Os Torsos
Torso é um tema recorrente na obra de João Cutileiro e no qual uma linguagem de maturidade é afirmada. No reportório escultórico de Cutileiro, é o tema que mais o liga à tradição da escultura; é o tema em que o artista prescinde do seu estilo específico, para se entregar a uma expressão mais classicizante. Porém, na elaboração dos torsos passa-se algo de extraordinário : sendo uma escultura que volta a uma tradição greco-latina é, simultâneamente, momento da obra do escultor onde ele se abre para uma zona de linguagem que não existia em peças anteriores. Nos torsos Cutileiro assume a linguagem da máquina e aproveita a capacidade expressiva do material para desenvolver um dos temas que mais o caracteriza: a figura feminina.
Cutileiro usa a máquina de cortar pedra desde 1965 mas só quando realiza os seus primeiros torsos, é que ele deixa de estar tão preocupado com os processos de acabamento e polimento das marcas deixadas, na pedra, pelos discos dos instrumentos de corte e perfuração. Nos torsos, Cutileiro assume o corte e tira partido expressivo dele. Deixa também àreas intactas do mármore, aproveitando a sua expressão natural e integrando essa forma na totalidade da configuração exigida pela escultura. Este é um traço de uma educação artística bucólica e do contacto com a escultura clássica, cujos traços se impregnam nos olhos de quem a vê e reproduz. Segundo o próprio Cutileiro o torso tem a forma que os clássicos deram aos torsos, assim como uma "Vénus" nunca tem braços e uma "Viitória" nunca tem cabeça - são como regras ou verdades não discutidas pelos escultores e, portanto, universalmente válidas.
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