Artista Plástico

Segundo Álvaro Cunhal, a sua faceta de artista plástico, mais concretamente, de desenhador, pois foi através dos desenhos que essa faceta ficou conhecida, é episódica na sua vida.

De facto, a intensa actividade política, a que dedicou toda a sua vida, desde muito jovem, impediu-o de aprofundar esta sua vocação para as artes plásticas.

Álvaro Cunhal tende a reduzir a sua experiência plástica ao facto de ter estado preso durante onze anos, oito dos quais em isolamento, e isso o ter levado a desenhar intensamente. Mas a verdade é que Cunhal desenha desde muito novo. Em 1940 ilustrou o livro Esteiros de Soeiro Pereira Gomes e é conhecido o seu hábito de estar constantemente a desenhar nas reuniões em que participa, tendo, nas suas próprias palavras, milhares de desenhos na gaveta. No entanto, desiludam-se os mais entusiastas desta sua faceta, porque nunca os irá publicar.

Além disso, sabe-se que fez outras experiências neste campo, nomeadamente na técnica de pintura a óleo, mas que, seguramente pelo seu perfeccionismo, não considerou satisfatórias.

Na introdução a uma entrevista que fez a Álvaro Cunhal, José Carlos de Vasconcelos conta: "Fora da pergunta-resposta, mas sem ser "off the record", Álvaro Cunhal ainda me contou que uma vez deixaram entrar na cadeia, quando estava preso em Peniche, tintas e uma tábua, relativamente grande. Foi então a primeira vez que pintou a óleo - e até pintou a tábua...dos dois lados! Quando com outros camaradas, conseguiu realizar a famosa fuga do velho e (então) sinistro forte, a tábua, claro, ficou lá. Mas após o 25 de Abril foi encontrada numa arrecadação pelos militares que o ocuparam; e um dia, ainda em 74, era ministro sem pasta, foram a S. Bento entregar-lha." (José Carlos de Vasconcelos, 1997)

Os "Desenhos da Prisão", a sua única obra conhecida, inserem-no no neo-realismo, pela sua temática, o povo, pelo seu carácter interventivo (mesmo feitos na prisão, sob a vigilância apertada dos guardas) e mesmo pela forma.

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