Pintura

Em 1956 surge a descoberta da pintura do imaginário interior. O neo-realismo que a precedera, influenciado por artistas que integravam esta corrente, como Júlio Pomar, Lima de Freitas e Rogério Ribeiro, esgotara-se já no processo de descoberta da pintura, na descoberta do modelo vivo, com o estudo académico das Belas -Artes perspectivado nas cenas rurais ou de pesca, apoiados em alguns truques facilmente assimilados e na grande facilidade com que dominava as técnicas do desenho e da pintura.

Dois anos antes, João Vieira havia deixado de pintar. Contudo, é em 1956 que a visão de uma mulher a uma janela, de braços cruzados, origina o nascimento de três quadros, fruto de uma emoção que substitui a visão directa da realidade. Altera-se a matriz. A Escrita surge como catalizador e suporte. A ida ao Museu do Prado, em Madrid, abre horizontes mais vastos que os do Museu de Arte Antiga e prepara já a ida para Paris, em 1957. O choque da descoberta da Modernidade, nos painéis da Gare Marítima de Alcântara, de Almada Negreiros, é decisivo. Entretanto partilha o atelier por cima do Café Gelo com René Bertholo e José Escada, integrando uma tertúlia que toma o nome de Grupo do Gelo com os Poetas Herberto Helder, Helder Macedo, Manuel de Castro e Mário de Cesariny de Vasconcelos.

Estão definidas as três traves mestras da sua pintura e da sua vida: a Escrita, literária e simbólica, prolongada na (con)vivência com escritores, mais próximo deles que dos outros artistas plásticos; a Mulher, fascínio de infância, procura constante do mistério que encerra; o Rigor que impõe que tudo seja bem feito. A partir daí não passa um dia sem que pelo menos um destes elementos não esteja presente, em que não se interpenetrem ou completem.

Sucede a primeira exposição na Colectiva Artistas de Hoje, na Sociedade Nacional de Belas Artes e parte para Paris, onde a sua sede de espaço se sacia nas Galerias onde o Existencialismo omnipresente alonga as palavras em linhas e horizontes sucessivos. Estuda na Académie de La Grande Chaumière e conhece Vieira da Silva e, influência marcante, Arpad Szenes, outro pintor com alma de poeta de um outro país de poetas, a Hungria.

Em 1959/60 funda o Grupo KWY, juntamente com Lourdes de Castro, René Bertholo, José Escada, Gonçalo Duarte, Costa Pinheiro, Jan Voss e Christo. Convive com Saura, Feito, Millares, elementos do grupo espanhol El Paso e faz a primeira exposição individual na Galeria Diário de Notícias, que marca o atingir da sua maturidade artística.

Descobre Dubuffet e a procura de novas texturas, a matéria autonomiza-se e permite outras aventuras. A cor e a forma tratadas por Esteve influenciam-no ao ganharem em clareza. E, mais que por qualquer outro, é marcado por Yves Klein. Dos novos caminhos que a Arte percorre elimina a cor e tudo se resume ao branco, cinzento e negro, trabalhados à espátula. As cores, a surgirem, são as do Barroco, com todas as matizes do castanho, os verdes, cores profundas, interiorizadas. Os ideogramas, já letras do alfabeto, articulam-se em frases, síntese visual da energia humana que as cria.

Em 1965 parte para Londres onde encontra Mário de Cesariny de Vasconcelos, Alberto de Lacerda, Bartolomeu Cid, Paula Rego, Menez, João Cutileiro, Helder Macedo. Descobre a cultura Pop, abrangente e democrática como nenhuma outra até então. De Duchamp apreende a problematização da noção de pintura e o alargamento potencialmente infinito do seu horizonte formal a limites que não se afiguram ultrapassáveis.

Em 1984, após algum tempo de pesquisa etnográfica em Trás-os-Montes, surge a exposição-performance Caretos (Galeria Quadrum). Retorno às origens, estas máscaras-letras metamorfoseiam as letras em figuras, consubstanciam a sua elevação a uma dignidade individual, reatribui-lhe o valor mágico perdido pela escrita utilitária do nosso tempo. Seguem-se as Metamorfoses, prolongamento dos Caretos, transfiguração em metamorfoses-amorosas.

O reencontro com a pintura portuguesa, dá-se através dos painéis de S.Vicente e de Francisco de Hollanda, que desconstrói para melhor os criar à sua maneira, revelando as figuras como letras do seu próprio alfabeto pictórico. Neste seu regresso às letras tem já lugar a caligrafia oriental, colocando-o na fronteira do gesto inerente às escritas orientais, que contêm em si as representações residuais daquilo mesmo de que já não são metáfora, mas designação.

Volta aos pais da pintura portuguesa, desta feita com Grão-Vasco e vêm ao seu encontro os cadeirais da Sé de Viseu, povoados de monstros assombrantes de um imaginário que surge do século XV a exigir a fuga ao esquecimento, unindo-se num presente intemporal a Jorge Luis Borges e a Julio Cortazar num Bestiário em que seres cujo significado ignoramos apontam para um mais vasto significado do Universo.

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