A Arte, o Artista e a Sociedade

"Constitui um direito à liberdade que um artista concentre exclusivamente o seu talento e a sua criatividade na busca de novos valores formais: o da cor, do volume, da musicalidade, da linguagem. Essa atitude tem conduzido a enriquecimentos e descobertas dando vida à obra por virtude dos novos valores formais conseguidos.

Constitui também um direito à liberdade que um artista parta à descoberta de novos valores formais (da cor, do volume, da musicalidade, da linguagem) com o propósito de os tornar adequados e capazes de levar à sociedade, ao ser humano em geral, uma mensagem de alegria ou tristeza, de solidariedade ou de protesto, de sofrimento ou de revolta, em qualquer caso, como é de desejar de optimismo e de confiança no ser humano e no seu futuro."(pp.20-21)

"Quando se fala de uma arte voltada para o povo, para a sua vida e as suas aspirações e da mensagem que o artista, com a sua obra, leva ao povo, não se pretende que, no domínio da arte e da criatividade artística, o povo seja apenas objecto e destinatário. O povo é também autor, é também criador de valor estético. A criação popular funde o talento individual com o talento colectivamente considerado." (p.111)

"A imaginação artística dos povos envolve gerações, num quase inimaginável longo processo criativo, que, mantendo vivas mesmo que não evidentes as origens, as enriquece e traduz com elementos e valores estéticos novos." (p.111)

"Arte é liberdade. É imaginação, é fantasia, é descoberta e é sonho. É criação e recriação da beleza pelo ser humano e não apenas imitação da beleza que o ser humano considera descobrir na realidade que o cerca."(p.201)

"(...)É bom que jamais percam a necessidade e o gosto de escrever, de pintar, de tocar um instrumento, de mesmo em silêncio, sem assim se chamarem, continuarem a ser artistas."(p.202)

Álvaro Cunhal

Editorial Caminho, Lisboa, 1996


Em 1996, Álvaro Cunhal publicou este ensaio sobre estética, onde apresenta ao longo de catorze capítulos as suas reflexões actuais neste domínio.

Todo o ensaio é ilustrado por reproduções de obras de arte, da pintura à escultura, da arquitectura à literatura e até à música, que o autor comenta, interpreta e utiliza como argumentos de defesa das teses que vai apresentando. Este recurso à imagem, além de tornar o livro esteticamente mais atraente, torna-o mais interessante e acessível, mesmo para os leigos na matéria.

A ideia fundamental, presente ao longo de todo o ensaio, é a de que à arte e à criatividade artística deve ser dada liberdade total e absoluta, o que o leva, inclusivamente, a criticar as políticas culturais dos países comunistas, quando estas restringiam essa liberdade.

O ensaio começa com o conceito de belo, fundamento de toda a arte. Segundo o autor este conceito não se pode fechar em qualquer tipo de definição, seja ela filosófica, científica ou outra. O belo é algo de universal, mas também de contingente, está nas coisas, mas está essencialmente no homem e no juízo (estético) que este faz das coisas.

Álvaro Cunhal considera que "é nos valores que se complementam da forma e do conteúdo que na obra de arte, o belo se revela e se comunica e que o valor estético se afirma" (Álvaro Cunhal, 1996)

A questão da forma e do conteúdo é central nas reflexões propostas neste ensaio.

Se, por um lado, o autor crítica o formalismo e não resiste a fazer uma apologia da arte de intervenção, por outro, em nome da liberdade de criação artística, considera legítima a escolha de uma arte subjectivista e formal, reconhecendo o grande valor estético de algumas obras de arte oriundas desta corrente. O que Álvaro Cunhal não admite é a dogmatização e intolerância no campo da estética, que tem sido a palavra de ordem daqueles que defendem a arte pura, ou seja, o formalismo. Isto é, segundo o autor, um factor de esgotamento e empobrecimento do valor estético.

Álvaro Cunhal reconhece a forma como uma componente fundamental do valor estético, mas existindo uma mensagem positiva, de intervenção, a levar à sociedade, a arte, o valor estético e mesmo a forma ganham em força, diversidade e renovação.

Outra das ideias centrais deste ensaio é a de que o artista não pode escapar à influência da sociedade. "A influência e os reflexos da vida social na criação artística podem ou não depender da vontade do artista. Em qualquer caso são uma realidade objectiva."

O ensaio termina com um apelo, "um apelo à arte que intervém na vida social (...) um apelo à liberdade, à imaginação, à fantasia, à descoberta e ao sonho." (Álvaro Cunhal, 1996)

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