A Imaginação

Todos nós sonhamos. É a nossa imaginação a trabalhar. Imaginar quer simplesmente dizer criar uma imagem - um quadro - no nosso espírito. A imaginação é uma das facetas mais misteriosas do Homem. Pode ser vista como elo de ligação entre o consciente e o subconsciente. É a argamassa que mantém unidas a personalidade, a inteligência e a espiritualidade. E porque a imaginação é sensível às três, obedece, de modo legítimo (e imprevisível), aos dinamites da psiqué e do espírito. Assim, até as manifestações artísticas mais íntimas podem ser compreendidas a um nível, quanto mais não seja, um nível mais íntimo.

O que leva os Homens a criar obras de arte? Sem dúvida uma das razões será a necessidade premente de se enfeitar e de decorar o mundo à sua volta, necessidade essa que faz parte de um desejo mais vasto: o de dar a si próprio e ao mundo que o cerca uma nova forma, ideal. Mas a arte, carregada que está de significado, é muito mais do que a decoração. A arte permite-nos transmitir a nossa percepção das coisas, percepção que não pode ser transmitida de outro modo (pois a arte tem maior poder descritivo e simbólico).

Na arte, como na linguagem, o Homem é um criador de símbolos através dos quais transmite, de um modo novo, pensamentos complexos. Temos de encarar a arte, não em termos de prosa comum do dia-a dia mas, em termos de poesia, com liberdade de reorganizar a sintaxe e o léxico convencionais, transmitindo novos e múltiplos significados e estados de espírito.

Uma imagem sugere mais do que diz. Tal como no poema, o seu valor reside tanto no que diz como no momento como o diz. Recorre à alegoria, à pose, à expressão facial, para sugerir significados, ou então evoca-os através de elementos como o traço, a cor, a forma, a composição...

Qualquer forma de arte constitui uma relidade auto-suficiente e autónoma, que tem os seus próprios fins e obedece a imperativos próprios, pois o artista está vinculado apenas à sua criatividade e imaginação. Mesmo a ilusão mais convincente é o resultado dessa percepção do artista, logo, há sempre uma razão para ele escolher o tema que escolheu e o tratar desta ou daquela maneira. Essa razão, que todos nós buscamos ao ver uma obra de arte (como que por efeito de um reflexo condicionado da nossa mentalidade racional), nem sempre o artista sabe dizê-la. Se o artista pudesse e soubesse (sempre) dizê- la em palavras, provavelmente seria escritor.

Assim também, se Cutileiro tivesse explicação para todas as suas obras, se soubesse pôr por palavras os meandros da sua imaginação, provavelmente seria filósofo e não, escultor.

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