O Estilo de Oliveira

Oliveira é um caso raro no cinema. É simultaneamente detestado e adorado. Não é fácil aceder ao seu trabalho, daí que a sua obra seja mais «reconhecida do que conhecida», como referiu Eduardo Prado Coelho no seu livro - "VINTE ANOS DE CINEMA PORTUGUÊS (1962-1982)". Não é fácil porque Oliveira estabelece uma relação complementar entre o cinema e o teatro, como se pode deduzir destas suas palavras - «Quando eu digo que o cinema não existe, que o que existe é o teatro e que o cinema é um processo de fixação audiovisual do teatro, é porque é aí que ele é rico, que é verdadeiramente distinto do teatro, que é rápido, que é efémero. Se eu digo que o cinema não existe, é da mesma maneira que podia dizer que a vida não existe, que o que existe de facto é o teatro. Porque a vida escapa-se-nos a todo o instante, o momento de agora é já perdido, e portanto o que nos resta da vida é o teatro».

Mas dizer que o cinema passa pelo teatro não chega, porque, mesmo no plano do teatro, se torna necessário afirmar que a naturalidade só se atinge através da representação, da ficcionalização dos factos, se é que o teatro representa factos. Os argumentos de Manoel de Oliveira são na sua grande maioria feitos a partir de textos literários, que já por si são a subversão do real, tornando-se assim ainda mais subvertidos a partir do momento que a linguagem cinematográfica os representa. Com isto, Oliveira cria intrigas entre personagens que não existem, estão para além do real, mas apresentam-se ao espectador num cenário verosímil, o que lhe causa perturbação e inconstante inconformismo com aquilo que os seus olhos vêem. Há uma espécie de violência nas palavras dos seus actores, nas suas atitudes que chocam com a verosimilhança dos cenários, com os ordenamentos gerais dos filmes. Há no cinema de Oliveira uma dualidade: real versus ficcional que se chocam permanentemente sem que o espectador se saiba onde colocar, se do lado real ou ficcional. Tudo isto é conseguido através de vários planos de filmagens, como através da organização dos diálogos entre actores, as cenas e os espectadores, que estão do lado de fora, confusos. Quer isto dizer que o cinema é um teatro sobre o teatro.

No que se refere às filmagens, Oliveira preocupa-se imenso com os enquadramentos, com as cores, os objectos, havendo em cada plano uma harmonia ou uma desarmonia de acordo com aquilo que o realizador quer transmitir, porque o seu cinema também comunica através das imagens, as quais nunca vêem dissociadas dos diálogos, da acção. Digamos que Oliveira as utiliza como complemento, ou como mais um dos suportes para transmitir a sua mensagem. Daí que sejam movimentos lentos de câmara, de actores, porque o enredo dos seus filmes já possui um peso específico. São característicos os longos planos sequência, não entendidos pelos espectadores, que o punem, porque não estão preparados para se envolverem, ou não se deixam envolver numa teia de relações que só faz sentido no seu todo. Para gostar de Oliveira é preciso primeiro que tudo penetrar nos diálogos, na história, para então aceder às imagens, o que muitas vezes é dado de forma imediata ao espectador através de outros filmes, que não os de Manoel de Oliveira.

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