Acções-espectáculos

Com a ida para Londres, João Vieira descobre novas formas de apresentar a Arte, representando-a, corporalizando abstracções. O neo-Dadaismo de John Cage e Pollock tinha aberto esta via, concretizada no movimento Happening. Brecht ganha actualidade. Andy Warhol faz do seu atelier um estúdio de cinema, um Palco onde se representam peças de teatro, local de uma contínua performance.

Com o início do seu trabalho e pesquisa em cenografia, João Vieira integra não só estes elementos mas também toda a sua vivência artística enquanto Pintor. Surge na Galeria Judite Dacruz a primeira acção-espectáculo, O Espírito da Letra (que lhe vale uma menção honrosa no Prémio SOQUIL 70), onde as letras se tornam vestidos feitos de espuma de poliuretano e o Artista figura hierática que no final destrói todas as obras expostas, como protesto contra o a criticismo que levava os compradores a adquirirem todas as obras que lhes propunha, sinal de uma prosperidade económica que fazia os valores culturais esbaterem-se face a um novo-riquismo crescente.

Continua com Expansões, com a participação de modelos profissionais, em que os visitantes são obrigados a participar nos objectos expostos. Oito anos depois haverá uma reprise desta acção-espectáculo, com a participação do grupo de teatro A Barraca e dos músicos Maria João Serrão e Oliveira e Silva sobre os mesmos alfabetos de espuma de poliuretano flexível, procurando os intervenientes as letras para formar a palavra Revolução.

A Expansões segue Incorpóreo I, em que a Mulher, até aqui presente em todas as outras acções-espectáculo como suporte físico das peças expostas se individualiza e passa a tema central da intervenção, prolongando em Incorpóreo II, seis anos depois, esta busca sobre e à volta do corpo, em que Eros e o Pathos se encontram.

Entretanto, em Pele Integral eram as mãos do Artista que apareciam moldadas em poliuretano "integral skin" , devolvidas ao Artista depois de trabalhadas pelo público, mãos multiplicadas em múltiplas clonagens, reproduzindo as executoras da materialização da Arte e transformando-as também em objectos artísticos, elas próprias questionando o papel do objecto-arte enquanto meio ou fim.

Em Mamografias, elegia à Mater, Artémis Efésia ou Diana caçadora, Deusa da Fertilidade com os seus múltiplos seios. Em todas as acções-espectáculo a exploração dos novos materiais e das possibilidades por eles oferecidas coexistem com a intemporalidade da figura feminina elevada a décor e altar, envolvendo os corpos em letras ou sarcófagos ou expondo os símbolos da maternidade, princípio e fim, sarcófago-útero-leito-de-morte, Aleph-Tau repositório do Mistério da Vida e da Criação, janela sobre o Futuro.

Os Caretos surge como um retorno às origens, feita após algum tempo de pesquisa etnográfica em Trás-os-Montes, em que as máscaras-letras metamorfoseiam as letras em figuras, consubstanciam a sua elevação a uma dignidade individual, reatribuem-lhes o valor mágico perdido pela escrita utilitária do nosso tempo.

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