A Figura Feminina
No decurso do desenvolvimento psico-afectivo de qualquer ser humano, cada um constrói uma imagem mental do sexo oposto, imagem essa que permanece inconsciente e só se mostra em momentos privilegiados (sonhos, fantasias eróticas, etc.). Nos espíritos criativos existe, provavelmente, um terceiro processo - o meta primário - cujo funcionamento permite que os outros dois processos possam ser usados sem se anularem entre si.
Em João Cutileiro, esse processo meta primário aparece com grande evidência, particularmente na construção das suas imagens de mulher. Estas tomam duas formas fundamentais, no que parece ser a materialização de fragmentos vivenciais de épocas e origens diferentes:
os robustos torsos de mulher - onde se evoca o fascínio que a imagem da mulher arcaica exerce no homem, o jogo de volumes e as formas pujantes de sensualidade. Esta imagem sugestiva, e muito tratada por escultores de outros tempos, provavelmente corresponde à forma como a criança concebe, pressente e imagina o corpo maternal.
As figurinhas de mulher - são uma imagem mais pessoal, original e moderna, fruto de experiências e vivências mais tardias, que o escultor impregna na pedra.
Em "As Lorelei de João Cutileiro" Miguel Esteves Cardoso diz que estas figurinhas de mulher são "esculturas em que a ideia de escala parece ser levada a uma espécie de paradoxo: são figuras minúsculas de mulheres, trabalhadas com enlevos de joalheiro e poisadas em bases de pedra tosca. Tratam-se de esculturas micro-monumentais, que preservam eternamente a sensualidade erótica do corpo feminino, pela virtuosidade da feitura, a sensualidade do mármore e o contraste dos corpos quase vivos com a bruteza da pedra circundante"
(Miguel Esteves Cardoso , in "As Lorelei de João Cutileiro" , pág.1).
[ CITI ]