Mito

Símbolo de patriotismo, a figura de D.Sebastião foi aproveitada pelo Estado Novo para exaltar os seus valores nacionalistas. O regime ditatorial derrubado em 1974 servia-se, na sua propaganda, da imagem de D. Sebastião, juntamente com a de D. Afonso Henriques - o pai da nacionalidade portuguesa - equiparando-os a Salazar. Estas três figuras apareciam como os «Salvadores da Pátria».

Ainda hoje, é da linguagem corrente a expressão «sebastianismo», utilizada de modo pejorativo, quando se quer dizer que alguém evoca, de uma forma temporalmente desfasada, factos passados que já não são relevantes para o momento presente.

É arriscado definir sentimentos, mas pode dizer-se que o sebastianismo consiste no mito de algo de superior que, a qualquer momento, poderá chegar de um lugar incerto, para salvar tudo o que há de mau dentro da dura realidade. Ou não fosse isso mesmo um mito. Ora, esse sentimento leva a que se criem heróis, figuras mitificadas pela boca do povo ou, mesmo, pela pena dos mais grandiosos escritores.

Com tudo o que isso tem de bom e de mau, somos, por natureza, um país de sebastianistas. A nossa história tem provado que continuamos sempre à espera de alguém que apareça do nevoeiro e nos venha resolver aquilo que somos incapazes de solucionar. Desde o século XII, altura em que foi reconhecido como País, Portugal viveu sempre, invariavelmente, em dificuldades económicas, com uma população com más condições de vida, pobre, carente. Não é, pois, de admirar esse luso sentimento de esperar indefinidamente pelo seu D. Sebastião, o Desejado.

Na circunstância histórica em que se deu o seu desaparecimento (1578 - batalha de Alcácer Quibir), significou para Portugal o início da perda da independência nacional para Espanha, fruto também de uma conjuntura sucessória, e a necessidade inerente de se criarem figuras heróicas, que representassem a superioridade dos valores nacionais, num período em que eles poderiam estar em perigo de descaracterização. Assim se explica a sua mitificação.

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