Evolução da Obra do Escultor
João Cutileiro contactou com a pedra aos 12 anos, quando foi trabalhar para o atelier de António Duarte. Já em Londres, o escultor abandonou este material por razões económicas: terminada a Slade School , Cutileiro percebeu que não poderia (ainda !) vender uma escultura ao preço que lhe custava fazê-la. Por isso recorreu a materiais mais rápidos e usou o gesso, fazendo formas com as quais fabricava uma espécie de múltiplos: para cada obra o escultor fazia um modelo original, de que tirava um molde que era depois reproduzido em materiais economicamente mais vantajosos (cimento, polyester e fibra de vidro misturada com pó de bronze). Estes múltiplos realizados entre 1960 e 1966, dividem-se em dois grupos estilísticos:
Entre 1960 e 1963, os modelos eram de gesso e as superfícies ásperas e modeladas faziam lembrar o trabalho de Reg Butler, professor de João Cutileiro na Slade School. Exemplo:"O Arcanjo".
A partir de 1963, João Cutileiro foi obrigado a confrontar-se com o problema de como continuar uma linha de trabalho própria, sem se deixar levar pelas soluções impostas pelo academismo. Foram tempos difíceis e onde tudo parecia correr mal. A inspiração para ultrapassar o modelo de Butler veio-lhe do método de empilhar tijolos, observado em locais de construção de habitações. A génese destas figuras construídas a partir de blocos rectangulares, de diferentes tamanhos e dimensões, é um dos exemplos do método experimental de João Cutileiro. Mais tarde o escultor voltou a este método, em "Barão da Taboeira" e num grupo de figuras monumentais de guerreiros, em 1988-89.
Durante os dois anos seguintes, Cutileiro executou os modelos para uma série de figuras, juntando e colando blocos de gesso a objectos encontrados, tais como caixas de ovos. Esta utilização de materiais encontrados, inspirada em Picasso, prova-nos que o conjunto das influências de Cutileiro vai muito além da importante influência de Butler.
Aos 28 anos Cutileiro viu pela primeira vez uma máquina eléctrica de cortar a pedra e, desde que a experimentou, nunca mais parou. A utilização da máquina de cortar pedra representa uma evolução na mentalidade do escultor já que, com este processo mecânico, Cutileiro pôde executar na pedra toda a sua imaginação, gozando de uma liberdade que os escultores tradicionais não conheciam (porque o ritmo de vida não era compatível com o seu método de fazer escultura - com escopro e martelo - daí que não pudessem ser tão criativos).
No período inicial da sua carreira (fase não conformista do seu trabalho), Cutileiro desenvolve uma nítida força provocatória que se manifesta por evidências formais (a transformação dos corpos em soluções articuladas de bonecos e marionetas), por evidências técnicas (a inovação dos materiais, da forma de os trabalhar, a diversidade de escalas sobre as quais trabalha) e, ainda, pela não submissão às visualidades sabidas , autorizadas e tranquilas.
Numa expressão, a obra de Cutileiro caracteriza-se pela continuidade temática e unidade dos processos e pela coerência ao seu labor criativo.
[ CITI ]