hipocrisia e abusos dos patrões (entre outros homens), consegue vencer na vida graças à moral que a mãe lhe ensinara: não te fies em ninguém e "quanto mais conheceres os podres desta gente, mais os tens na mão". Não é certamente um exemplo de virtude, mas é uma personagem simpática.

Em "Os infiéis defuntos", Zézinha tem por profissão ser amante de um comerciante desonesto. Na história, é a única personagem honesta e com valores morais, mas apesar disso é rejeitada pela sociedade para a qual não passa da "prostituta".

O Cachucho de "Os Palitos" é um zé-ninguém filosófico, uma paródia do Zé-Povinho de Bordalo Pinheiro. É um personagem que "vive e deixa viver". A sua "filosofia" consiste em aceitar os cornos que lhe nascem na testa como algo de inevitável, algo de inerente à condição de marido. Apesar de ser a única personagem com moral, ele próprio afirma "Se eu fosse um gajo de bago, apresentava-me de outra maneira: camisinha lavada, gravata, palavreado mais fino... e até um bocadito de moral, palavra de honra que apresentava."

Anti-heróis negativos:

A galeria de personagens execráveis pintada por Vilhena é muito extensa. Patos bravos, arrivistas, funcionários do poder agarrados aos seus pequenos privilégios. A procissão de "sacanas" do Portugal da época é um sem fim de imoralidade, de hipocrisia, de pulhice, de roubo, desonestidade, pequena malandrice. Contudo, não há personagens mesmo más. Não se encontram assassinos, ou manifestações de violência gratuita. São, isso sim, personagens bem à escala dos famosos "brandos costumes", que até nas aldrabices são pequenos e mesquinhos. A maioria das vezes, a pequena imoralidade consiste em enganar a mulher com a secretária do escritório, seduzir a mulher do patrão para obter promoções, ou inversamente, usar dos dotes femininos para seduzir homens fracos mas ricos. São personagens de "desenrasca" sem grandes ambições, mesmo no engano. O mais desenvolvido desses personagens e que teve direito a uma trilogia de livros será talvez Justino Freitas, o Filho da Mãe.

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