Monarquia

A entrada de Afonso Costa na política constituiu desde logo uma frente de protesto organizada contra a Monarquia. A partir daí o Partido Republicano viria a ganhar uma outra acutilância e tenacidade. Os seus dotes argumentativos viriam a fortalecer o bloco republicano e a desgastar o aparelho monárquico. Em Afonso Costa ardia uma forte paixão republicana que ficou bem patente nas suas intervenções parlamentares. A sua actividade política teve como ponto de partida o ano de 1899, decorrente de uma conjuntura sócio-política. Em Agosto uma peste bubónica afectou o Porto e politicamente existia um descontentamento em relação ao governo de José Luciano.


Afonso Costa e Paulo Falcão deputados Republicanos pelo Porto, 1899

O Partido Republicano conseguiu eleger, nas eleições de deputados de 24 de Setembro, os doutores Afonso Costa e Pedro Falcão e o engenheiro Francisco Xavier Esteves. Afonso Costa desde estudante tinha aderido aos ideais republicanos, devendo-se em parte ao seu trabalho o crescimento das bases de apoio do Partido Republicano.

A eleição pelo círculo do Porto foi o início da sua projecção como grande político republicano. De facto, o seu discurso na sessão inaugural do Parlamento que impressionou os ouvintes pela sua qualidade e rigor, sugeria a substituição da Monarquia pela República: "substituir sem demora as actuais instituições políticas por outras diversas, de feição republicana, graças às quais o governo da nação pertence à própria nação e não a uma família, casta, grupo ou classe privilegiada e seus aderentes". Afonso Costa não poderia ter entrado de melhor forma na cena política. Foi a partir do Verão de 1907 que o protagonismo de Afonso Costa e do Partido Republicano começaram a ganhar contornos que faziam prever a queda da monarquia.

Nesse Verão, já com João Franco no poder, os republicanos realizaram um grande comício no Porto onde Afonso Costa, António José de Almeida, Eduardo de Abreu e António Luís Gomes se destacaram. Este comício confirmou a popularidade dos republicanos que contaram com uma adesão em massa da gente portuense. Apesar de todos os esforços de João Franco, os republicanos conseguiram nas eleições de 19 de Agosto desse ano eleger quatro deputados, um dos quais Afonso Costa. Não demorou muito para que as fricções entre estes oponentes aumentassem...

Na sessão de 20 de Novembro os republicanos associados aos dissidentes progressistas trouxeram ao Parlamento a questão dos adiantamentos do Estado à Casa Real. Afonso Costa apresentou o caso como um crime de peculato que devia ser punido segundo o Código Penal, chegando mesmo a afirmar: "Por menos do que fez o Sr. D. Carlos rolou no cadafalso a cabeça de Luís XVI". No meio da confusão geral e mesmo com a tentativa de corte do uso de palavra por parte do presidente da Assembleia, Afonso Costa prosseguiu e só terminou o seu discurso quando os soldados da Guarda o arrastaram para o exterior do edifício. Os deputados que discursaram a seguir (António José de Almeida e Alexandre Braga) continuaram no mesmo tom tendo chegado o primeiro a apelar aos militares para proclamarem a República naquele momento. Este acontecimento fez alastrar a agitação por todo o país, aumentar o prestígio dos republicanos que aproveitaram esta aderência popular para realizarem comícios por todo o país. A irreverência de Afonso Costa mais uma vez ficara provada.

A sua coragem e determinação que já o tinham levado a bater-se várias vezes em duelo pelos seus ideais, custou-lhe a suspensão do seu cargo por um período de trinta dias, acusado de proferir ofensas ao rei. Durante este hiato parlamentar, circulou uma homenagem subscrita por 44 mil assinaturas, que lhe foi entregue no dia em que regressou às cortes. O episódio do adiantamento de fundos à casa real associado à greve estudantil de Coimbra que se deu nesse ano foram decisivos para que o rei D. Carlos desse a João Franco um poder ditatorial que suscitou a oposição de todas as forças políticas. A agitação política não parava e deram-se violentas manifestações à chegada de Franco a Lisboa que culminaram com a morte de um estudante liceal. O governo responsabilizou uma grande quantidade de políticos republicanos por este motim, entre os quais Afonso Costa. A 28 de Janeiro de 1908 deu-se outro motim na capital que tinha como objectivo destituir a monarquia e proclamar a república.

Colocaram-se bombas em várias esquadras da polícia. Contudo, vários informadores tinham-se infiltrado e estavam ao corrente da organização da operação. Este facto levou a que várias figuras notáveis do Partido Republicano tivessem sido presas entre as quais se incluem Afonso Costa, Egas Moniz, João Pinto dos Santos e o visconde da Ribeira Brava. No dia 1 de Janeiro de 1908 o regime monárquico levou uma estocada decisiva que na opinião de muitos historiadores precipitou a sua queda: o regicídio. Muitos historiadores falam da eventual influência de Afonso Costa neste acontecimento. O regicídio não foi executado pelo Partido Republicano, mas sim pela Carbonária, organização secreta que englobava anarquistas e revolucionários, responsáveis em grande parte pela violência política em que se vivia.

José Alpoim, Egas Moniz, João Pinto dos Santos, António Centeno e os viscondes de Pedralva e Ameal ficaram ligados directa ou indirectamente a este crime. Afonso Costa mantinha relações com estas personalidades e com a Carbonária que viria a manter mesmo depois de proclamada a República, o que lhe viria a dar o domínio da "rua". Não existem provas realmente indiscutíveis que comprovem a participação de Afonso Costa nesse acontecimento. Pouco antes de se iniciar o 5 de Outubro ele afirmou aos seus colegas do Partido que tinha estado por detrás do regicídio. Porém até hoje não se sabe se o que disse era realmente verdade ou se teria sido "bluff".

Após o período de estupefacção geral que se seguiu ao regicídio os republicanos voltaram às críticas, desta vez ao novo governo chefiado pelo almirante Ferreira do Amaral. A popularidade do PRP não parava de crescer o que foi bem visível nas eleições de 5 de Abril de 1909 na qual elegeram 7 deputados entre os quais Afonso Costa. No dia 25 de Abril de 1909 realizou-se em Setúbal um congresso do Partido Republicano. Contra a facção de Afonso Costa, António José de Almeida e João Chagas emergiu uma outra facção encabeçada por Bernardino Machado que no entanto continuou em inferioridade. Curiosamente após a implantação da República este último juntar-se-ia a Afonso Costa enquanto os outros dois tornar-se-ião opositores ferrenhos de Costa ... Já em 1910 veio ao Parlamento a questão do monopólio do fabrico do açúcar e álcool na Madeira concedido em 1895 ao inglês Harry Hinton. O governo de Hintze tinha entretanto revogado a concessão desse monopólio a Harry Hinton que com a ajuda e a pressão do governo inglês reclamara uma indeminização.

Para esclarecer esta questão Afonso Costa pediu explicações a Veiga Beirão que se recusou a dá-las argumentando que era um assunto interno do gabinete. Acusado de proferir ofensas pessoais, Afonso Costa foi desafiado para um duelo pelo deputado progressista Alexandre de Albuquerque do qual saiu ligeiramente ferido. O governo monárquico estava longe de conseguir vencer as profundas crises que o iam corroendo. No Verão de 1910 os republicanos obtiveram uma vitória retumbante nas eleições o que mostrou bem a implantação que o ideal republicano já tinha na população. Aliado à divisão que se registava nas hostes monárquicas, não foi preciso esperar muito para que se desse a revolução e com esta o fim das instituições monárquicas...

[ CITI ]