O Sebastianismo em Os Lusíadas, de Luís de Camões

Os Lusíadas constituem uma das obras mais importantes escrita em língua portuguesa. Camões serviu-se dos clássicos, recuou à Antiguidade, cantou às Musas, evocou deuses e outras figuras mitológicas, dando uma dimensão universal e intemporal ao desejo superior de perscrutar o desconhecido.

Ao escrever Os Lusíadas, o poeta teve como objectivo imortalizar os feitos gloriosos dos marinheiros que, transcendendo-se à sua condição de bichos da terra, vão causar inveja a Baco e cair nas graças de Vénus. Tais obras valorosas só se tornaram tangíveis com um espírito incessante pelo novo, pela ambição e pela conquista. É certo que também pela cobiça, como aponta o Velho do Restelo. De qualquer das formas, toda a obra louva a coragem dos conquistadores portugueses.

Todavia, Luís de Camões não se cinge a elogiar o desassombro dos marinheiros portugueses. O poeta, assumindo uma posição de humanista, criticou várias características do Portugal da segunda metade do século XVI, que já denotava sinais de degradação moral e de costumes, como que antevendo a queda do Império que estava para vir. Tal acusação está presente no canto X, estância 145: «O sabor com que mais se acende o engenho / Não no dá a Pátria, não, que está metida / No gosto da cobiça e na rudeza / D'hua austera, apagada e vil tristeza» (CAMÕES, Luís de - Os Lusíadas, organização do texto, introdução e notas de Amélia Pinto Pais. Porto, Areal Editores, 1987, p. 552). Com estes versos, Luís de Camões está a alertar o País para o facto de o passado glorioso de navegadores que puseram em perigo as suas vidas por desígnios superiores estar nessa época descaracterizado e ter sido preterido por uma lógica de ganância, de riqueza fácil e de corrupção. Assim, a solução seria regressar às conquistas africanas, sob a chefia de D. Sebastião, a quem Os Lusíadas são dedicados. De facto, quem historicamente protagonizou esse processo de regeneração foi D. Sebastião, que, aliás, deu a vida numa dessas batalhas pela reconquista das praças do Norte de África.

A importância que representa a figura de D. Sebastião para Luís de Camões está bem patente na Dedicatória, logo no início de Os Lusíadas. D. Sebastião é o garante da «Lusitana antiga liberdade», baluarte dos bons valores nacionais, monarca poderoso, predestinado por Deus e, acima de tudo, o líder da reconquista das terras que os Mouros haviam roubado.

Ao dedicar a D. Sebastião Os Lusíadas, Luís de Camões está a frisar a importância da figura de D. Sebastião na identificação de Portugal enquanto pátria com uma história gloriosa, mas, por vezes, não muito abonatória. Gloriosa, porque sendo Portugal um País pequeno, foi pioneiro num período fundamental para a Humanidade, como foi o do alvorecer do Renascimento, ajudando a romper com a Idade Média. Mas não esqueceu o lado negativo, a degradação dos costumes, a ganância provocada pelo tesouro colonial e a exploração dos povos colonizados, fenómenos que constituíram parte das causas da concepção de desconcerto do Mundo de Camões.

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