As Bífidas
As esculturas bífidas de João Cutileiro estão ligadas a dois processos: por um lado, o da descoberta técnica da maior capacidade de expressão da figura bífida (que faz aumentar a profundidade do bloco de pedra e permite explorar a assimetria na simetria do corpo) e a associação da "forma que não fechou" (bífida) à ideia de eu dividido.
Em 1965 o psiquiatra Ronald Laing falou no conceito de "ser dividido", do indivíduo cuja experiência total está dividida em duas rupturas principais: a sua relação com o mundo e a sua relação consigo próprio. Segundo Laing o ser dividido não é capaz de ter uma experiência de si como pessoa completa mas, antes, como dividida de vários modos. Partindo deste conceito, João Cutileiro mostrou-se capaz de esculpir essas partes separadas de um mesmo "eu", deixando transparecer na pedra todas as ambiguidades e tensões decorrentes dessa divisão. Nalgumas das figuras bífidas, as duas metades dançam uma com a outra. Noutras, elas executam gestos ou movem-se em direcções diferentes, num ritmo que é autónomo e, também comum.
Cutileiro é um artista profundamente interessado pelo real e, desse real, privilegia a observação e a captação do corpo humano. Parte normalmente da observação para a reprodução e faz a forma esculpida parecer-se com o real. Para isso, Cutileiro parte da matéria para a forma final, trabalhando essa matéria através do corte subtractivo ou da modelação. No caso das figuras bífidas, sente-se um olhar sobre as formas mais perto do abstracto. A descoberta das formas faz-se por um processo de adição de elementos que vão significar uma figura, mas que independentes uns dos outros não teriam tal significado. Todo um sentido de articulação está implícito, embora a figura seja estática.
O tema "bífidas" tem (ou pode ter) uma relação possível com outro tema abordado por Cutileiro - o das plantas - pois ambas as figuras apresentam uma dimensão de objecto decorativo (apesar de algumas figuras bífidas terem maiores dimensões).
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