Influências de João Cutileiro

João Cutileiro descobriu a arte da escultura durante a sua infância, no claustro do museu de Évora, ao ver um relevo grego mostrando os pés e as vestes de uma figura feminina. Essa peça revelou-lhe como as ilusórias pregas franzidas da roupagem podiam ter vida na pedra. A esta visão que ainda hoje o escultor tem na memória juntou-se outro elemento, também central: as formas puras, a luz e a cor da paisagem alentejana, fonte de inspiração para uma espécie de torsos femininos, reclinados e fragmentados, aos quais chama Mãesagens. Mas o Alentejo é importante para a arte de Cutileiro de uma forma ainda mais fundamental: Évora foi o local que escolheu para viver e trabalhar com a concentração de que precisa; o Alentejo é a fonte dos mármores - brancos, rosa, creme, cor de mel, cinzentos, verdes, violetas, pretos - nos quais toma forma a sua interpretação da atitude e pujança da vida.

Muitas das esculturas que João Cutileiro tem feito desde 1966 (data em que utilizou pela primeira vez ferramentas eléctricas e começou a trabalhar em mármore) têm as cores e superfícies claras, luminosas, como coisas trazidas recentemente ao mundo. Elas sugerem-nos que o trabalho do escultor se liga profundamente com crenças imemoriais sobre as origens da escultura e com os mitos da criação das culturas clássicas.

Do ponto de vista das ligações imemoriais entre o fazer escultura e a criação do homem (o escultor, tal como Deus, também cria seres), não é difícil compreender a confusão sentimental entre formas escultóricas e formas humanas vivas que sentimos ao contemplar a arte de Cutileiro. É a mesma confusão que desde a Antiguidade Clássica tem toldado o entendimento da escultura: a ambiguidade poética originada no mito tem sido confundida com o requisito estético da semelhança entre a escultura e a aparência do vivo. A confusão entre a arte e a vida. Exemplo dessa confusão é a imagem da mulher (aquela que predomina em Cutileiro) que perde a humanidade individual para se tornar numa espécie de antiga personificação da natureza : Vénus, dríade ou ninfa do mar. A sua nudez não é sentimental, casta ou ideal mas concreta e carnal. Segundo José Saramago, os nus de Cutileiro «não se despiram para serem mostrados num templo ou num museu moderno: estão nus para o amor» (in "Catálogo da "Exposição Ontológica" de João Cutileiro, pág.25).

A arte de João Cutileiro é a perversão de todo o simbólico e retórico, a queda do transcendental no caricatural. Isto reflecte a visão modernista do escultor, segundo a qual a vida presente na escultura não depende da infusão de poderes mágicos num fetiche, nem da imitação rigorosa dos modelos naturais (aos quais falta vida, como esculturas). A vida da escultura é antes inerente às suas formas, concebidas e executadas pela mão e espírito de um artista sensível, criativo e imaginativo.

João Cutileiro é um artista que alia a experimentação e a criatividade, a influência da tradição e o prazer do Modernismo. Entre os movimentos que mais influenciam o escultor estão o abstraccionismo, o barroco, a escultura indiana e a arte grega, entre outros. Numa palavra, Classicismo e Modernismo. Quanto a escultores de maior influência na sua forma de esculpir, normalmente são apontados Alberti, Rodin, Brancusi, Moore e Picasso. Deve contudo frisar-se que se há influências académicas na obra do escultor, também é verdade que ele respondeu sempre aos impulsos das suas faculdades criativas.

