O Homem e o Escultor

Um artista que, como Cutileiro, bebe de muitas influências, tem uma relação com a sociedade necessariamente diferente da dos seus antecessores, que enveredaram por caminhos mais limitados e mais frequentados.

Tradicionalmente, os escultores utilizaram a forma humana, sobretudo como modo de dar realidade ao seu motivo. A escultura dava forma tangível a conceitos e símbolos, comunicava ideias e associações com as quais a sua audiência já se encontrava familiarizada. É o peso da tradição mediterrânica na escultura portuguesa.

O escultor moderno, por seu turno, usa a figura humana de um modo diferente: no seu trabalho procura corresponder, em primeiro lugar, às preocupações pessoais e só depois de completo ele tem de encarar uma reacção pública. É portanto uma escultura muito mais liberta não só em termos temáticos como em termos de significado. É uma escultura que nasce das preocupações, dúvidas e anseios do escultor, que é gerada como que por um processo de "sofrimento" interno e quando sai para o mundo exterior não vem com significados encomendados e previamente definidos; ela abre-se a uma hemorrágica da significação.

É então apropriado perguntar, quais são as preocupações pessoais de João Cutileiro, qual a natureza dessas preocupações e, como é que as esculturas lhes dão resposta?

Antes de mais, o escultor tem uma preocupação que a maior parte dos seres humanos partilha: a ambição de deixar uma marca da sua passagem pela terra, uma marca que tenha um pouco mais do que a sua dimensão física. O escultor, mais do que o pintor, encontra-se numa posição privilegiada para isto, pois ele traz ao mundo seres feitos à sua própria imagem, seres que tal como ele são vistos ocupam espaço e existem. João Cutileiro faz escultura, faz seres feitos à sua imagem, produz fora de si uma realidade tridimensional.

A sua outra grande preocupação, como ser humano, é a sua relação com o mundo, um mundo que ele teme só existir nele, uma realidade que ele receia ser só sua. Mas se filosoficamente João Cutileiro é um céptico, artisticamente é um pragmático: o problema de criar uma realidade tridimensional a partir de uma posição que põe em dúvida (a existência de uma realidade para além do eu), é um problema de difícil resolução mas João Cutileiro aplica-se diariamente na sua resolução. As esculturas de João Cutileiro são uma forma de procura, surgem das suas paixões, aspirações e medos. Nenhuma das obras de Cutileiro existiria se não fosse a sua paixão de as trazer ao mundo e o desejo de realizar fora de si mesmo a sua realidade tridimensional.

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