Pintura

Foi através do estudo de outros pintores, que José de Guimarães aperfeiçoou a sua pintura, o seu estilo e criou o seu próprio código imagético. A sua inspiração na pintura de outros autores tão diversos como Klee e Kandinsky, Picasso e Miró surgem-nos como uma viagem iniciática pela cor, pelo movimento e, acima de tudo, pela revolta, pela espontaneidade e pela pujante criatividade que ressalta dos seus quadros.

No seu vasto percurso de aprendizagem é de vital importância referir as suas viagens pelas principais capitais europeias que se revelaram formadoras. O contacto com diversas obras de mestres contemporâneos e com diversas escolas depressa é assimilado por Guimarães, confluindo para a sua construção criativa e incitando-a a beber nos grandes mestres todos os ensinamentos.

Essencial será também referir a importância e o fascínio que sobre ele exercem a cultura e a arte africana. Assim, na sua génese o trabalho de José de Guimarães poderá ser considerado, fundamentalmente, como uma síntese da arte europeia com a etnografia africana. Citando Marcel Van Jole, o artista procura «transmitir- nos as sensações de um europeu ocupado em transpor o fosso que o separa do mundo sócio-estético do negro africano» («José de Guimarães» , Colectânea de Autores, Ed. Arte & Biblio Press, Antuérpia, 1979, pp.17-19). Deste universo africano reteve também José de Guimarães a simbologia aficana. Ainda segundo Van Jole, «deste sistema de sinais e símbolos apenas retém um número restrito de elementos, todavia, o bastante para nos introduzir, com uma linguagem pictural e semântica que é própria da tradução…». Sobre este "alfabeto" disse José de Guimarães: «Diga-se antes que sou um pintor europeu tomado por África. A gramática que hoje utilizo, embora na minha linguagem europeia, tem um acentuado rasto africano. Acima de tudo descobri com eles, que a arte é uma linguagem simbólica. Hoje os meus quadros integram determinados símbolos que não tinham».

Continuando a privilegiar o corpo humano, como núcleo central da sua obra, e «apenas vendo nos modelos do mestre os pedaços ligados da sua própria pintura de braços, peitos, nádegas, sexos e algumas cabeças e mãos» (Op. cit. p.57), e parafraseando José Augusto-França, José de Guimarães junta-lhe a simbologia inspirada na cultura africana. Citando Anny Milavanoff, «para lá das distinções formalistas e das atribuições de escola - influência da Pop Art, da Nova Figuração, do Neo Expressionismo -, a obra habitada, evolutiva, que procurou descobrir-se entre a África e a Europa, encontrou as suas linhas de força, os seus registos, o seu "alfabeto" de maneira autónoma. Nela o corpo é o próprio teatro, espaço de uma luta intrínseca, olho contra olho, braço contra braço, perfil contra perfil. O que ele revela de tensão, energia, erotismo, faz pois de cada figura um mensageiro.» («José de Guimarães«, Galeria Quadrado Azul, Catálogo de Exposição, 1994, p.7).

Desde muito cedo, o pintor se sentiu impressionado por Rubens, e após variadas visitas a museus onde o pintor se encontra representado, especialmente em Antuérpia, surge o que o crítico Marcel Van Jole exprime: «tão forte é a impressão colhida das obras rubensianas das grandes salas solenes que, anos a fio, absorvê-la-á no seu subconsciente para flamejar em 1977 num fogo de artifício depois de uma fervorosa e respeitosa peregrinação...»(Op. cit. p.17).

Algumas das exposições de José de Guimarães são subordinadas a uma temática exclusiva como, por exemplo, a de «Rubens e José de Guimarães» em 1978, o «Circo», o «Desporto», entre muitas outras.

Se o mundo etnográfico africano muito contribuiu para a obra de Guimarães, a literatura portuguesa, nomeadamente, «Os Lusíadas», foi também uma fértil fonte de inspiração. Neste ambiente enquadram-se, entre outras, o guache «Camões e D. Sebastião» de 1980, o «Naufrágio de Camões»,1980, «Camões», 1981 ou as esculturas em papel pintado «D. Sebastião»,1985, «Camões»,1985, «Rei D. Pedro, 1985 e «Inês de Castro», 1980.

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