Experimentalismo

A característica mais notória do método escultórico de João Cutileiro é o seu experimentalismo, a sua abertura e isenção de ideias pré-concebidas. Não gosta de planear o que vai fazer porque segundo ele, o desenho da obra passa pela maneira de a fazer e a maneira de a fazer passa por fazê-la no momento João Cutileiro não faz quaisquer estudos preliminares. Quando contacta com a pedra é o escultor, a máquina e a própria pedra que resolvem como trabalhar.

O trabalho de João Cutileiro resulta desta relação especial e simbiótica. Contudo, este elemento criativo e experimental da sua escultura não existe no vazio: a experimentação é, essencialmente, a procura de auto-definição, o elemento prometeico gerador de vida no fazer da escultura através do qual o escultor define, cria e mexe no seu mundo. Em João Cutileiro o experimentalismo forma-se e desenvolve-se através do contacto com muitas forças e influências, como o classicismo greco-romano que imperou na tradição mediterrânea, o modernismo, a arte indiana e africana, etc. Exempols concretos do experimentalismo de Cutileiro são a utilização de mármores coloridos e a origem das figuras bífidas.

No Verão de 1966, João Cutileiro começou a usar os mármores coloridos  Quando as peças para uma exposição sua na Galeria Interior (Lisboa) tinham acabado de ser carregadas num camião, Cutileiro sentiu que faltava alguma coisa . Fez então um torso de mármore branco, com um triângulo de mármore negro como púbis e embutiu mamilos de mármore colorido. Mais tarde passou a usar a "nova técnica" para fazer cabelos e olhos,de forma muito mais realista. Mais uma vez João Cutileiro soube encontrar, através de um método experimental, uma solução natural para um dos problemas postos pelo realismo tridimensional.

Em 1970, querendo fazer uma escultura a partir de duas chapas de mármore João Cutileiro juntou-as primeiro num único segmento e depois separou-as de novo. Compreendeu então que separar a figura em dois não só aumentava a profundidade do bloco como também permitia explorar a assimetria na simetria do corpo. Cutileiro compreendeu ainda que a figura cindida implica todo um campo de significado que estava vedado à figura monolítica: significado no que respeita à harmonia ou dissonância, à interligação ou separação, à relação entre as duas metades.

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