A escrita

Um dia, em 1956, a visão de uma mulher a uma janela, os braços cruzados. Na tela, os braços cruzados passam a "X", a lua torna-se o "O", o "I" aparece como talvez uma referência a Munch ou como a primeira manifestação de pesquisa do alfabeto. O "U" talvez a arcada invertida da janela, o "M" como necessidade gráfica. A escrita surge como catalizador e suporte.

As referências apontam para a infância, condicionada pela exigência dos pais professores primários, pelo rigor da escrita caligráfica em que sempre se revelou bom, pela preocupação extrema para com a língua portuguesa. Mantém-se como elemento constante na sua obra as linhas horizontais, que remetem para a escrita nos cadernos escolares, a organização clara, o bem feito, a perspicácia na cor, a subtileza da forma, coordenadas básicas do seu ofício de pintor e estruturantes nos seus quadros.

O alfabeto é antropomórfico, oferece oportunidades insuspeitas de novas figurações em que a presença humana, ainda que constante, nem sempre é evidente. A Escrita surge como uma das três traves mestras da sua vida literária e simbólica (sendo as outras duas a Mulher e o Rigor), prolongada na (con)vivência com escritores, mais próximo deles que dos outros artistas plásticos.

Progressivamente os ideogramas, já letras do alfabeto, articulam-se em frase, síntese visual da energia humana que as cria. A sua primeira acção-espectáculo, na Galeria Judite Dacruz, em Lisboa, chama-se não por acaso, O Espírito da Letra. A Escrita manter-se-á como uma constante nas suas exposições, com Anagramas (1972 - Galeria Judite Dacruz), Alfabetos (1981 - Galeria Quadrum), As Imagens da Escrita (1988 - Museu Nacional de Arte Antiga), Escritas (1991 - Galeria Neupergama ), Silêncio Chinês, em que utiliza caracteres chineses (1994 - Galeria dos Escudeiros), Ideogramas (1994 - Galeria Trema).

Em 1996, a exposição-multimédia Um Almirante Em Vez de Coração, na Casa-Museu Fernando Pessoa, é constituída por uma instalação com uma máquina de emaranhar palavras, da qual vão saindo textos dos vários heterónimos de Pessoa, escolhidas pelo utilizador-visitante. A importância da Escrita na obra de João Vieira poderá ainda ser interpretada à luz da Cabala, em que a simbologia das letras ganha um novo significado como repositório do Mistério da Vida e da Criação. Aqui, toda a obra do Artista fica sintetizada na Palavra, na busca do conjunto de ideogramas do Alfabeto-Aleph-Tau que lhe abram a Porta e expliquem por fim o Sentido da Vida.

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