Tal como as esculturas de Moore, as obras de Cutileiro apelam fortemente ao sentido do tacto e exploram as possibilidades da escultura enquanto definida fisicamente pelo espaço e pela luz, em larga medida porque o mármore a partir do qual o escultor forma as suas imagens consegue reter a sua identidade material e física. O trabalho de João Cutileiro é assim totalmente representativo da estética da verdade para com os materiais, que Moore defendia. Ainda à semelhança de Moore, nas suas maquetas para estátuas equestres e torsos fragmentários, João Cutileiro joga com a ambiguidade poética da sua pedra: trabalha-a como se fosse um bloco no seu estado bruto e não a pedra de um escultor. Os contornos e superfícies destas esculturas «não aparentam ter sofrido a acção das máquinas. Parecem antes ter sido fustigadas por tempestades, empurradas de uma encosta abaixo ou batidas pelas vagas de uma praia» (Hellmut Wohl in "Introdução à escultura de Cutileiro", Catálogo da"Exposição Ontológica de João Cutileiro , pág.10).

Se neste aspecto João Cutileiro se mantém firmemente ancorado no contexto do modernismo, ele revela-se também como parte integrante de uma tradição mediterrânica em que o carácter táctil da escultura se impõe. Esse carácter táctil é menos uma questão de tocar com as mãos e mais uma questão de tocar com o olhar. É devido a à lógica de representação inerente a essa tradição que as figuras de Cutileiro não nos sugerem outro significado de figuração, para além daquele que nelas vemos. O elemento crucial das suas esculturas é o sentido da importância do presente, o modo como a graça do ser exprime a qualidade da existência. Trata-se de um apelo para o significado da obra, que nunca pode ser definida, mas apenas vagamente intuída.

João Cutileiro rejeitou as expressões grandiloquentes da escultura que a tradição mediterrânica foi buscar à arte do império romano e em que o regime de Salazar se inspirou para dar corpo à ideia de "Império Português". O escultor procurou as fontes mais profundas da sensibilidade mediterrânica, aquelas que estavam além da escultura oficial, feita e exposta durante o Estado Novo. É aqui que Cutileiro é influenciado pela estética do fragmento e do bloco, herdada de Rodin. Os torsos fragmentários do escultor revelam portanto a colisão entre os valores da tradição clássica (assumidos durante o Estado Novo) e os do presente moderno ; entre a tradição estatuária e a autonomia do fragmento e do sentido.

Os torsos são despersonalizados pela ausência de cabeça, tornados inactivos pela falta de membros, desnaturados por falhas catastróficas, sendo assim apenas parcialmente humanos. As quebras abruptas que definem as extremidades das suas formas relembram a confusão entre corpos humanos vivos e corpos esculpidos: trata-se de formas recuperadas da estatuária antiga e re-imaginadas: não em termos da sua aparência original mas a partir da aparência que tomam quando a atenção se projecta no seu estado mutilado.

Se é verdade que os fragmentos da arte grega habitam a nossa cultura desde há muito, nunca antes do século XX os artistas se moveram especificamente por essas mutilações. É aqui que o Humanismo grego e a perfeição anatómica contrastam de modo mais violento com as condições do presente. O humanismo quebrado, como que por um acaso aleatório, mas apegado à vida, torna-se o símbolo da humanidade: já não uma vida ideal mas uma sobrevivência precária. O tema dos torsos fragmentários, de João Cutileiro, não tem a aparência superficial da arte antiga mas a torção oscilante e sinuosa de um corpo mutilado.

A arte de Cutileiro relaciona-se com a tradição clássica num outro sentido: na ambiguidade entre o artifício e a natureza, entre a forma produzida pelo homem e a forma criada pela natureza. A impressão que se tem perante a maior parte das suas obras, esculpidas a partir de um bloco único e não formadas por adição de elementos separados, é que Cutileiro viu e tirou a escultura de dentro da pedra. Cutileiro encarna por isso a definição de escultor que Alberti deu no século XV: tal como na definição, Cutileiro revela a imagem que vê no bloco de pedra, através da remoção do supérfluo. Esse é o seu método de trabalhar a pedra.

Para além das suas ligações com uma tradição mediterrânica de classicismo e com o modernismo, o trabalho de Cutileiro lembra-nos que a poesia (ou poética) da escultura não depende do sentido, mas da ambiguidade e das tensões que a partir dela emergem: não apenas no que diz respeito aos factores expessivos mas, mais fundamentalmente, no que diz respeito ao próprio domínio da forma.

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