Cutileiro: A grande viragem na escultura portuguesa
Alguns pintores como Viana, Amadeo, e Almada, conseguiram libertar-se de um academismo provinciano que imperou na arte portuguesa até aos anos 40. Tal libertação não aconteceu com os escultores.
Desde os primeiros anos da ditadura e até aos anos 70, as encomendas oficiais sucederam-se, povoando Portugal de heróis, santos e descobridores, todos obedecendo ao mesmo classicismo estilizado (como, aliás, acontecia em Itália e na Alemanha). Exemplo deste fenómeno, que se deu por abdicação e não por falta de talento, é Francisco Franco, cujas primeiras obras apresentam uma notável qualidade (exemplo :" A Polaca" de 1921) ,para depois fazer sucessivas concessões na sua arte, como é o caso do monumento ao Cristo-Rei.
Este panorama de abdicações, manteve-se até aos anos 70. O rompimento abrupto com a estatuária oficial deu-se com o "D.Sebastião" de João Cutileiro, concebido de forma completamente liberta da iconografia estereótipada. Abriu-se então uma nova era à escultura portuguesa, que só foi possível porque Cutileiro seguiu um rumo sem desvios e sem concessões ao poder: ignorando tanto o poder oficial quanto o da crítica, o escultor prosseguiu na sua maneira de entender a escultura, apesar desse caminho lhe ter trazido a incompreensão do público em geral, face à sua arte.
O "D. Sebastião" de João Cutileiro foi o caso mais polémico da escultura portuguesa e João Cutileiro foi o grande obreiro da viragem que esta arte sofreu, na década de 70. Porque, em Portugal, os monumentos públicos estavam associados a um estilo conservador e derivado do clássico, a criação de um estilo alternativo foi problemática. João Cutileiro abordou o problema de várias maneiras:
Fez monumentos em que a comemoração do passado já não era uma questão considerada (exemplo da figura bífida que se encontra num jardim público de Évora ).
Desde que foi empregue para comemorar imperadores e comandantes do império romano, a estátua equestre tem sido, de todos os monumentos públicos, o mais carregado de simbolismo. Também aqui Cutileiro aplica uma certa irreverência modernista , produzindo esculturas de cavaleiros armados, de reduzidas dimensões, modestas e sob o título de "Maquete de Estátua Equestre". Estas «maquetes» parecem, à primeira vista, modelos preparatórios para monumentos em tamanho natural, porém, esse tamanho natural nunca chega. A «maquete» é, já, a obra final.
Por outro lado, no mundo ocidental, os monumentos equestres oficiais sempre representaram imagens idealizadas e engrandecedoras de personalidades específicas e reconhecíveis. Assim, as maquetes de João Cutileiro vieram assumir o que as estátuas equestres oficiais omitíam : poder anónimo e não orientado, violência e agressão. São, portanto, inversões totais dos monumentos oficiais.
Mas, para além das suas «maquetes» para monumentos não existentes, João Cutileiro tem alguns monumentos executados e expostos ao público em geral.(monumentos que traduzem a negação do escultor aos canônes da estatuária oficial e tradicional). Os mais conhecidos são, talvez, o "D.Sebastião" erguido em Lagos em 1973, aquando da comemoração do quarto centenário da cidade, e o "Luís de Camões" colocado em Cascais em 1983 . O monumento pretende mostrar o poeta tal como ele foi: não um homem de corte mas um boémio arruaceiro, que vivia entre a amargura das suas paixões e turbulência dos seus actos.
É esta a forma, simples e real, de encarar a escultura que Cutileiro defende, mas que nem sempre foi compreendida e bem vinda, num país tradicionalista como é o nosso.
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