Marcelino Vespeira

Marcelino Vespeira é um dos grandes pintores portugueses contemporâneos, notabilizando-se pela versatilidade. Passou por várias correntes estéticas e em todas elas se destacou.

Vespeira nasceu em 1925, no Samouco, Alcochete. Fez o curso da Escola de Artes Decorativas António Arroio e frequentou a Escola de Belas Artes de Lisboa.

Foi integrado na corrente neo-realista da pintura portuguesa que se tornou notado com a participação na I Exposição Geral de Artes Plásticas da Sociedade Nacional de Belas Artes (1946). O seu quadro a óleo Apertado pela Fome (1945) causou sensação. O título foi "extraído de um poema da Resistência de Paul Éluard" e é claramente inspirado no Eco do Pranto (1937), "realizado pelo mexicano Siqueiros no tempo em que participava na Guerra Civil de Espanha (...). No meio de ruínas, uma criança, magra, deformada, agarra desesperadamente numa pedra como se a fosse comer. O quadro de Siqueiros mostra uma criança a gritar. No quadro de Vespeira, a criança está incapaz de qualquer acção: não gesticula nem grita, antes parece concentrada e muda, fixa, sentada numa viga de ferro, com o rosto semi-ocultado pelo pão-pedra. As fotografias dos campos de concentração nazis, que a Embaixada Americana divulgou nas primeiras semanas do pós-guerra, foram a motivação imediata desta figura humana, que aparece entre destroços de guerra." (Rui Mário Gonçalves, 1986)

Outras obras significativas deste período neo-realista são Manifestação Proletária e A Ronda.

Dentro desta corrente estética, Vespeira destacou-se ainda como teórico e doutrinador escrevendo na página Arte do jornal portuense A Tarde. Nesta mesma página publicou uma Carta Aberta aos Pintores Portugueses onde atacava o formalismo e defendia uma "arte útil" à sociedade, ou seja, uma arte de intervenção.

Porém, em 1947, na II Exposição Geral de Artes Plásticas, o pintor apresenta já alguns desvios em relação ao ideário neo-realista, e no ano seguinte opera a ruptura total com esta corrente, aderindo ao surrealismo e recusando-se a participar na III Exposição Geral.

Na fase surrealista colaborou na execução de Cadavre Exquis (1948) e participou na primeira exposição do Grupo Surrealista de Lisboa (1949), "destacando-se como o pintor mais interessante do conjunto. (...) Os quadros que apresentou afirmar-se-iam pela imaginativa desconstrução do corpo feminino e pelo tenso erotismo que deles irradiava."

Na década de 50 passou pelo abstraccionismo geométrico, tendo participado no 1º Salão de Arte Abstracta. Esta experiência terá sido negativa, pois muitas das obras desta fase foram destruídas pelo pintor.

Sucede-se uma fase de "experiências várias que se detiveram na exploração de pequenas "formas-batôn", com as quais o pintor criou um alfabeto gráfico pessoal que pôde finalmente animar em ritmos de excitação musical, inspirados por danças negras vistas em Zavala (Moçambique) e pelo Jazz (...) Esse grafismo assumiu a seguir uma responsabilidade espacial até à criação dum "espaço elástico", numa espécie de pulsação orgânica, entre 1959 e 60. Durante os anos 60, o pintor deteve-se na exploração desta pesquisa e, ao fim deles, mergulhou de novo num universo onírico de formas e imagens em que se recordam propostas surrealistas de cerca de 1950." Desta última fase destaca-se o quadro da Brasileira do Chiado (1971). (José Augusto França, 1973)

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