Flores, Árvores e Pássaros

Se existe um tema, na obra de João Cutileiro em que a necessidade de identificação sexual e o discurso sobre as implicações biológicas está presente, é no tratamento do tema flores e frutos (sexualizados e associados às figuras feminina e masculina).

Neste tema e em "guerreiros" verifica-se o maior surrealismo da obra de Cutileiro. Nos guerreiros, existe toda uma tendência para a anulação da expressão facial e para o uso do símbolo, técnica expressiva característica do surrealismo. No caso de flores e frutos, a técnica mobilizada para o efeito expressivo é a da associação. As formas que existem nas plantas sugerem, por analogia formal e situação em contexto, órgãos sexuais que, no entanto, não o são declaradamente. Todo um sistema de referências perceptivas nos leva visualmente a fazer tais associações, o que confere às plantas algo próximo da poética surrealizante.

Na leitura destas peças toda a simbologia inerente ao fruto deve ser consultada para entender o que Cutileiro poderá querer significar com tais obras. Uma função de reprodução é atribuída às plantas e os frutos são a identificação do autor com órgãos sexuais humanos. Aliás, na obra de Cutileiro, está presente todo um discurso sobre a sexualidade, toda uma necessidade de chocar uma sociedade que continua incapaz de assumir a nudez. Sempre existiu em Cutileiro um apelo a essa situação, uma desocultação da intimidade do corpo, visto de uma perspectiva do interdito e da moral burguesa que o artista pretende chocar.

Tudo o que é obra de Cutileiro tem significados que vão além da encarnação da vitalidade das formas naturais e da capacidade do escultor para aprisionar e rivalizar a energia criativa da natureza. Essa é a sua assinatura, tão pessoal e distintiva.

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