Uma entrevista com José de Guimarães...

Numa tarde chuvosa de quinta-feira, José de Guimarães recebeu-nos para uma entrevista no seu local de trabalho. Trata-se de um atelier, situado perto do castelo de S.Jorge, numa zona típica e pitoresca de Lisboa; uma fábrica convertida num espaço artístico intensamente vivido, onde as suas obras tomam conta do local e dos visitantes. A conversa sucedeu-se naturalmente, evidenciando alguém muito habituado a entrevistas.

- Esta sua nova fase, intitulada «Série México» pode ser considerada como uma ruptura ou uma evolução em relação aos seus anteriores trabalhos?

É uma evolução, uma continuação... O meu processo, ou como lhe chamaram o sistema Guimarães, é uma análise tendo sempre em vista o que acontece à minha volta; por outro lado, desde o príncipio tenho vindo a construir uma linguagem através de sinais e códigos, que vai evoluindo ao longo dos anos e isso é bem patente durante o período em que estive em África. E, mais tarde, à medida que as coisas foram, normalmente, acontecendo e eu tive outro tipo de contactos, nomeadamente na Europa com outros autores (como Rubens), fui também construindo uma linguagem própria a partir do que ia captando. Em relação ao México o processo é semelhante: tive, igualmente, um contacto muito profundo com a cultura mexicana, quer com a arte, quer com a arqueologia e a história e apropriei-me de uma série de sinais que introduzi na minha própria linguagem. Portanto, o processo continua, com novos elementos.

- Mas em relação à cor, ela continua a ser fundamental e uma constante em toda a sua obra. Já o foi na fase Rubens...

Sim, a cor continua a ser importante, embora nestes trabalhos da «Série México» tenha introduzido prateados e dourados, que já utilizava nas esculturas, mas não na pintura.

- Por falar na escultura e nas suas influências, a História de Portugal foi também uma forte fonte de inspiração, tanto na escultura como na pintura. Estou a pensar nas influências de «Os Lusíadas», de Camões e de D. Sebastião, por exemplo.

Fiz inicialmente uma série chamada «As Variações Camonianas», que foi retirada de «Os Lusíadas». Foi um debruçar pela narrativa épica camoniana, mas além disso tenho feito um trabalho sobre as figuras mais carismáticas da História portuguesa, com é o caso de D. Sebastião, D. Pedro, D. Inês de Castro, D. João II. E reuni estas personagens numa exposição que fiz em Sintra intitulada «Por Mares Nunca Antes Navegados».

- São essas esculturas que vários críticos de Arte consideram híbridas entre a pintura e a escultura, por lhes ser retirada a terceira dimensão e esta ser a espessura do cartão e poder ser colocada nos espaços.

Basicamente são um objecto de transição entre a pintura e a escultura, porque não têm o volume da escultura e porque não uso os materiais tradicionais da escultura, como o ferro ou bronze. Produzo alguns, mas muito poucos. Só quando são para esculturas de exterior e portanto preciso de um material resistente. Mas voltando às características específicas das minhas esculturas a que Gillo Dorfles chama morfemas, decomponho-as em bocados, até à expressão mais simples sendo por isso mesmo um elemento de transição entre a pintura e a escultura. Primeiro apareceu a pintura, a escultura só veio mais tarde. As esculturas em papel vieram mais tarde quando comecei a produzir manualmente o papel e então esse suporte era para mim já conhecido.

- O que é que gosta mais de criar? Quadros ou esculturas?

É indiferente, depende, tenho fases. Neste momento estou a pintar mais, mas não quer dizer que, de um momento para o outro, não retome a escultura.

- E no que diz respeito às outras actividades que mantém paralelamente, como relógios, cartazes…

Não são, nem de perto nem de longe, a minha actividade principal. São actividades secundárias que faço só em ocasiões muito especiais, porque, ao fazê-las, interrompo o meu processo criativo.

- Então o que é que fez da proposta do I.C.E.P. uma dessas ocasiões especiais? Encarou-a como um desafio, como uma oportunidade de projecção...

Quando o I.C.E.P. me fez a proposta de criar um símbolo que tivesse uma dimensão nacional e que passaria a representar Portugal a nível internacional, é lógico que a mim, pessoalmente, interessava-me. Aliás, o facto de eles me terem escolhido é já em si uma distinção rara a nível profissional. Por outro lado, esse trabalho iria de certa forma ser o espelho de Portugal. E portanto, quando decidi fazer este trabalho não tinha quaisquer pressupostos, de tal maneira, que pus duas condições: por um lado, que necessitaria de um ano para fazer o trabalho e por outro que seria uma obra com a minha assinatura, ou seja iria ser um símbolo com a minha marca.

