A Sexualidade na Obra de Cutileiro
O tema mais comum nas esculturas de João Cutileiro, tanto o tema literal como o tema metamórfico, é a sexualidade: o seu fluir e energia em todas as dimensões (que circula através das flores e àrvores, figuras e meninas por ele criados). O reconhecimento do papel central que a sexualidade desempenha no trabalho de Cutileiro, é a chave para uma melhor compreensão da sua arte.
A sexualidade da arte de João Cutileiro é franca e totalmente acessível (não implicando qualquer infracção ou proibição). O que ele procura nas suas esculturas é o prazer sensual com que o olhar vê, toca e contempla as suas formas. João Cutileiro duvida que possa haver outra relação com o prazer e com o sexo. A sexualidade é, segundo ele, o elemento mais importante das relações humanas. A obra de arte está recheada de amor e a forma tridimensional do amor é, para o escultor, a forma genital. João Cutileiro chega mesmo a afirmar que a genitalidade é a alavanca motora dos principais comportamentos humanos e que o génio é genital.
A sexualidade na arte de João Cutileiro em nada se relaciona com «um erotismo em transgressão», como a classificou Silvia Chicó numa monografia sobre Cutileiro. A sexualidade da arte de João Cutileiro é, em última instância, uma metáfora para a verdade: não uma verdade abstracta ou filosófica, mas a verdade daquilo que somos, conhecemos e sentimos, como seres humanos. O carácter de verdade é expresso e tornado credível através da nudez. Poucas imagens, a não ser as de Picasso, projectam tanta energia sexual de modo tão inequívoco como a "Generosa -II", de Cutileiro; poucas imagens representam angústia sexual de modo tão total como "Menina a morder o dedo"; poucas imagens retratam tão bem uma sexualidade divertida, em harmonia com a natureza, como "O supremo encanto da merenda".
De entre as figuras criadas por João Cutileiro as mais assexuadas são as suas figuras bífidas. Parafraseando Fernando Pessoa, o escultor diz mesmo que essas figuras revelam uma "autopsicopatia transsexualizada".
Quando é criticado e acusado de que a sua escultura é erótica e provocante, João Cutileiro responde dizendo que «o erótico está nos olhos de quem vê...»
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