- Acha que é mais conhecido nacional ou internacionalmente?

Na realidade, tenho divulgado mais a minha obra lá fora do que aqui em Portugal. Nunca quis que o meu trabalho morresse nas paredes das casas dos portugueses. Como não há grande tradição cultural nem artística no nosso país, logo também não há tradição de pintura. Por isso, uma obra apenas conhecida em Portugal é menos visível do que se fosse conhecida internacionalmente. Portanto, sempre desejei que a minha obra fosse conhecida no estrangeiro. Aliás, é facilmente perceptível que os meus trabalhos não têm nada a ver com os fenómenos folclóricos portugueses. Têm uma linguagem que tanto é perceptível em Portugal como em outro país qualquer. Não vive o aperto de um provincianismo português.

- Mas não sente que, ultimamente, os nossos órgãos de poder despertaram para a sua pintura? Faço-lhe esta pergunta a pensar no convite do Metropolitano de Lisboa para decorar a estação que se está a projectar a seguir à de Colegio Militar.

Vim agora do México, onde inaugurei os murais de um Metropolitano local e a minha obra ficou exposta como a de um artista internacional. Para o ano vou expor no Museu de Arte Moderna desse país. Ou seja, à medida que a minha obra vai sendo conhecida internacionalmente vou tendo também uma maior projecção nacional. Em Portugal, há uma barreira difícil de transpor que é a do provincianismo, ou então a barreira daqueles que, à partida, pretendem anular os que se vão evidenciando. É um jogo de intrigas e ciúmes que obrigam o artista a sair e expor lá fora. Ao menos assim é difícil voltar a estrangular o leque de opções que se abrem quando se inicia uma carreira internacional.

- Li no «Jornal de Letras» que achava que se as pessoas se habituassem a ver coisas bonitas isso iria ser reflectido numa educação do gosto e, efectivamente, os murais com que irá decorar o Metropolitano poderão ser uma boa forma de experimentar essa tese na prática...

Sim, e não só nas artes plásticas. Em Itália ou na França, desde pequenos as pessoas se habituam a ver obras dos grandes mestres, sendo normal para elas esse contacto com a cultura desde muito cedo. Esteticamente, isso irá ter consequências, mais tarde.

- O gosto pelo seu trabalho é algo que se renova ou é já uma obsessão?

O facto de ter uma disciplina de trabalho e estar quase sempre no atelier não significa que esteja sempre a produzir novas coisas. Vou produzindo pequenas coisas e preparando novas obras, muitas vezes em busca de inspiração, porque há alturas em que, pura e simplesmente, não consigo produzir nada. Não estou inspirado, nem com criatividade, mas são dias que não posso perder e, portanto, há outro género de trabalhos que posso fazer. Uma pessoa tem que estar tecnicamente preparada e apetrechada para que, quando surja essa inspiração, se possa dar vazão a esses momentos mais profícuos. Logo, a disciplina é extremamente importante num trabalho como este. Quanto mais se trabalha, mais se aperfeiçoa e mais se melhora o produto final, principalmente a sua vertente técnica. Nas artes plásticas, há uma parte reservada ao espírito e à imaginação, mas há outra muito importante que se prende com a tecnicidade dos materiais e das novas formas de criar. Esse lado prático só com muita experiência é que se consegue aperfeiçoar. Nas artes visuais, o estilo é muito importante, porque a cópia, ou a imitação, é mais facilmente detectada num quadro do que num livro. Por isso, aqueles que não têm uma personalidade vincada na sua obra são facilmente detectáveis.

- E em relação ao futuro?

Vou trabalhando nos meus projectos, vou evoluindo e desenvolvendo o meu trabalho, o que aliás responde à primeira pergunta feita.

- Para terminar, gostaria de saber a sua opinião sobre a Internet.

Em primeiro lugar, digo-lhe que estou muito pouco informado sobre esse fenómeno. Tanto quanto sei, a Internet é um processo de informação de fácil alcance, desde que se disponha de um computador. No fundo, é como dispor um arquivo à mão sem ter que se sair de casa.

- Mas o que é que acha que serão as consequências disso no futuro? Alinha no cepticismo daqueles que temem que a Internet fará com que as pessoas quase não saiam de casa?

Acho que não. Eu, por exemplo, tenho um computador no qual nunca mexi, pois não estou interessado. Continuo a trabalhar pelas vias imediatas. Sei que há artistas que usam o computador para trabalhar, mas tenho sistemas adaptados ao meu processo que me permitam resolver rapidamente as coisas. Ainda não pensei a sério na questão dos computadores. Contudo, acho que para quem se dedica à investigação, a Internet tem coisas fantásticas. Acho bem que em cada época haja meios diferentes, mas até agora não senti a falta do computador.

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